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26 novembro 2016

Naquele primeiro trem - Por: Emerson Monteiro

08 de novembro de 1926. Manhã de segunda-feira. Parava na estação de Crato o primeiro trem, trazido pela força dos trilhos e das matas. Era a inauguração da estação da estrada de ferro de Baturité.

Sobre os ombros de meu avô, minha mãe, criança de cinco anos, a tudo observava no meio da multidão domingueirada, absorta junto dos vagões de passageiros, onde, num deles, se instalava a banda de música que rompia de dobrados bonitos os monótonos assovios da maria-fumaça.

Encantado ante os acordes, com mãos impacientes, meu avô abria espaço entre as pessoas e namorava os feéricos instrumentos de metal. Extasiado, se aproxima, invade o recinto dos músicos e se rende à pompa dos visitantes ilustres.

Depois, logo, busca conversar com o maestro. Fixo os olhos em um banjo. A todo custo quer dedilhar as cordas do esplendoroso instrumento. Notas nervosas, precisas, rudes, tira das cordas, enquanto lá fora escorrem os discursos, na plataforma da estação. Surge-lhe a caixa de repouso forrada de veludo vermelho em que o banjo raro repousaria, de fabricação estrangeira distante.

O maestro se admira de ver tamanho interesse. Juntos, entabularam negociações nos assuntos musicais. Compromete-se a mandar pelo vagão das encomendas, meses adiante, idêntico exemplar de banjo recamado de madrepérola.

A festa estender-se-ia com outras vindas de trem, quando, algum tempo depois, meu avô receberia a encomenda prometida. Em dia memorável, lhe chega belo estojo envolto em percalina preta, forrado de veludo escuro, motivo das inúmeras noites animadas que Antônio Monteiro e outros boêmios cratenses, naquelas décadas remotas, promoveriam ao longo dos sítios do sopé da Serra, infindas algazarras de danças e amores, realizados nas luas de latadas felizes.

O primeiro trem trouxera, por conseguinte, esse equipamento musical que integraria os próximos anos de família até quando meu avô deixasse este mundo, permanecendo a peça rara algum tempo ainda com tio Quinco.

Minha mãe não soube, porém, explicar as razões quando lhe perguntei o fim que levou o banjo. Disse apenas que o tio dera ele de presente a Deodoro Gomes de Matos, dono do antigo Bar Ideal, à rua Santos Dumont (ex-rua Formosa).

Daí, ninguém sabe dizer onde foi parar, e restam guardadas só as lembranças do primeiro trem que viera a Crato durante folguedos especiais, na memória infantil de minha mãe aos ombros do seu pai querido.          

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