09 fevereiro 2014

Natureza íntima - Por: Emerson Monteiro

Numa de suas parábolas, o sábio hindu Ramakrishna conta que, certa vez, uma tigresa prenhe realizava caçada em busca de alimento, e corria atrás de rebanho de carneiros apavorados, quando, na plena função de sobrevivência, acabou por dar cria. No esforço de parir, misturado com a pressa da perseguição desarvorada, a fêmea não resistiu e morreu. Ao saltar, cairia exangue ao solo.

Deixou vivo, entretanto, o filhote, de imediato cercado pelos ovinos, que se viram na condição de lhe oferecer elementos necessários à subsistência, consequência disso, o integraram ao rebanho, daí tocando adiante o tempo.

Logo copiaria o felino os hábitos daqueles com quem convivia, fruto da observação e do sustento. Nutria-se de vegetais, balia feito borrego na face do perigo e dormia nos estábulos, em harmonia com parceiros amistosos, sem desconfiar do que ele fosse.

Largos dias se passaram, quando, numa outra perseguição empreendida por tigre adulto que localizou os carneiros, este descobriu o tigre-carneiro, que viu ser observado pelo feroz predador. Admirado com a descoberta, a fera resolveu modificar a situação.

Perseguiu o raro animal, o prendeu pela nuca, cercando-o de cuidados extremos, e buscou lhe indicar a condição de parente seu, levando-o às margens de um lago tranquilo para mostrar, no espelho da água, os traços da parecença entre eles dois.

- Veja, sua forma é semelhante à minha! Somos selvagens. Seja, por isso, um tigre igual a mim. Coma carne invés de folhas e palha!

Desconfiado, todavia ciente dos argumentos, o tigre novo, criado pelos carneiros resolveu abandonar o rebanho amigo e se embrenhar nas matas, seguindo o tigre adulto.

A princípio, encontrou imensas dificuldades com a ração de carne que o outro apresentava das primeiras vezes, fazendo-o comer quase à força. Superados os esforços iniciais, sentiu prazer nas refeições sangradas, o que reforçou a condição que só naquela hora tinha a certeza de haver descoberto.

Mais algum tempo adiante, se adaptou aos valores originais da raça, cumprindo formalidades adormecidas do instinto, qual se antes nunca houvesse agindo de modo diferente.

Então, refeito do susto, o tigre mais velho a ele se dirigiu considerando:

- Agora você compreende que é semelhante a mim? Venha, siga-me nos caminhos da floresta.

...

Ao contar essa história, o místico indiano quis mostrar aos discípulos a importância da orientação a quem deseja descobrir o seu verdadeiro Eu, nada semelhante ao que imaginam os que vivem sob o domínio do ego no itinerário ascendente da busca espiritual.

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