16 setembro 2012

Bom Domingo! - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


MEU AMIGO!

No Crato existiram muitos projetos com financiamento da Sudene. José Justino foi um dos beneficiados pelo Projeto Asimov e também dera entrada em projeto na Sudene. Mas o tempo passava e não obtinha nenhuma resposta. Certo dia, lamentando esse fato numa conversa na Praça Siqueira Campos, estava presente o Juvêncio Bezerra (o do pássaro de dois bicos), que gostava de contar muita mentira e não fazia segredo disso. Então disse:
- “Mas Justino, por que você não me falou há mais tempo. Eu sou amigo de infância do João Gonçalves, o Superintendente da Sudene. Fomos criados juntos, em Lavras da Mangabeira. Tomei muito banho no riacho com o Gonçalves. Querendo, em vou a Recife com você e prometo que a gente desencava esse projeto!”.
Mas o Justino pensou que fosse mais uma brincadeira do Juvêncio, uma das suas mentiras. Passados alguns dias tornaram a se encontrar e o Juvêncio voltou a insistir:
- “Eu tenho que fazer um frete para Recife e você vai comigo, no meu caminhão!”
O Justino acabou aceitando a oferta. Ia arriscar! No entanto, foi pensando durante a viagem toda: “Eu vou passar é vergonha! Como é que o Juvêncio vai fazer esse homem tão importante lembrar dele quando ainda eram meninos?”. Chegando em Recife dirigiram-se para o prédio da Sudene. Ambos muito bem vestidos de paletó e gravata. Na ante-sala do Superintendente, o Juvêncio, com toda a intimidade, falando alto, foi logo dizendo que queria falar com o ‘Gonçalves’. A Secretária toda formal, folheando a agenda, perguntou:
- “O Senhor marcou audiência?”
- “Audiência coisa nenhuma, menina. Diz a ele que é o Juvêncio Bezerra que está aqui”.
O Justino tomou o maior susto! Abriu-se a porta do Gabinete do homem e ele saiu de lá, com os braços abertos e dizendo:
- “Mas Juvêncio velho!!!! Meu amigo!!!”
Foi aquele abraço de quebrar costela.

A BRECHA

O Superintendente da Sudene, com o braço no ombro do Juvêncio, levando-o para o Gabinete e este, por sua vez, segurou pelo braço do Justino e o arrastou com ele. A Secretária não entendeu nada! Começaram a conversar sobre os tempos de menino. O Superintendente:
- “Lembra quando a gente ia ‘brechar’ as meninas tomando banho nuas, no rio?”
- “Lembro demais! Tinha até uma espera (para caçar avoante) onde a gente se escondia e ia, um de cada vez, para apreciar as meninas!”
- “Teve uma vez que o Zezinho foi o primeiro a olhar e disse que naquele dia não estava prestando e que ninguém precisava olhar. E eu fui olhar. Quando olhei, vi foi a irmã dele nuinha. Aí eu disse: Pra mim está especial!!!”

MENTIROSO?

Depois de muita conversa, muito riso, o Superintendente perguntou:
- “Sim, e aí Juvêncio, você está precisando de alguma coisa de mim aqui na Sudene?”
Só então o Juvêncio apresentou o Justino e explicou o motivo da visita. De imediato, o Superintendente disse:
- “Está vendo aquela mesa ali, cheia de projetos? É capaz do projeto dele estar lá. Dá uma olhada, Juvêncio”.
Não se fez de rogado. Procurou, mexeu, remexeu e encontrou o projeto do Justino. Desencavou mesmo. Entregou na mão do Dr. Gonçalves que deu uma folheada, fez algumas perguntas ao Justino e disse:
- “Pode deixar, esta semana eu libero este projeto”.
De volta à Praça Siqueira Campos, o Justino passou a contar a história nos mínimos detalhes. E sentenciava:
- “Mentiroso é quem diz que o Juvêncio é mentiroso!”

O PICOLÉ

No início da Sorveteria Glória, o Luís instalou o serviço de gelados. Eram sorvetes e picolés. Só no Crato tinha essa novidade. E, como não podia deixar de ser, o movimento era muito intenso. Como uma forma de organizar e dar um melhor atendimento aos fregueses, foi instituído um sistema de fichas. Para cada tipo de produto tinha uma ficha de uma determinada cor. A pessoa pagava na caixa registradora, recebia uma ficha correspondente e ia ao balcão dos gelados, se servir. Muitos vinham de longe, atraídos pela fama de que era tão gelado que queimava a boca.
Num determinado dia, uma senhora de meia idade foi à Sorveteria, experimentar a novidade. Pagou o preço de um picolé e recebeu uma ficha amarela. Devido ao grande movimento, ninguém percebeu que ela começou a chupar a ficha. Passados alguns minutos ela voltou ao caixa e, em altos brados, exclamou:
- “Vocês me roubaram! Esta porcaria não tem gosto e também nem queima a boca da gente!”

PULIÇA

Puliça era um bêbado comum. É o que se pode chamar de bêbado crônico. Magro, feio e sujo. Gostava de sentar-se na Praça Siqueira Campos sempre só e, claro, bêbado. Vivia resmungando algo que ninguém entendia. Não queria a companhia de pessoa alguma. Caso alguém sentasse ao seu lado, imediatamente mudava-se para outro banco. Também ninguém gostava de chegar perto dele, pela mania que tinha de não tomar banho. Certa manhã, num feriado, chegou ao Crato, proveniente de Cajazeiras/PB, uma excursão de jovens estudantes. Logo que uma delas desceu do ônibus e pisou na Praça, foi logo avistando um grupo de rapazes e exclamou para as outras colegas:
- “Gente, aqui tem muito rapaz bonito!”.
O Puliça, que estava sentado num dos bancos, imediatamente melhorou um pouco a postura (que era sempre encurvada), e exclamou bem alto:
- “E é porque ainda não tomei banho hoje!”

APROVEITE A DOR

Luiz Gonzaga, o ‘rei do baião’, era natural de Exu/PE, cidade vizinha ao Crato, localizada do outro lado da Serra do Araripe. Cresceu indo em lombo de animal, para a feira do Crato. Depois de famoso, todas às vezes que ia a Exu, visitar os pais, não deixava de ir à “Princesa do Cariri” rever os amigos e fazer shows. Um dos seus amigos era o Manelito Alencar, com quem chegou até a fazer uma música, em parceria:
Eu sou do banco
Do banco, do banco,
Eu sou do banco,
Do Banco do Nordeste,
Cabra da peste.
Por outro lado, tinha que passar pela cidade, pois utilizava o aeroporto local para suas viagens. Antes da Rádio Araripe, seus espetáculos eram no Cine Cassino, que tinha um acanhado palco onde mal cabiam Luiz Gonzaga e seus acompanhantes. Como era um artista popular e muito querido, muita gente não podia assistir a seus shows devido o espaço reduzido do Cassino. Assim, procurava fazer um show em praça pública, para o povão, como dizia. O Cassino ficava defronte à praça Siqueira Campos. Ele então resolveu cantar na própria praça. À procura de um espaço elevado para colocar seu palco, divisou a marquise da Sorveteria Glória. Disseram-lhe, então:
- “O dono da Sorveteria é seu xará. É Luís Gonzaga, também”.
- “É mesmo! Então vamos lá conversar com o meu xará”.
Ao chegar, foi logo se apresentando com aquela simplicidade que lhe era peculiar. O Luís (meu tio) disse:
- “Você não precisa se apresentar. Tem alguém que não o conhece neste Brasil? Em que posso ajudá-lo?”

Da Praça Siqueira Campos o Rei do Baião divisou a marquise da Sorveteria Glória. Vou fazer meu show dali de cima!

Quando o Rei do Baião explicou o seu desejo, o Luís esclareceu que a marquise não era muito confiável. O prédio era velho e ela já apresentava sinais de trincas. Não poderia suportar muita gente. Então o Luiz Gonzaga disse que ele não se preocupasse, pois ficariam só ele com os dois acompanhantes e os aparelhos de som. E assim foi feito. O show foi um sucesso! Minha irmã Yara, com meu irmão Marcelo no braço, recorda-se bem do espetáculo. Não sei por que não fui também! Uma das músicas de maior sucesso foi aquela que ele conta o drama da mulher no parto. Ele reproduzia um fato verdadeiro, no qual as parteiras do interior comandam as mulheres a fazer mais força quando vem a dor. Então ele dizia:
- “Aproveita a dor!!”.
E o povão todo rindo! Não houve nenhum contratempo. A marquise resistiu ate à demolição do prédio, passados mais de cinqüenta anos de seu momento de maior glória!
Quem teve problemas foi o Luís, o da sorveteria! No dia seguinte, um padre, foi reclamar:
- Como é que o senhor permitiu aquele show indecente e imoral em plena praça pública?
- “Indecente e imoral por que?”
- “Aquela música de ‘aproveita a dor’...”

SUPOSITÓRIO

O Crato, desde há muito tempo, dispunha das facilidades de médicos e hospitais. Por essa razão, muitas estórias interessantes do pessoal da roça se receitando eram contadas nas reuniões dos boêmios, na Praça Siqueira Campos.
Recentemente tinha chegado a novidade do supositório, vindo eliminar aqueles terríveis processos de laxantes, como óleo de rícino. Um médico receitou para um senhor de meia idade, da zona rural, esta novidade, explicando como usá-lo. Forneceu até uma amostra grátis. O senhor ficou com aquela amostra na mão, sem entender bem onde teria que colocar. Muito constrangido, muito tímido, perguntou ao médico:
- “Doutor, o senhor falou para eu meter no ânus???”
O médico, percebendo que ele não conhecia aquele sinônimo, procurou falar um português mais claro:
- “É, sim senhor. Para meter no XX !!!”
E o pobrezinho do homem, já se tremendo:
- “Doutor, não se zangue comigo não!!!”

Por: Ivens Mourão - Todos os Direitos Reservados
Foto Ilustrativa: Postada na internet por Pe. Roserlândio
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