28 fevereiro 2015

Pasto ressurge e criadores soltam animais na Caatinga

gadocaatingaCom os animais retirando da natureza sua alimentação, a expectativa geral na região é de que os preços das rações sofram uma redução, mesmo que pequena

Foto: Antonio Carlos Alves

Canindé Mesmo sem estar configurado o inverno, a Caatinga em Canindé, no sertão cearense, agora já tem folhas espalhadas pelo chão. O pasto cresceu. Em toda região dos Sertões de Canindé, área incluída no Semiárido nordestino, já choveu pelo menos 200 milímetros neste ano. O cenário mudou completamente. O seco deu lugar ao verde. Por isso, os criadores do Município voltaram a demonstrar otimismo.

Eles querem recuperar as perdas, já que, no ano passado, quase metade das 45 mil cabeças de gado estimadas nos municípios de Canindé, Caridade, Itatira e Paramoti morreu por conta da seca. Faltou comida e água.

Com o novo cenário que surge, Higino Luís deixa os animais no campo e poupa ração. "Neste ano, mesmo ainda pequeno, o pasto está melhor", diz o criador da Fazenda Facão, no Distrito de Ipú Monte Alegre, em Canindé.

O criador José Maurício tinha, no ano passado, 30 cabeças de gado. Chegou a ficar com cinco, mas já está conseguindo se recuperar. Parte do dinheiro que antes gastava com ração, agora está comprando animais. Já está com 12. Por cabeça, pagou em média R$ 300.

"Caso continue chovendo e o inverno se configure, vamos trabalhar para aumentar o número de cabeças. No próximo ano, quem sabe, a gente não tem 30 ou mais?", comenta o criador.

Os criadores de Canindé que têm um pouco mais de recurso já estão se prevenindo para não depender apenas de ração. Como houve chuva, muitos optaram pelo plantio do sorgo para a alimentação do rebanho. Ele será usado principalmente quando acabar o período de chuva e começar os longos meses de seca. No Município, foram distribuídos, pelo Programa Hora de Plantar, 870 quilos de sorgo.

A torcida é para que a chuva continue caindo até pelo menos o mês de junho. "Estamos pedindo a proteção de Deus e São Francisco para que não falte chuva no Sertão, porque, se isso acontecer, vai acabar a miséria que se instalou nos últimos anos", comenta Higino Luís, que já foi prefeito de Canindé.

Mesmo sem ser um grande produtor de leite, o Município é conhecido no Estado do Ceará por ter uma bacia leiteira de pequeno porte.

Na pequena associação dos criadores de Conceição, a câmara segue resfriando o produto trazido por eles. O produtor recebe atualmente R$ 0,97 pelo litro de leite. No ano passado, recebia R$ 0,65 por litro. No comércio, custa R$ 2,00.

Sem esforço

O criador Valdemar Soares é um exemplo. Hoje ele está conseguindo fornecer 15 litros por dia, o dobro do período equivalente do ano passado. "Além de ajuda na renda de casa, a gente tem um sossego, porque hoje o meu rebanho está todo solto no pasto, não estou fazendo nenhum esforço para manter o leite e carne", declara Soares.

Outro que comemora a mudança de clima e melhoria no pasto é Francisco Teixeira Gomes, do distrito de Esperança. "Ainda não estou vendendo o leite, mas já soltei meus animais. Antes era um sofrimento só: tinha que cortar mandacaru, comprar água do carro-pipa para não ver o que sobrou da desgraçada da seca. A coisa começa a mudar, observa Francisco.

Maria Ivonete dos Santos, que mora na comunidade de São Bernardo, disse que não aguentava mais ver suas vacas passarem por tanta necessidade.

"Cheguei ao ponto de pensar em vender as cinco por R$ 2.000,00, mas depois voltei atrás e agora, graças a Deus, tem pelo menos o que elas comerem por alguns dias".

Essa nova realidade pode mudar um quadro desolador na pecuária da região. Há menos de dois meses, uma saca de resíduo custava no mercado R$ 48,00. Um saco de milho R$ 42,00. Um saco de farelo R$ 30,00. Uma carga de capim R$ 20,00 e uma saca de soja R$ 78,00.

Investimento

Os preços podem permanecer, mas uma coisa o comerciante tem a certeza. Poucos são os criadores que ainda terão que sacrificar um pouco de sua renda para investir nesses produtos.

"Muitas vezes tirei dinheiro do comércio para salvar o gado. O leite que as vacas produziam durante a semana não dava para nem pagar o que elas comiam. Era triste", recorda o criador Pedro Tavares, da localidade de Japuara.

Antonio Carlos Alves
Colaborador

Diario do Nordeste - Regional

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