30 setembro 2013

Boqueirão de Lavras - Por: Emerson Monteiro

A cinco quilômetros da sede do município de Lavras da Mangabeira, região do Sertão do Salgado, no Estado do Ceará, localiza-se um dos mais belos fenômenos naturais de que se tem notícia em todo Nordeste brasileiro, o chamado Boqueirão de Lavras.

Talhado em serra de primorosa formação calcária, erosão espontânea ocasionada pela força das águas, o monumento geológico apresenta fenda de 40m de largura por 96 de altura, na Serra do Boqueirão, lavrado pelo leito contínuo do Rio Salgado, um dos afluentes principais do Jaguaribe, cujas águas desses trechos alimentam o Açude do Castanhão.

O Boqueirão representa dois contrafortes rochosos de massa pouso resistente, segundo o engenheiro inglês Jules J. Revy, responsável pelos estudos preliminares realizados para uma provável construção, naquela área, de reservatório, obra cogitada no tempo do Império, o qual ainda acrescentou ao seu parecer as outras dificuldades técnicas restritivas que se enfrentaria de fixar escoadouro sobre rocha sólida (à época inexistiam os recursos materiais desenvolvidos pela moderna tecnologia da construção posterior), caso levada adiante dita pretensão.

Cantado em prosa e verso através das produções de quem o conhece, este tradicional evento reserva no seu interior aspectos peculiares de relevo pitoresco, quais salões atapetados, móveis diversificados de mesas, altares, todos guarnecidos de toalhas, baixelas ornamentais e o desenho nas pedras de um carneiro, imagem encontrada pelos pesquisadores noutros fenômenos de cavernas, figura recorrente e símbolo mágico dos lugares montanhosos.

Numa longa caverna vazada sob as paredes de pedra do Boqueirão, depreende-se uma mãe d’água, isto é, lago interior cavado e conservado no íntimo dos penhascos, efeito visível noutros rios e que persistentes mesmo nos períodos de estio. Constituídas de águas cristalinas e calmas, apreciadas pelos animais silvestres, as mães d’água são chamadas também de camas da Iara, a deusa das águas. Segundo a tradição, em circunstâncias próprias, de raro em raro, essa personagem mitológica seria vista pelos afoitos aventureiros que procuram esses pousos recolhidos.

No Boqueirão de Lavras, a lenda marca presença por meio do folclore regional da Iara, bem como em torno da existência do Carneiro de Ouro, avistamentos narrados em ocasiões especiais pelos habitantes da região, afirmações legendárias que servem de contorno à beleza do marco original até hoje pouco explorado em termos turísticos, no que pesem as políticas oficiais do setor, no mundo inteiro.

A gruta desta formação rochosa fica numa elevação de cem palmos acima do leito do poço, abóbada achatada onde pululam milhares de morcegos, bichos típicos dos sítios longe do movimento intenso da civilização.

Na verdade, o Boqueirão surpreende os visitantes ocasionais do município, sem, no entanto, dispor do mínimo de infra-estrutura, o que facilitaria sua melhor abordagem. Uma estrada carroçável de piçarra permite o acesso de automóveis, contudo carece do mínimo de conforto aos que pretendem demorar algum tempo no local. 

(Foto: Jackson Bola Bantim).

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