30 julho 2014

Além da esfinge - Por: Emerson Monteiro


Fora aquela decerto a terceira vez que lia o mito de Édipo. Persistia nos meus pensamentos o mesmo travo das coisas inacabadas continuarem rondando os dias, horas a fio, nalgumas perguntas teimosas. Que decifrar, ou devorar maroto, interesseiro, totalitário, da esfinge colossal, metade gente, metade fera.

Volta e meia, nas margens de qualquer estrada, nem que fosse dessas variantes sertanejas de cancelas e cerca de faxina, postada na pose clássica do quase bote iminente, lá surgia nos olhos do pensamento a milenar mulher, misto de suçuarana indomável, a lançar a interrogação astuciosa:


- Decifra-me ou te devoro, seu animal inferior!


Não que inexistisse coerência no drama grego do monstro de estrada, não. Longe de eu questionar a esse ponto. Também pudera, moço, querer tanto e tão distante. Pensava no espaço aceso da consciência o que seria, na verdade, a resposta de Édipo, que, no meu entender, seria insuficiente para cumprir em cheio a exigência do terror de Tebas, que, nem por isso, ao receber a resposta, satisfeita no desencanto, jogou-se no abismo, libertando a todos do medo que causara longo tempo.

Explico melhor, pois diz a lenda que Édipo decifrou como sendo o ser humano o tal bicho do enigma, de qual o animal que de manhã anda com quatro patas, à tarde, com duas, e à noite, com três. Daí nascendo um enigma ainda maior, o de que seria o homem. Só ser é pouco. Quem é o homem, enfim, essa carcaça elaborada em queda livre no abismo do infinito?

E a esfinge correu para a morte, ela própria sendo morte. Com isso libertava os tebanos para seguirem vivos, expostos à própria sorte, esfinges vivas no trilho da eternidade. Enigma dos enigmas, de longe instransponível, raça de homens no caminho da Tebas celeste.

É isto, bem isto, a persistir na interrogação do enigma que considero mais definitivo e cruel, aos tantos aventureiros da jornada do que apenas aquele das quebradas do oriente grego.

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