27 março 2014

Sobre o nascimento e o batismo do Padre Cícero – Armando Lopes Rafael


Este 24 de março de 2014 assinalou os 170 anos de nascimento – na antiga Vila Real do Crato – do Padre Cícero Romão Batista, eleito pela população cearense em 2000, O Cearense do Século. Na cidade de Juazeiro do Norte, como sempre, a data  foi  feriado municipal. Lá, aconteceu vasta programação, em meio a mais uma romaria feita em  memória daquele padre católico.  O nosso estimado amigo e  pesquisador Antônio Correia Lima escreveu um trabalho sobre a data do batismo do Padre Cícero, publicado neste blog. Tenho sobre este assunto meu ponto de vista. A conferir.

Certidão de Batismo do Padre Cícero

Existe na Capela Batismal da Catedral de Crato um quadro com a Certidão de Batismo do Padre Cícero – contendo a fotocópia da folha 61 do Livro de Batizados de 1843 a 1845 – onde consta:
“Cícero, filho legítimo de Joaquim Romão Batista Meraíba, e de sua mulher Joaquina Ferreira Castão. Nasceu em 23 de março de 1844 e foi batizado pelo pároco solenemente com santos óleos nesta cidade do Crato em 8 de abril do mesmo ano. Foram seus padrinhos seu avô paterno Romão José Batista e Antônia Maria de Jesus, do que para constar mandei fazer este assento em que me assino. Manuel Joaquim Aires do Nascimento”. 
Como se sabe, o nascimento do Padre Cícero foi sempre comemorado a 24 de março. Quando de sua estada em Roma, em carta datada de 24 de março de 1898, endereçada a sua mãe, o próprio Padre Cícero escreveu: “Hoje, que faço 54 anos e véspera da anunciação da Mãe de Deus…”. Os que escreveram sobre este sacerdote interpretam esta divergência de data cada um a sua maneira. Otacílio Anselmo via nessa troca um sinal da “vaidade doentia” do sacerdote, com o intuito de vincular seu aniversário natalício ao dia 25 de março, quando a Igreja Católica festeja a Anunciação à Virgem Maria. Já o médico-historiador Irineu Pinheiro, autor de “Efemérides do Cariri” fez ali constar: “Sempre sua família, seus amigos e ele próprio festejaram seu aniversário natalício no dia 24 de março…”.

Controvérsias à parte, o registro no livro de batismo dando a data de 23, ao invés de 24 de março, pode ter sido apenas um lapso normal, bastante corriqueiro nas anotações nos Livros de Batismo , fruto, quem sabe, de engano na informação ao vigário Manuel Joaquim Aires do Nascimento, ou mesmo simples lapso de transcrição.

Em que casa nasceu o Padre Cícero?


“Vista da Cidade de Crato", aquarela de José Reis de Carvalho pintada em 1859. Assim era Crato àquela época. A atual Sé Catedral só tinha, à época, uma torre, a do lado Sul. José Reis integrava a Comissão Científica de Exploração das Províncias do Norte e Nordeste, apoiada pelo Imperador Dom Pedro II.


Duas versões são defendidas, entre os historiadores regionais, no que diz respeito a residência onde teria nascido, na cidade do Crato, o Padre Cícero Romão Batista. A primeira versão - defendida por Irineu Pinheiro - diz que o famoso sacerdote veio ao mundo numa casa, lado do sol, existente à Rua Miguel Limaverde. A casa pertencia ao coronel Pedro Pinheiro Bezerra de Menezes, e posteriormente fora desmembrada em duas residências. Ambas demolidas, quando do alargamento daquela rua, na fúria insana de destruir o que resta do patrimônio arquitetônico do Crato, para dar lugar à passagem de veículos automotores. A outra versão – a que nos parece mais certa – defende que o Padre Cícero nasceu numa casinha, no terreno onde hoje se ergue o Palácio Episcopal, na atual Rua Dom Quintino (foto acima), à época Rua das Flores.
Irineu Pinheiro defendia o imóvel da Rua Miguel Limaverde, como o local do nascimento do Padre Cícero, baseado em depoimento de uma escrava da família do famoso sacerdote, conhecida como “Teresa do Padre”, mulher humilde e bastante estimada na cidade de Juazeiro do Norte, onde gozava a fama de uma pessoa virtuosa e de credibilidade.

Entretanto outro ilustre historiador, o Padre Antônio Gomes de Araújo, escreveu este depoimento: “Teresa do Padre, já começava a mergulhar no crepúsculo da própria memória, cuja desintegração começara”. Ou seja, a boa velhinha caminhando para os cem anos de idade, já não dominava mais a própria memória, deficiência física a que estamos sujeitos todos nós, os seres humanos, quando a velhice nos domina".

Já a versão de que o Padre Cícero nasceu numa casinha simples, onde hoje é o Palácio do Bispo, tem diversos defensores. Segundo depoimento prestado pelo cônego Climério Correia de Macedo ao Padre Antônio Gomes de Araújo, e incluído no livro A Cidade de Frei Carlos, o cônego declarou: “Minha tia paterna, Missias Correia de Macedo, cortou o cordão umbilical do Padre Cícero numa casa que foi substituída pelo palácio de Dom Francisco" (referia-se ao atual Palácio Episcopal construído por Dom Francisco de Assis Pires, segundo bispo da diocese do Crato, visto na foto à esquerda).

E continua Padre Gomes no seu livro citado: “É corrente que, no chão em que se ergue aquele palácio, havia de fato uma casa, que foi cenário, por exemplo, da recepção do Padre Cícero quando este chegou do Seminário de Fortaleza, ordenado sacerdote, bem como das festas que envolveram a celebração de sua primeira missa. É certo que dita casa pertenceu ao major João Bispo Xavier Sobreira (...) Com sua morte a dita casa passou à viúva, dona Jovita Maria da Conceição. Seus herdeiros venderam a casa a esta diocese”.
Assim, tudo está a indicar que o Padre Cícero veio ao mundo na casinha simples, entre fruteiras, localizada no terreno onde hoje se ergue o Palácio Episcopal. Deixamos nossa sugestão para que o Governo do Ceará e a Prefeitura do Crato providenciem a colocação de uma placa, assinalando o local onde nasceu um dos mais conhecidos sacerdotes católicos do Brasil, o ilustre filho do Crato, Padre Cícero Romão Batista. É uma forma de preservar a memória histórica de Crato, tão ultrajada e descaracterizada por administradores insensíveis e de poucos conhecimentos culturais...

Texto e postagem: Armando Lopes Rafael


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