13 novembro 2016

Mestre Zumba - Por: Emerson Monteiro

De olhos no jornal e ouvidos ligados no que ocorria em volta, Pe. Frederico aguardava que o barbeiro completasse a tarefa de rapar o outro cliente, um garotinho aflito a se sacudir na cadeira enorme de tudo que era jeito para fugir da máquina impertinente. O causador da reação se tratava de mestre Zumba, que fizera fama em Crato como profissional de reconhecida competência no ofício. A mãe, sofrendo junto, acompanhava, ao lado, de pé, cada gesto da criança, rezando por dentro pela conclusão daquilo que mais parecia provação inevitável.

- Calma, filhinho, que seu Zumba vai acabar logo, - repetia, querendo mais, (quem sabe?) acelerar a função do que mesmo conformar o pequeno.

Nisso, o barbeiro, calejado nessas situações, na hora certa, recorreu ao expediente infalível:

- O menininho quer um bombom? - e falando, sem esperar resposta, foi abrindo a gaveta do velho móvel de guerra, caturando de entre tesouras, pentes e navalhas confeito reservado para a ocasião, de pronto transferido à mãozinha aflita.

Daí ficou menos drástico o período que faltava para o término do trabalho de contorno da cabeça, corte a zero, como se chamava naquela época, deixando no cocuruto apenas trunfa estreita e saliente, aumentando mais um tanto a feiura do pirralho, de fisionomia abusada que nem seu pranto.

De cara e braços salpicados de talco, livravam-se mãe e filho, cedendo lugar ao freguês da fila, o sacerdote alemão de sotaque inconfundível e corpo avantajado, que ocupou assento junto às garras do fígaro.

O novo paciente, logo recebeu as primeiras mastigadas do instrumento, pouco demorou a compreender as razões de o menino barrar daquele jeito. A máquina, cega, há muito carecia de manutenção. Dói daqui, dói dali; o instinto de conservação pesou mais, e o levita espirituoso, externando sofrimento, reagiu em tom de quem choraminga:

- Ô, Zumba, será que nessa gaveta ainda sobrou algum bombonzinho?  Pois não é que eu também estou precisando?!