12 fevereiro 2012

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Ivens Mourão*


O ZOOLÓGICO

Papai sempre foi um apaixonado por pássaros. Chegou até a fabricar gaiolas ou viveiros para eles. Eram tarefas executadas à noite, com a ajuda do “Compadre Zé” (José Pereira). E eu sempre acompanhando, querendo ajudar. Meu pai gracejava, dizendo:
- “Compadre Zé, este menino ‘a trabalha’ muito, não é?!”
Esta paixão por passarinhos perdurou por toda a sua longa vida. Nos seus últimos anos não podia mais cuidar, porém ficava ouvindo o seu canto, extasiado. Faleceu em casa, às 2h30 da madrugada. A sua velha sabiá não mais cantava. Porém, naquele momento, ouviu-se o seu mavioso canto. Por algum tempo chegou a criar outros tipos de animais. Lembro-me de umas marrecas. Para tanto, foi feito um pequeno tanque que, em certas ocasiões, transformávamos em piscina. O certo é que as marrecas começaram a importunar, e mamãe deve ter aconselhado a doá-las para o pequeno zoológico, que tinha no centro da Praça da Sé, idealizado pelo Júlio Saraiva, por ocasião das festas do Centenário (1953).

Lembro-me da grande atração que era um jacaré chocando uma quantidade enorme de ovos. Diante dos meus protestos em doar as “minhas” marrecas, papai dizia que eu podia ir visitá-las, lá na Praça. O certo é que, ainda hoje, qualquer marreca que vejo penso que são as “minhas”. Tornaram-se imortais... Sob os protestos do Júlio, o Prefeito, para economizar a ração dos animais, acabou com o Zoológico.

Em frente à Praça Siqueira Campos, ao lado da Sorveteria Glória, tinha a casa “dos Leões”. Eram duas estatuetas de leões, que existiam no portal de entrada da residência. A casa foi demolida e o Júlio recolheu os “leões”. O prefeito, que acabou com o pequeno Zoológico, pediu ao Júlio as estatuetas para colocá-las em determinado projeto da Prefeitura. Recebeu a seguinte resposta:
- “Você não gosta de animais que comem, eu não lhe dou os animais que não comem”

AROEIRA

O Sr. José Horácio Pequeno era Prefeito do Crato, tendo como Secretário de Obras, o Júlio Saraiva. Nessa época a Chesf começou a instalar a rede elétrica, que possibilitaria à cidade receber, finalmente, os benefícios tão longamente esperados da energia gerada na cachoeira de Paulo Afonso. O Prefeito convocou o seu Secretário de Obras e determinou que providenciasse a retirada de toda a rede elétrica pública, incluindo postes e fiações, pois a Chesf iniciaria a instalação da nova rede.

E assim foi feito. O Júlio estava supervisionando a retirada de um poste (eram todos de madeira), e ficou admirado ao perceber que o trecho que estava enterrado há muitos anos encontrava-se em perfeitas condições. Até as marcas do machado que beneficiara aquela madeira estavam intactas. Diante da sua admiração, o operário explicou:

- Ah, “seu” Júlio! Isto aqui é aroeira. É o miolo da aroeira. Não acaba nunca. É mesmo que ferro!
- Ah, com os diabos! Agora eu descobri uma coisa!
- O que foi, “seu” Júlio?
- A mulher lá em casa é feita de miolo de aroeira...


PATATIVA

O famoso e saudoso Patativa do Assaré era um grande amigo do Luís. O início dessa amizade foi quando um amigo do Luís, Omar, conhecido por Babá, que morava em Petrolina, solicitou a sua interferência para conseguir que o Patativa fosse participar de um festival de poesias em Juazeiro da Bahia. O Luís conversou com o Sr. Elói Teles, grande amigo do Patativa. Com a sua mediação, o poeta foi para o festival, no qual fez um grande sucesso, principalmente quando improvisou uma poesia conclamando as duas cidades rivais (Petrolina e Juazeiro), a se unirem em um casamento, pois entre elas já existia um “leito”: o leito do Rio São Francisco...

O Sr. Eloi combinou com a sobrinha do Patativa para levá-lo ao Crato, visando acertar os detalhes para a ida ao festival. Recomendou para não confundir com o Luiz Gonzaga, o sanfoneiro. Inicialmente foi à casa do Luís. Como ele não estava, foi orientado a procurá-lo na Praça Siqueira Campos, numa roda de amigos. E assim o fez. Naquele seu caminhar difícil, com uma bengala, se dirigiu ao grupo de pessoas na Praça e achou de pegar justamente no braço do Luís. Com aquela voz grossa e meio trêmula, perguntou:

- “Você, por acaso, viu o Luís Gonzaga Bezerra Martins por aqui?”
Participava do grupo o Sr. Ernani Silva, pessoa bastante espirituosa que, antes do Luís falar e diante daquele campeão do improviso, foi logo dizendo:
- “Pois solte o braço dele que ele é casado!”

A BAGACEIRA

Chegou ao Crato um promotor novo e que logo se entrosou com os componentes da Câmara dos Comuns. Era jovem, bastante culto e de uma conversa muito agradável. Costumava freqüentar a Sorveteria Glória para tomar café. Um dia notou, na prateleira, algumas garrafas de uma cachaça gaúcha, chamada Bagaceira. Era uma cachaça que estava encalhada e que ninguém queria. O promotor fez o seguinte comentário:

- “Luís você tem Bagaceira! Isso é uma raridade!”.
E levou uma garrafa. Dias depois um amigo do Luís veio trazer a novidade:
- “Luís, aquela Bagaceira que você vendeu para o promotor fez a maior bagaceira!”
- “Mas como, e por que?”.
- “O promotor é alcoólatra e desde que chegou ao Crato estava se segurando. Com a Bagaceira ele teve uma recaída e bebeu a garrafa inteirinha. Foi para o meio da rua fazer discurso, totalmente nu!!”

Tiveram que transferi-lo para longe das Bagaceiras do Luís!

Por: Ivens Mourão
Foto: Crato nos anos 60 ( Autor Desconhecido ).


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