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28 agosto 2016

REPORTAGEM - O Santuário da Penha de França - Por: Padre Raimundo Elias

(Matéria públicada originalmente em agosto de 2010)


Por ocasião dos Festejos de N. Senhora da Penha em Crato

"Meu caro Dihelson,
Por ocasião do início da Festa de Nossa Senhora da Penha, previsto para o dia 21 deste, e por saber que as origens dessa devoção, aí em Crato, encontram-se na Penha de França, aqui na Espanha, estou lhe enviando este artigo, acompanhado de algumas fotos de quando lá estive, ano passado. Por gentileza, peço que você veja e, naturalmente, se julgar útil e oportuno, publique no 'nosso' (afinal, abro todos os dias) Blog do Crato.
Atenciosamente,
Pe. Raimundo Elias."

AFINAL, A PENHA DE FRANÇA FICA NA ESPANHA

Vales e montanhas vistos a partir do Santuário de Penha
O Santuário de Penha de França, propriamente dito

A serra da Penha de França
Chegada ao santuário da Penha
O altar do santuário da Penha
A imagem atual da Penha
A subida ao santuário da Penha

A Penha de França é uma montanha que se ergue a 1.723 metros de altura, situada ao sul da província de Salamanca, na Espanha. É, sem dúvida, a montanha mais elevada da Serra de França, na qual foi edificado o santuário mariano mais alto do mundo. Conhecida pela sua “Virgem Negra” e seu imponente santuário, a Penha de França é praticamente inacessível no inverno, por causa da neve e, por outro lado, tem grande afluência de turistas nos meses de verão na Europa. Dispõe de uma grande hospedaria, além do convento onde residem os frades dominicanos, desde o ano de 1437.
Aliás, segundo conta a história, é em torno dessa data que o bispo de Salamanca, ao ver que a montanha da Penha estava sendo objeto de fortes disputas de poder entre alguns proprietários locais, cede ao provincial dos dominicanos os direitos sobre a ermida construída naquele monte. Alguns meses depois, uma comunidade de cinco frades dominicanos assume canonicamente a ermida em causa. Em pouco tempo, o número de religiosos da comunidade estabelecida na Penha, cresceu rapidamente e fincou raízes naquela região. Nos primeiros anos do século XVI (entre 1500 e 1510), a comunidade dominicana já contava com mais de vinte religiosos, dos quais muitos partiram como missionários pelo mundo afora, sobretudo, para América e Extremo Oriente. Foram eles, portanto, os principais impulsionadores da devoção da Penha naquelas terras.

Ora, não deixa de ser estranho o nome de Penha de França que se dá a serra e à montanha onde se descobriu a imagem da Virgem. Afinal, são terras espanholas e não francesas. O motivo deste nome, porém, não se sabe ao certo. O que se sabe é, tão somente, da existência de uma colônia francesa que figura dentre aqueles que repovoaram a província de Salamanca no século XI, a exemplo do que ocorreu mais tarde com outras cidades, tais como: Toledo, Córdoba e Sevilla. Isto, talvez, explique o motivo pelo qual tenha sido dado o nome de “França” àquela Penha.

A origem da imagem da Virgem da Penha de França

A imagem original da Virgem da Penha foi encontrada pelo francês Simón Vela em 19 de maio de 1434. Tratava-se de uma escultura de estilo românico, provavelmente do século XII, que representava a Virgem sentada, segurando o filho em suas mãos e que, supostamente, havia sido escondida por trás do penhasco, no alto da Penha de França, na época das lutas entre mouros e cristãos. A escultura original permaneceu no santuário até o dia 17 de agosto de 1872, data em que foi roubada, aproveitando a situação de abandono em que se encontrava o santuário. Porém, em dezembro de 1889, os ladrões devolveram a imagem aos dominicanos de Santo Estêvão, em Salamanca. E por ter sido devolvida em estado irrecuperável, o bispo da Diocese de Salamanca encomendou ao escultor José Alcoberro, uma nova imagem que incorporasse a ela os restos da primeira, em forma de relíquia. E assim foi feito. Portanto, a segunda imagem, feita por este citado escultor, é a que atualmente se venera no santuário da Penha.

A história da Tradição Religiosa da Penha de França.
Houve um tempo em que nada de importante acontecia no mundo sem que uma vidente o anunciasse e um homem santo o sonhasse. Na descoberta da Virgem da Penha de França, não foi diferente. A vidente era Joana e o santo sonhador, Simón Vela. Conta a lenda e a tradição, que uns dez anos antes que fosse encontrada a imagem da Virgem da Penha, em um povoado que fica a uns vinte e cinco quilômetros da Serra da Penha, chamado Sequeros, vivia uma jovem piedosa de nome Joana. Quando esta jovem, em consequência de uma longa e grave enfermidade, parecia ter morrido e todos já choravam a sua morte, inesperadamente, voltou a si e começou a anunciar aos seus pais as calamidades que sofreriam por conta das muitas injustiças que praticaram e das propriedades por eles mal adquiridas. Depois, dirigindo-se a sua mãe, como que buscando consolá-la, disse-lhe: “volta o teu rosto para a Penha de França, põe-te de joelhos e com fé e devoção, reza três Ave Marias em honra e reverência a uma Virgem que lá está escondida há duzentos anos. E logo sentirás descanso em teu coração. Dita imagem, em pouco tempo, há de ser manifestada e, por meio dela, Nosso Senhor fará muitos milagres e maravilhas. E depois que a imagem tiver sido revelada, virão muitas pessoas de todas as nações, reverenciá-la naquela montanha.”

Além disso, a vidente anunciou que no Dia da Santa Cruz, ao por do sol, apareceriam três cruzes, uma delas sobre a Penha de França, “de onde a gloriosa imagem haverá de revelar-se a um homem bom e, em homenagem à Mãe de Deus, se construirá um Mosteiro da Ordem dos Pregadores (dominicanos), que será um lugar de muita devoção.” A memória da Vidente de Sequeros perdurou no tempo, sendo recordada por todos como a “Moça Santa de Sequeros”.

Por outro lado, Simón Vela nasce em Paris no ano de 1384. Seus pais, Rolán e Bárbara, eram nobres e ricos. Mortos estes, juntamente com sua única irmã, Simón, que tinha apenas 17 anos, aplica todo o seu patrimônio familiar em obras de caridade e beneficência e se refugia em um mosteiro franciscano. Ali, recebe as primeiras informações sobre uma suposta imagem da Virgem oculta na Penha de França. Depois de deixar o mosteiro e procurar, sem êxito, por nove anos seguidos, a Penha de França em seu país, se une a um grupo de peregrinos que viaja a Santiago de Compostela, na Espanha. De lá, segue para Salamanca, onde se hospeda por algum tempo.

Um belo dia, em uma Praça de Salamanca, escuta a conversa de uns serranos sobre a Penha de França e resolve segui-los. Depois de dedicar alguns dias à procura da imagem, entre os campos e penhascos da Penha, é surpreendido por uma tormenta no alto da montanha e uma pedra, desprendida por um raio, o fere na cabeça. Estando velando com sua habitual oração, ouviu uma voz que lhe disse: “Simón, vela e não durmas”. Na noite seguinte, viu um grande resplendor e uma Senhora Belíssima que lhe disse: “aqui cavarás e o que encontrares o colocarás no mais alto do penhasco e farás uma majestosa casa.”

Simón, volta a casa onde estava hospedado e, no dia seguinte, regressa à Penha acompanhado de cinco vizinhos. Lá chegando, começam a separar algumas rochas no lugar onde Simón havia tido a visão e descobrem, por detrás delas, a imagem da Virgem. Prontamente, ajudado por pessoas da vizinhança, Simón ergue uma pequena cabana no lugar onde haviam encontrado a imagem. Três meses depois, inicia a construção da capela no alto do penhasco, para onde a levam. Sabe-se que, desde 19 de maio de 1434, quando foi encontrada a imagem, até 11 de março de 1438, quando do seu falecimento, Simón Vela trabalhou incansavelmente na construção do novo santuário mariano. Nesse meio tempo, em 1437, os frades dominicanos vieram assumir a responsabilidade sobre a Penha de França e foram eles as testemunhas da morte de Simón Vela e depositários de sua última mensagem: “depois da minha morte, se manifestarão na Penha as imagens de Santiago, Santo André, Santo Cristo, Santa Catarina e um sino”. (Até o momento, só as suas primeiras foram encontradas).

Uma formidável expansão alcançou o culto à Virgem da Penha, entre os séculos XVI e XVIII, obedecendo, fundamentalmente, a dois fatores. Por um lado, ao apoio que o santuário recebeu, desde o início, tanto das autoridades civis como das religiosas e, por outro, à impetuosa corrente de religiosidade popular que despertou a devoção em torno da imagem aparecida no mais alto daquele penhasco. E, assim, reis e papas não pararam de promover e incentivar a imensa devoção popular que suscitou a imagem encontrada por Simón Vela.

A proteção oficial e a religiosidade popular provocaram uma verdadeira enchente de donativos, possibilitando a construção do santuário, do convento, da hospedaria e, depois, no começo do século XVI, a edificação de outras magníficas instalações que vieram completar a obra arquitetônica que chegou aos nossos dias. Inclusive, a lista de posses e joias que o santuário foi acumulando através destes séculos de esplendor, preenche muitas e muitas páginas de algumas histórias que sobre ele se escreveram ao longo dos anos. Todavia, de acordo com inúmeros testemunhos, o santuário sempre buscou administrar tão rico patrimônio, procurando reverter as suas rendas em favor dos peregrinos que o visitavam e dos numerosos pobres da região. Oxalá que assim o seja!

(Do texto em espanhol: “Peña de Francia”, de autoria de Ángel Pérez Casado. )

Fotos, Tradução e Adaptação do texto: Pe. Raimundo Elias Filho

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