19 outubro 2014

Do seriado: Coisas da "ré-pública": São Francisco seca e ameaça agricultura irrigada (Armando Lopes Rafael)

Foto oficial do primeiro bombeamento das águas do Rio são Francisco no  eixo Leste, no último dia 09
A notícia correu a mídia com estardalhaço! Dez dias atrás, ou seja em 09 de outubro de 2014 segundo o jornal “Folha de S.Paulo”noticiou: “A duas semanas do segundo turno das eleições, o governo federal pôs pela primeira vez em teste o bombeamento que fará a água circular pelos canais oriundos da transposição do rio São Francisco. O bombeamento de água começou nesta quinta-feira (9) e seguirá ao longo da próxima semana primeiramente no canal do eixo leste da obra”. No programa eleitoral do PT apareceu um filete d’água correndo em direção ao Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Lula e Dilma assistem à cena extasiados. Excelente ator, o ex-presidente, com sua voz ronhenta, sorri para a candidata Dilma e  diz: “Tinha gente que não acreditava, companheira Dilma!”. E segue a propaganda enganosa mostrando o sertão esturricado e o filete d’água molhando a terra seca...
Agora a realidade nua e crua...Leiam, abaixo, matéria publicada no “Estadão” deste domingo:
Situação do maior rio 100% nacional é crítica e baixo volume de água traz riscos a produtores; no norte de Minas Gerais  perdas já chegam a R$ 1 bilhão.
Leito do Rio São Francisco, em outubro de 2014, em trecho de Minas Gerais (Estadão)
Desde julho, uma situação inusitada ameaça os 21 produtores de frutas do Projeto Pirapora, em Minas Gerais, referência por ter sido em 1975 a primeira experiência de irrigação com as águas do São Francisco em Minas Gerais. O rio começou a baixar rapidamente. E baixou tanto que o local da captação de água foi invadido pela areia. Desesperado, Nadson Martins, gerente do projeto, fez uma gambiarra. Arrumou uma escavadeira, rasgou o leito do rio, abriu um canal e pediu emprestadas bombas flutuantes para jogar água no encanamento do sistema de irrigação. “Sem a água do São Francisco, o projeto não existe: se não chover logo, podemos passar a chave no portão e ir embora.”
Outro trecho do Rio São Francisco, no estado de Minas Gerais
Entre os rios 100% brasileiros - que nascem e deságuam dentro das fronteiras do País -, o maior é o São Francisco. A sua bacia hidrográfica ocupa 7,5% do País. Está presente em 521 municípios, quase 10% do total nacional. No entanto, apesar do porte e da tradição de resistência às intempéries climáticas, nem ele suporta a estiagem. A reportagem percorreu 1,7 mil km de estradas - metade delas de terra beirando o São Francisco - para ver de perto a situação do rio. O trecho escolhido foi o chamado Alto São Francisco, em Minas. Pelo caminho, encontrou plantações de café e eucalipto amarelando, gado magérrimo em busca de abrigo sob árvores sem folhas, fazendas com pivôs de irrigação desligados e a terra nua à espera da chuva para o plantio. Junto ao rio, o que mais se avista é o seu fundo, que emergiu criando ilhas, ora de pedras, ora de areia. Em outros pontos, abriram-se poças. Lá os peixes são presas fáceis para a pesca, a essa altura já considerada predatória, dada a facilidade com que cardumes inteiros são capturados.
Segundo cálculos da Emater de Montes Claros, o norte de Minas contabiliza R$ 1 bilhão de perdas com a seca nos últimos anos. Cabeças de gado, no total de um milhão, morreram ou foram vendidas a outras regiões para não morrerem de sede. Cerca de 80% das safras de arroz e feijão se perderam.
Espera. Quem mais sofre são os pequenos produtores, como Maria Rodrigues da Silva, 48 anos. Ela tem um terreno na ilha Maria Preta, em Itacarambi, já perto da Bahia. Cultiva feijão, milho, mandioca, melão, melancia e caxixe - como ela define, planta que dá um fruto “cascudo como a abóbora”. Apesar de a propriedade estar bem no meio do rio, não vai plantar. “A terra já está limpinha, mas sem a água da chuva, não nasce”, diz Maria.
Produtores que contam com uma estrutura mais sofisticada também estão preocupados. Em todo o São Francisco há nove polos de irrigação, que geram uma receita anual de quase R$ 2 bilhões. Todos têm restrição de água. Na margem oposta à de Maria está o Projeto Jaíba, um dos maiores empreendimentos irrigados da América Latina. Nos seus 25 mil hectares estão 2,1 mil produtores. O Jaíba já sofreu uma redução de 25% no fornecimento de água.
Lá Romeu Dias dos Santos, 58 anos, diz que, em último caso, seus limoeiros sobrevivem um ano sem água. “Não dão frutos, mas o pé fica”, diz, caminhando entre suas árvores ainda verdinhas. Dailton dos Santos Ferreira, gerente da Brasnica, a maior produtora de bananas do País, que abastece grandes redes como Pão de Açúcar e Walmart, não tem a mesma serenidade. “Tentamos perfurar seis poços artesianos, mas não fomos felizes: até o lençol freático caiu. Não temos mais o que fazer e se a água baixar mais, acabou.”

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