12 dezembro 2013

O ermitão e o salteador (original de Gonçalo Trancoso) - Por: Emerson Monteiro

Um ermitão vivia longe do burburinho de vilas e cidades, quando, certa feita, abordado por perigoso salteador, ouviu essas palavras:

- Sei que o senhor é um homem de fé e que tem méritos perante Deus. Por isso, peço que reze para eu deixar essa vida errada, e se conseguir fará de mim seu amigo. Mas, no caso de seus pedidos não surtirem efeito, volto para lhe tirar a vida, fique ciente.


Transcorridos alguns meses, ele aparecia de novo à busca de conselhos. A visita terminava e se lembrou do que dissera na vez anterior:


- Continuo esperando as orações para que eu escape da vida criminosa e dos desmandos que venho praticando; senão, o senhor é que pagará com a vida, dentro de breve tempo. Destruirei tudo que achar, e eliminarei sua existência.


Muitos dias passados até que o marginal viesse, de novo, ao refúgio do santo homem, nas montanhas retiradas. Trazia mais aflorados os instintos perversos, e logo que chegou veio demonstrando a intenção de fazer o que prometera.


À presença do facínora, o ermitão notou os riscos dos acontecimentos. Embriagado e violento, o salteador manifestava agressividade nunca vista, danificando os objetos que avistava na humilde choça. 


- Vim cobrar o compromisso – afirmou. – Nada melhorou para mim desde quando vim aqui da derradeira vez. Ao falar, avançou num gesto de intensa brutalidade, roubando ao monge qualquer chance de fuga. 


Submetido aos instintos do meliante, – argumentou: - Antes me permita propor um acordo. Há pouco, cavei minha própria sepultura, nas imediações de casa. Se juntos conseguirmos remover uma pedra com que a fechei, pode me atirar lá dentro, me cobrindo de terra; e fica tudo resolvido. Porém, se isso não conseguir, me deixará em paz, livre de perseguições.


Mais calmo, o agressor resolveu aceitar a proposta. Daí, ambos se dirigiram ao lugar estabelecido e iniciaram o esforço de remover a pedra. Enquanto o salteador buscava, com empenho, deslocá-la, o ermitão a todo custo resistia para conservá-la na mesma posição. Durante a peleja, demoram alguns momentos, até que o marginal percebeu a atitude do santo, e disse:


- Ah! Como posso tirar essa pedra, pois o senhor aplica toda força para evitar que eu consiga? – perguntou raivoso.


- Pois bem, eis o que venho observando –, retrucou o ermitão. – Enquanto rogo a Deus pela sua conversão, o senhor em nada contribui, se mantendo preso aos vícios, esquecendo de exercitar os princípios da virtude. Tem de agir no sentido contrário das tendências ruins, contrapondo, aos atos negativos, gestos positivos.


Só nessa hora o saltador compreendeu o que o mestre lhe orientava, e despertou do erro em que agia, se transformando, então, noutra pessoa, nova e honesta.           



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