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23 março 2016

Carta de Reconciliação da Igreja com o Padre Cícero -- por Luitgarde Barros (*)


Tenho refletido muito sobre o ambiente de regozijo com a Reconciliação, que conduziu o retrato do Padre Cícero ao interior da igreja onde foi batizado e celebrou sua primeira missa como sacerdote.

Pensar no Padre Cícero para mim é  evocar  o  grande  juazeirense  Padre Azarias Sobreira e seu inigualável livro sobre a história do Nordeste e de sua igreja – O Patriarca de Juazeiro. Seus inesquecíveis depoimentos me tocam. Lembram-me sua firmeza de caráter e, indagado,  a resposta que me deu sobre a possibilidade de algum dia ter tido dúvidas  pela  escolha do sacerdócio católico, quando me afirmou muito ter sofrido e pedido a Deus o “milagre de um sinal de que esta é sua Igreja”, acossado como sempre viveu pela descoberta dos erros da hierarquia da igreja cearense em relação ao Padre Cícero.
Este milagre aconteceu, dando-lhe o júbilo  de ver a  ascensão de João XXIII (Cardeal Roncalli) ao Papado, e a abertura do Concílio Vaticano II (11/02/1962), a primeira grande reforma da Igreja proposta por um membro da hierarquia sacerdotal. Antes,  as grandes reformas tinham sido propostas por leigos, como Francisco de Assis em 1209, opondo a pobreza aos exorbitantes tesouros e opulências do poder papal, enfim proclamando a “regra dos menores”   em  rejeição aos bens materiais. Longo foi o caminho da Igreja cristã primitiva nos seus primeiros três séculos de helenização para se adaptar à  paideia  grega de conciliação entre os poderes do mundo, até que no quarto século (313) o imperador Constantino suspendesse  a  perseguição ao cristianismo, tornando-se ele próprio cristão, atraindo para fortalecimento de seu poder todos os cristãos do Império Romano. Em 325 Constantino convoca o I Concilio de Niceia, do qual participaram cerca de 300 bispos  cristãos, no qual  se proclama a unidade  política do Império e a Doutrina da Trindade.  Para a expansão do cristianismo, Constantino  transfere a capital do Império para Constantinopla em 330. Antes de morrer havia estabelecido a existência de livros canônicos e livros apócrifos.
 Nos séculos seguintes a Igreja vai substituindo o desapego material pelo luxo, separa-se da Igreja Ortodoxa do Oriente, tornando-se  a Igreja Romana  a principal força do Ocidente, com centralidade na Europa.. A história do crescimento do viés de riqueza do papado é também a história da reação dos “franciscanos espirituais” ao crescente poder econômico-político da instituição dirigente do catolicismo ocidental. A resistência dos “espirituais” crescia com a adesão maciça de cristãos a seus princípios, até à ideia da pobreza de Cristo, que atingia a ordem social daquele tempo. Desde Bonifácio VIII os franciscanos espirituais foram condenados: em 1311, 1317, 1322 e 1323. Essa repressão é respondida  pelo mais contestador dos  pensadores franciscanos, Guilherme de Ockham, que  escreveu sobre o principal problema político de seu tempo, referindo-se ao papa João XXII: “o poder do papa, o seu direito de determinar os caminhos e os limites da vida espiritual, o seu direito de intervir nas questões temporais, o seu direito inquestionável  de propriedade e o seu direito de ter a sua autoridade inalcançável pelos outros poderes”.

A alegria do Padre Azarias em 1973 era poder ter assistido, mais de  seiscentos anos após a luta  dos franciscanos espirituais, a retomada de suas teses por João  XXIII no Concílio Vaticano II (11/02/1962), cujos temas centrais foram a Misericórdia e o voltar-se a Igreja para os pobres. João XXIII demonstrou preocupações com temas  como a pobreza de Cristo, elemento basilar do mundo beato, do qual Padre Azarias foi o maior divulgador e defensor, principalmente das práticas de seu criador – Padre Mestre Ibiapina.

 Imagino seu entusiasmo se estivesse assistindo a atuação de um cardeal latino-americano, jesuíta Jorge Mario Bergoglio que, eleito papa após a renúncia  de  Bento II, escolhe a nominação de papa Francisco, preocupado com a pobreza e a violência no planeta,  preconizando uma Igreja voltada para esses problemas concretos nas atuais dinâmicas do mundo contemporâneo.
Evocando teses caras a João XXIII, como Evangelho dos pobres e uma Igreja Pastoral,  Francisco publica  “Evangelii Gaudium” e convoca o Sínodo da Família em 2014 e 2015, quando são expostos  conflitos internos da Igreja Romana contemporânea, num mundo em crise econômica e de valores, marcado por extrema violência e aparecimento de novos protagonistas na cena internacional de disputa do poder hegemônico num  momento de diminuição da importância da Europa. Para seu papado, convoca titulados e experientes participantes de cargos como o Cardeal- presbítero de 83 anos de idade Walter Kasper (membro da Congregação para as Igrejas Orientais, do Pontifício Conselho para a Cultura, Congregação para a Doutrina da Fé, Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica,  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e Pontifício Conselho para os Textos Legislativos) e o respeitado diplomata Pietro Card. Parolin seu Secretário de Estado. Francisco empreende a dificílima tarefa de reforma do papado, objetivando  principalmente efetivar  a Descentralização do poder decisório entre Bispados nacionais e regionais. Isto é expresso pela criação de um estatuto das conferências episcopais, com o Evangelho dos pobres, ouvindo o “sensus fidei do povo”, como propusera João XXIII. 

Preocupado com escândalos na Igreja, Bergoglio se preocupa com a escassez de vocações  sacerdotais, mas clama  por “fervor apostólico religioso”, enquanto expande para a Ásia a Evangelização. Preocupado com a moral religiosa, incrementa maior rigor na seleção de seminaristas, elencando a fragilidade de motivações como busca de  formas de poder,  de glória humana ou bem estar econômico e insegurança afetiva. Como característica de uma Igreja Pastoral, recomenda criatividade das Igrejas locais na escuta dos principais problemas que angustiam os cristãos em cada país, em cada  região.  Enfim, recomenda a Igreja atenta aos clamores de seu povo, à fé e à moral cristã, na construção de uma verdadeira Igreja Mundial.
Para quem vive ou estuda as romarias de Juazeiro,  é como se aí  se encontrasse  a ideia, emanada do mundo beato, de que  a pobreza de Cristo irmanava-o com todos os romeiros do Padre Cícero e da Mãe das Dores, numa piedade cristã que o tempo, mesmo com todas as incertezas desse “vale de lágrimas” contemporâneo, só tem feito multiplicar.
Reconciliando a Igreja  com o Padre Cícero, o Papa Francisco supera a proposta de Ratzinger de “reabilitação histórica” deste que é o maior guia do povo nordestino, tendo vivido  para que o catolicismo seja educação, forma de vida, consolo dos aflitos, força dos necessitados,  respeito aos 10 mandamentos da lei de Deus, fé em Nossa Senhora das Dores, misericórdia,  exaltação do trabalho no exemplo de São José Carpinteiro, resistência ao sofrimento e o perdão divino.
Constituindo a categoria “homem de bem”, para designar seus seguidores que o ajudaram no “ciclópico trabalho”( Sic Azarias Sobreira) de soerguimento da vida nos sertões do Nordeste - com a palavra do evangelho, o trabalho e a oração, Ibiapina fundiu em seu programa missionário os preceitos de São Bento e São Francisco de Assis, este último a principal evocação de Bergoglio.
 Em sua concepção de autonomia da Igreja local para suas práticas pastorais, Francisco  destacou  na América Central o sacrifício de Dom Romero em El Salvador e, na América Latina,  a obra de Padre Cícero no Juazeiro do Norte, último testemunho do Mundo Beato em  seu possível histórico no seio de uma Igreja em transformação.
Procurando fragmentar o poder de dominação do Vaticano, o atual papa pratica o ecumenismo proposto por João XXIII e, como aquele, procura a Conciliação entre todas as denominações cristãs, superando quase milenares dissensões, com o objetivo de colocar  a Igreja cristã como Mediadora num tempo em que um por cento (1%) da população mundial detém noventa e nove por cento (99%) da riqueza dos bilhões restantes dos filhos de Deus.

No mundo estritamente político-econômico - partidos políticos, empresas e potências bélicas fazem Acordos e instalam a barbárie do saque à natureza na exploração de nióbio, coltran,  petróleo, gás, tráfico de armas e drogas, com a consequência da morte ou expulsão  de milhões de seres humanos de suas terras de origem, prenunciando-se, pela potência destrutiva  dos métodos  utilizados nessas guerras, até o desaparecimento da espécie humana.
Na busca de paz para a humanidade as Igrejas Cristãs fazem Reconciliação.
  
(*) Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros é Doutora em Ciências Sociais e Professora aposentada da UFRJ e da UERJ


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