10 abril 2012

Retrato de um Judas antes da forca - Por J.Tavares.

Postado por J. Tavares (foto)


Com o título “Retrato de um Judas antes da forca”, o publicitário e poeta Ricardo Alcântara analisa o cenário político no Estado e, principalmente, em meio a denúncias e casos consignados. Confira:


Todo governo tem seu Judas. Previamente escalado, ele fica à disposição para pagar a conta. É o bode expiatório: caso algo dê errado, é ele quem vai para o cadafalso quando os pescoços da realeza precisam ser preservados.

Geralmente, cabem a ele as operações mais delicadas. Sua tarefa é gerenciar contravenções sob a proteção de quem deveria puni-las. É quem chafurda no lodo para que o príncipe se mantenha com as unhas polidas.

Para ser um Judas governamental de primeira linha, são necessários atributos específicos. Ser temerário é um deles. O cara tem que ter alma de corsário. Quem tem medo de bola dividida jamais será um bom Judas.

Outro atributo igualmente importante para o correto cumprimento da missão é ser discreto. Um Judas por vocação tem fobia a holofotes. Judas de twitter vai para a forca mais cedo. Se for vedete, é um suicida em potencial.

Ninguém se torna um Judas da noite para o dia. Suas tarefas exigem boa formação. A função requer habilidades que só a experiência ensina. É preciso conhecer dos homens suas fraquezas e, das leis, igual saber.

Para o príncipe, o Judas ideal deveria ser alguém que já tenha dado, por duras provas, demonstrações de lealdade sem que tenha se tornado, contudo, próximo demais ao ponto de não mais poder ser sacrificado.

O Judas se faz do príncipe quase irmão. E assim permanece, sem nunca obter a incondicionalidade dos laços de sangue. Mesmo que lhe reserve irrestrita confiança, o príncipe não casaria com ele a própria filha.

E, quando chega a sua hora, o bom Judas não reclama as lágrimas do seu príncipe. À forca, sobe calado, levando com ele para o ostracismo segredos que, uma vez revelados, fariam ruir o prestígio de toda a corte.

Não há filantropia na prestação do serviço. Os riscos inerentes ao ofício eliminam qualquer possibilidade de motivação solidária. Sempre muito bem remunerado, quando eficiente, um Judas se paga.

Fonte: Opovo online
* Ricardo Alcântara, Publicitário e poeta.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.