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25 agosto 2016

As artimanhas de um analfabeto – por Pedro Esmeraldo

    No início da década de 1940, “quando começava abrir o botão em flor, dava a entender das agruras que apareciam no decorrer da minha vida”. Percebia “O estado de espirito e o modo de ser de alguns cidadãos que trabalhavam no campo agrícola”. Por essa maneira, começava a desencantar dos trabalhadores desonestos que atormentavam o bom comportamento do cidadão comum.
    Por esse momento cheguei a conhecer um cidadão correto, totalmente analfabeto, de estatura mais ou menos elevada, magricela, proveniente do sítio caboclo, neste município que se prontificou para trabalhar como roceiro no canavial de meu pai.
    Era astucioso, apesar de ser analfabeto, mas produzia habilidade em sua conversação. Não se deixava enganar por traços maliciosos de certas pessoas. Era manhoso e repentista. Demonstrava liderança, pois quando estava numa roda de amigos, aproximavam-se pessoas interessadas em ouvir as lorotas contadas por ele. Quando apresentava desalinho em suas conversações, respondia com palavras jocosas, pois possuía gestos de humorismo e respondia quando se endereçava as palavras para ele em tom de brincadeiras maldosas.
    Jamais teve o prazer de frequentar bancos escolares. Certa vez, quando conversava com ele confidencialmente lamenta não ter frequentado os bancos escolares e o seu vilarejo muito atrasado, e ainda não tinha sido contemplado com avanço escolar.
    O senhor João Moisés, como era conhecido nas rodas do sítio São José, era um grande observador e praticava as artes folclóricas. Exibia a arte como mestre da dança de coco e sempre era atenciosamente chamado para demonstrar a parte folclórica que era seu hobby.
    Foi um roceiro que vivia na extrema pobreza. Notava-se que ele que não podia prosperar em sua vida pregressa, devido à falta de avanço tecnológico na região e o modernismo se distanciava deste município. Seu maior desejo era procurar meios de melhorar a sua capacidade de trabalho.
    De vez em quando, sonhava em melhorar seu estado de vida e dizia: procuro comparecer as reuniões de caráter educativo, pois o meu sonho é me posicionar em outros trabalhos que possam educar meus filhos e no momento, estão caindo no esquecimento do poderoso Poder Público.
    Daí então, cansado de esperar, resolveu mudar de vida. Procurou meu pai, a quem prestava serviço, fez acordo dizendo: “seu Zé, não tenho condições de ficar mais aqui. Tenho a pretensão de melhorar a minha vida”. Infelizmente, sou analfabeto. Por isso, posso agora arrumar uma coisa melhor para mim ao comércio, já que tenho jeito para praticar o comercio. O meu objetivo é: educar meus filhos agora, Não desejo deixar o senhor, mas fico prestando serviço vendendo as suas rapaduras no correr da semana.
    Sendo assim, ficarei lutando com o senhor até a morte.
    Na época das chuvas poderei dirigir meu plantio de arroz no sítio cabeça da vaca, localizado nas margens do riacho dos carás, pertencente ao município do Juazeiro do norte.
    Lá, ele desempenhou um bom trabalho, mesmo sem a elevação de tecnologias. Soube manejar com perfeição, com eficiência, produzindo quantidade enorme, o que se tornou lucrativo tanto pra ele como para meu pai quanto para ele.
    Foi um grande observador das conversas que se pronunciavam e com isso aprendia a trabalhar com dedicação em toda espécie de serviço. Sabia fazer amizade profícua e tinha uma verdadeira paixão pela política.
    O senhor João Moisés era satírico não ficava calado quando vinham com conversas maliciosas a seu respeito. Respondia à altura, com jeito engraçado, mas se elevava em toda sua perspectiva, muitas vezes deixando o interlocutor acabrunhado.
    Conversava sempre com ele e me cantava histórias interessantes. E fazia qualquer pessoa rir. Contou-me que ia vistoriar o arroz na hora cesta e ao passar por baixo de uma árvore frondosa, viu um sujeito dormindo no chão é teve a ousadia de dizer: Tá dormindo em corno velo! Esse senhor acordou, observou-o e aguardou o momento da volta. Interceptou em sua passagem dizendo: repita seu cabra safado o que você disse comigo. Então gelou, e pediu graças a Deus para que o orientasse e o salva-se daquele impasse. Gelou, pensou um pouco e disse: Se eu correr ele me pega, se eu ficar ele me mata porque ele é robusto, de corpo atlético. Então disse: O senhor está enganado, o senhor ouviu mal, não disse essa palavra, não sou sujeito de ofender a ninguém. Agora ouça o que eu disse: tá descansando o corpo velho camarada. Aí o senhor se acalmou e pediu desculpas pela grosseria.
    Há muitas dessas histórias apresentadas por João Moisés. Uma vez ele com brincadeira na feira de Crato dizia: sou de família importante da cidade. Olha camarada eu não sou pequeno não, sou pessoa elevad, visto que pertenço à família Bacurau (a família Bacurau é socialmente elevada no Crato). O senhor João Bacurau é o delegado de policia nessa época e estava atrás do vendedor de rapadura ouvindo toda conversa.  Perguntou ao vendedor de rapadura, batendo no ombro a qual família bacurau você pertence?  Retrucou ao velho com muito medo, mas se saiu bem desses que voam pelos ares. O velho saiu rindo e não disse, mas nenhuma palavra. Outra vez ele me contou que foi ao consultório médico de doutor Mozart, outro repentista como ele. O doutor ruborizado disse pra ele: vá tomar no olho da goiabeira. Imediatamente ele respondeu: doutor arranje uma amostra grátis porque sou pobre e não posso comprar esse remédio não. Outra vez ele me contou que foi convidado para uma dança de coco na casa de um amigo. O pessoal falava mal de sua mulher e ele teve como mote a palavra: o dono da casa é o primeiro corno. A macacada aproveitou a ocasião e todos, ate do dono da casa cantava. Além dessas há outras histórias que a gente não se lembra neste momento para esclarecer o povo que ele era um gozador contumaz.
    Se pensar bem nessa história, o senhor João Moisés lutador, trabalhava com honestidade e adquiriu bens para educar filhos, chegando um deles a se formar em contabilidade, que veio posteriormente auxiliar o pai na velhice.
    João Moisés lutou até a velhice vindo a falecer de um derrame cerebral na década de 1990. Foi um exemplo para nossa juventude. Qualquer um pode subir na vida mesmo sendo analfabeto. Com sua coragem e simpatia, conseguiu grandes amizades. Obteve bens materiais que lhe satisfizeram um futuro brilhante e uma velhice protegida.

Crato – CE, 23 de agosto de 2016.






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