22 dezembro 2013

Como era o Natal em Crato no final do século 19 – por Paulo Elpídio de Menezes (*)


Era assim o Crato de 1887 que, com tanta honestidade e fé, comemorava a noite do nascimento de um dos maiores filósofos idealistas da Humanidade


(...) Às quatro da tarde, ouvia-se o ronco da feira que, começando do Fundo da Maca, subia pela Rua Grande, morrendo no largo de São Vicente. Expandindo-se pela Travessa da Califórnia, invadia parte das ruas de Boa Vista, da Vala, do Fogo, Laranjeira, Formosa e Pedra Lavrada. Entrava noite adentro. Ao badalar do sino, chamando para a Missa do Galo, o movimento esmorecia. O barulho decrescia. O povo rumava em direção à Praça da Matriz. Deixavam de abandonar a feira apenas as pessoas que guardavam os montes de frutas de toda qualidade, as gamelas de massa de buriti, as rumas de rapadura, os tabuleiros, as mesas de jogo, as panelas de arroz de galinha, as bandejas de manuês e de doce seco, os potes de aluá, que se vendia por toda parte e era oferecido nas casas de família. Em diversos lares se erguiam lapinhas.

Mas o presépio do Padre Félix primava sobre todos. Levantado no orfanato por ele instituído, ali se encontrava, deitado no berço, o Menino Jesus, vigiado por Maria e José. Os três Reis do Oriente, ajoelhados, e a estrela, pairando no alto, alumiava a manjedoura, com que satisfeita de haver ensinado aos possuidores de tanta riqueza o caminho do lugar onde acabava de nascer o futuro reformador da religião judaica...
Em torno, mais distante, e em atitude contemplativa, a tradicional vaca, o carneiro, o tigre, o leão e mais alguns animais ferozes. O galo conservava-se ainda de bico aberto, anunciando que Jesus tinha nascido. A divina criança estava colocada numa caixa de música que, depois da corda, tocava – ‘já nasceu o Menino Deus”... E, simultaneamente, descruzava as pequenas mãos, abria os olhos, voltando depois à mesma posição. Esses movimentos se repetiam, numa espécie de sístoles e diástoles. Doze pastorinhas, divididas em duas alas, cantavam os versos iniciados pela caixa-de-música, acompanhando com os seus maracás. À certa altura, abriam alas, para a entrada dos índios, que também vinham render homenagem ao Redentor da Humanidade... As ciganinhas, como que surpresas com a visita dos filhos da selva, enfeitados de penas, cocares e armados de arco e flecha, entoam cânticos de interrogação:

Quem são vocês?’
- ‘Caboclos da aldeia’,


Respondem, também cantando:

- ‘Para onde vão?’
- ‘Vamos a Belém’
- ‘Ver o que?’
- ‘A Jesus, nosso bem’.


Rompem, então, as Pastorinhas: -
Oh, que noite tão alegre, que convida os Caboclos a visitarem o Deus Menino; oh que bela e feliz noite!’
A casa de minha mãe, viúva, ficava parede e meia com o Orfanato do Padre Félix. Eu tinha, talvez, uns oito anos de idade. Depois de ouvir a Missa do Galo, me levavam para a rede. Pegando no sono, quase abafada pela zoada do povo, a vozinha tremida e afinada da Pastorinha destinada a pedir em benefício da casa onde se amparavam as meninas que tinhas a mesma sorte que a Ciganinha:

Dá esmola, dá esmola
Nem que seja de um vintém,
Que no céu acharás
A lapinha de Belém.


Era assim o Crato de 1887 que, com tanta honestidade e fé, comemorava a noite do nascimento de um dos maiores filósofos idealistas da Humanidade.

(*)  Paulo Elpídio de Menezes, in “O Crato do meu tempo”, Fortaleza, 1960.

   

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