27 setembro 2014

Os eleitores vinham às carradas - Ronaldo Correia de Brito (*)


Antigamente, os homens mandavam costurar um paletó para usarem no casamento e em todas as ocasiões importantes da vida. Atravessavam anos com o vestuário e, por fim, se enterravam com ele. Meu pai se casou com um terno de linho diagonal branco, uma gravata e um lenço de seda francesa, adereços bem sofisticados no nosso mundo sertanejo. Os filhos cresceram vendo o paletó bem protegido num guarda-roupa, de onde saía apenas nos eventos importantes, como as eleições. No Crato, era comum debocharem das pessoas bem vestidas, perguntando se ela ia votar. Quanto significado atribuíam ao voto.
Quando Jânio Quadros se elegeu, meu pai, que era um udenista ferrenho, envergou seu paletó de linho e pôs um broche dourado com uma vassourinha, símbolo de Jânio. O Novo presidente havia prometido na campanha varrer todas as podridões da política nacional e acabar com as brigas de galo. Nesse dia da vitória, meu pai chegou tarde em casa. Ficara bebendo e conversando com os amigos. Enquanto comemoravam, um caminhão desfilou pela cidade arrastando uma imensa vassoura fabricada com palha de carnaúba, que levantou uma poeira dos infernos. Nosso vizinho de rua queimou uma bateria de cem bombas. Um rebanho de gado, subindo ao matadouro para o abate, assustou-se com o tiroteio e entrou no palácio do bispo. Foi o maior alvoroço.
Eram os acontecimentos eleitorais. As pessoas se ocupavam com eles por semanas. Os homens se reuniam na Praça Siqueira Campos, depois do cinema, e esqueciam a hora de voltar para casa, entretidos com a política. No Crato, os partidos de força eram a UDN e o PSD, sendo o primeiro conservador e de direita. Havia o PTB, mas sua representação era bem pequena. Também existiam comunistas, sempre misteriosos e cercados de folclore. Somente depois do Golpe de 1964, quando assistimos alguns desses militantes sendo presos, percebemos o quanto eles eram ingênuos e as forças de repressão truculentas.
Nossa casa de esquina dava para um pequeno bosque de eucaliptos, ipês e oitizeiros, mais tarde transformado num parque municipal. Nos dias de votar, caminhões vindos do interior do município descarregavam carrocerias de eleitores, gente transportada como se fosse gado. Faziam parte de comunidades que nos habituáramos a chamar de currais eleitorais. Os patrões, geralmente donos de engenho, escolhiam em quem eles votariam. As chances de um candidato local eleger-se dependiam de quantos currais ele possuía. Ganhavam-se esses ajuntamentos de votantes com promessas de emprego e outros favores mais substanciais aos donos de terra e gente.
As pessoas recebiam envelopes com as “chapas” prontas. As “chapas” eram papeis com o retrato e o nome do candidato. O trabalho de votar consistia em depositar o envelope na urna. Adestravam os analfabetos a escrever o nome próprio, numa garatuja quase sempre ilegível. A maioria dos eleitores era analfabeta e a escolha do candidato em quem votar já havia sido feita pelo patrão. Mudou a urna, tornou-se eletrônica, mas a inconsciência de quem vota continua parecida. Os guias eleitorais sob controle dos partidos poderosos e com mais aliados, garantindo um tempo maior no rádio e na TV, se assemelha à voz do patrão. No fim, assistimos ao mesmo massacre. Nenhum candidato fala o que verdadeiramente pensa, mas o que sugere o seu marqueteiro. O compromisso com a verdade? O que é isso na política brasileira?
Os donos dos currais eleitorais, e do outro tipo de gado, matavam um boi, que era cozido no bosque, debaixo das árvores. Os eleitores enchiam a barriga, se arranchavam como romeiros, sentiam-se importantes e bem tratados pelo menos um dia na vida. Pagavam a regalia com o voto. Lembro que eles também usavam as melhores roupas, mas não consigo imaginar onde essa gente matuta se aliviava das necessidades fisiológicas. Talvez em alguma moita das proximidades. Por que isso me preocupa? Apenas porque me lembrei que naquele tempo, como agora, o saneamento básico é sempre uma promessa esquecida.
Meu pai vestia o paletó branco de linho diagonal no dia da eleição. Ninguém dava nó em gravata melhor do que ele, um perfeito Double Windsor. Será que ele também punha o lenço de seda francesa, dobrado com um charme especial, deixando três ou quatro pontas aparecendo no bolso da lapela? Fazia tudo isso apenas para votar, pois achava o voto uma coisa séria. Ouvia, lia, pensava e escolhia. Papai errou muito nas suas escolhas políticas. Mas como ele brigava por seus candidatos, acreditando nos discursos falsos, nas promessas vazias. Como esperou que o Brasil melhorasse, se tornando mais justo e igual. Nos últimos anos, deixou de vestir o paletó para votar. Tornou-se meio debochado, indo às urnas com uma bermuda surrada. Imagino que perdeu a fé no voto.
(*) Ronaldo Correia de Brito, nasceu em Saboeiro e viveu a infância e juvenude em Crato. É escritor, médico e dramaturgo.  Radicado no Recife, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, 1975. Foi escritor residente da Universidade de Berkeley, Califórnia, participou de diversos eventos internacionais, como a Feira do Livro de Bogotá e o Salon du Livre de Paris. Recebeu homenagens por sua obra, como a da VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.                                                                                                                      

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