04 março 2013

A mitificação de Milton Santos. Por: Luiz Lopes Diniz Filho


Poucos intelectuais brasileiros foram tão mitificados quanto Milton Santos, e não só pelos geógrafos. Certa feita, abri o Estadão e dei risada ao ler o seguinte: "Ele entra para a história intelectual do País não só por antever as perversidades da globalização e os fenômenos mundiais da urbanização, mas por ter revolucionado a geografia, ao entendê-la como uma ciência humana e não natural" (Pires, 2007, p. D9).


Qualquer geógrafo sabe que é uma tolice sem tamanho dizer que, de Humboldt até o final do século XX, Milton Santos foi o primeiro a ver que a geografia não era uma ciência natural. Mas é provável que a maioria dos não geógrafos engula essa ideia, o que contribui para transformá-lo em mito aos olhos do público em geral. Ainda assim, eu não me incomodaria com a atribuição de falsos méritos intelectuais a Milton Santos se isso não tivesse também desdobramentos político-ideológicos externos à geografia. É o que se vê no texto citado, em que a elevação de Milton Santos à condição de revolucionário da geografia serve para reforçar a avaliação de que ele foi também o profeta que teria antevisto “as perversidades da globalização”...

Ora, anteviu coisa nenhuma! Bem ao contrário do que ele afirmava (e sem citar qualquer estatística), o capitalismo vem produzindo uma rápida e expressiva redução da pobreza no Brasil e no mundo. Quem tiver dúvidas disso pode conferir no post Acadêmicos podem sonegar informação? e no artigo Globalização e pobreza: o caso do Brasil. De outro lado, lembro-me muito bem que, quando frequentei a graduação, na segunda metade dos anos 1980, Milton Santos afirmava em palestras que ainda era muito cedo para cobrar sucesso do socialismo porque se tratava de uma experiência histórica com apenas 70 anos, em comparação com os 500 anos de história do capitalismo. Pouco tempo depois, entretanto, vimos a queda do Muro de Berlim, o esfacelamento da URSS e a volta de quase todos os países socialistas do mundo ao capitalismo. Ele defendia o socialismo real quando esse sistema já estava prestes a cair de podre. Isso é que é antever o futuro!

Mas pior mesmo são os intelectuais que falseiam as visões político-ideológicas de Milton Santos para pintá-lo como humanista e defensor da democracia. É o caso do cineasta Silvio Tendler (2005), que, em documentário sobre esse autor, retratou-o como formulador de uma “proposta libertária” (sic!). Ora, o fato de Milton Santos ter defendido o socialismo real sem se incomodar com o totalitarismo dos regimes comunistas já é prova cabal de desprezo pela democracia e de indiferença pelos milhões de mortos produzidos pelo socialismo. Mesmo assim, vou citar um outro testemunho pessoal para corrigir a mitificação produzida por Tendler. Quando eu era aluno de graduação, assisti a uma fala que Santos proferiu durante uma aula a convite da professora. Nessa palestra, ao ser indagado por um aluno se o regime sandinista deveria radicalizar suas ações no rumo do socialismo, apesar das resistências políticas que inevitavelmente ocorreriam, Santos respondeu que sim e acrescentou, sorrindo!, que não via outra saída a não ser usar o paredão, assertiva ilustrada com o uso dos polegares e indicadores para fazer uma mímica de metralhadora em ação. Mas alguém como ele, que acusava os intelectuais não socialistas de atuarem como mercenários do capitalismo selvagem e que vivia se dizendo defensor do “humanismo” contra o “economicismo” estava realmente em posição de fazer tais críticas de cunho ético aos seus pares, sobretudo considerando que suas teses políticas autoritárias e homicidas só costumavam ser reveladas por inteiro em eventos científicos e, mais explicitamente, no espaço fechado das salas de aula?

Nenhuma geografia merece levar tomates mais do que a geografia de Milton Santos.

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PIRES, Francisco Quinteiro. Um demolidor elegante e otimista. O Estado de São Paulo, Cultura, 02 de dezembro de 2007, p. D9.

TENDLER, Silvio. Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá. Rio de Janeiro: Caliban Produções Cinematográficas, 2005. 1 filme (89 min): son., color.; 16 mm.
OBS.: Publicado originalmente em 09 de junho de 2011, no site Geografia em Debate

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