06 novembro 2011

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


O VIOLEIRO

Um dos filhos do Sr. Jorge Lucas tocava violão muito bem e também cantava. Trabalhava com o pai, na carpintaria. Com as economias, feitas com muito esforço, comprou um violão novo. O pai achava que ele tinha outras prioridades. Mas não disse nada. Um dia, todos recolhidos para dormir, ouviu-se aquele característico barulho do rasgar de uma rede ao meio. O violeiro foi ao chão. Nem tinha se levantado e já ouviu a voz do pai:
- “Meu filho, arme o violão...”

ZÉ DE MAROCA

Durante um período, o Luís trabalhou em Petrolina/PE. Exercia as funções de Gerente Administrativo da construtora Pecal, que mantinha um consórcio com outra construtora, Itapema, na implantação do perímetro irrigado de Curaçá. As empresas eram obrigadas - por contrato e para atender a legislação trabalhista - a manter ambulatórios médicos, para a eventualidade de primeiros socorros. A Codevasf, a contratante, enviava periodicamente um funcionário de Brasília para vistoriar esses ambulatórios. Era um médico, o Dr. Roberto. Ao final de uma dessas visitas ficou conversando, informalmente, com o Luís. No meio da conversa acabou descobrindo que ele era do Crato/CE. Admirado, comentou:

- “Então você é do Crato!!! Eu conheci um cratense no tempo em que morei em Ilhéus. Foi o maior mentiroso que eu já conheci: Zé de Maroca!!! Conheceu?”
- “Não, nunca ouvi falar”.

E o médico prosseguiu:

- “Ele era o personagem em suas próprias mentiras. Vivenciava de tal forma a história, emocionava-se de tal maneira, que sou capaz de apostar que, se eu medisse a sua pressão ela estaria alterada. Ou seja, acreditava nas próprias mentiras. Interessante que ele era atemporal. Numa ocasião estava combatendo Lampião (na década de vinte), outras vezes, estava lutando com os paulistas na revolução de 32.”

Contou, certa vez, que estava na IIª Guerra Mundial. Era Sargento e comandava uma patrulha brasileira na Alemanha (!!!). Tinha a missão de prender Ritlo (era assim que ele pronunciava Hitler). A patrulha caminhava pelas ruas de uma cidade alemã. Zé de Maroca então falou para seus comandados:

- “Meu instinto de caçador diz que Ritlo está naquela casa.”.
Aproximaram-se, pé ante pé da casa. Cercaram-na. Zé de Maroca, e mais dois companheiros acercaram-se da porta principal. Zé de Maroca espionou pelo buraco da fechadura. Eis que visualizou Hitler:

- “Conheci Ritlo só pelo bigodinho”.

Através de sinais, combinou com os dois companheiros para derrubarem a porta com um golpe só. Assim procederam. Derrubada a porta, posicionou-se imediatamente em frente a Hitler, apontando a metralhadora. E Hitler, apavorado, gritou, levantando os braços e num português fluente:
- “Pelo amor de Deus, não me mate, Zé de Maroca!!!”.
Ao ouvir Hitler invocar o nome da santa mãe dele, resolveu não matá-lo e levá-lo preso para os italianos (!!!)...

A FALTA DE UM ‘Y’

O meu irmão Raimundo tinha um amigo, o Aldemir, que era a gentileza em pessoa. Foram colegas de turma no Colégio Diocesano do Crato. Tinha uma característica: gostava de falar difícil, o que o tornava uma pessoa formal. Estava sempre usando palavras que só ele conhecia. Por este motivo e por ser uma pessoa de temperamento boníssimo era sempre vítima das gozações dos colegas. Lembro-me bem dele, pois morava próximo da nossa casa, na Rua Nelson de Alencar. Caso não esteja enganado, era arrimo de uma velha tia. Na época, os professores costumavam fazer testes orais com os alunos. E o Aldemir, muito tímido, tinha pavor a submeter-se a este tipo de exame. No colégio tinha um professor que era tido como o terror. Para ele só existiam duas notas: zero ou dez. Para ter esta má fama, lógico, o zero era o mais comum. Era um Professor baixinho e entroncado, que os alunos o apelidaram de “Charuto”. Certo dia, aula de Português, aula do professor “Charuto”. Naquela maneira rude que o caracterizava, chamou à lousa o Aldemir. Criou-se a expectativa. O Aldemir, querendo fugir àquele chamado, bem formal, pronunciando pausadamente, disse:

- “Professor, o senhor está se referindo ao Aldemir com ‘y’ ou com ‘ir’?”
- “É você mesmo! Venha logo à lousa!”
Naquele dia, o outro colega, Aldemy, escapou, mas o Aldemir levou zero mesmo.

PELA CULATRA

“A fome com a vontade de comer” é quando o aluno não quer que sejam dadas mais matérias e o professor não tem interesse em ministrá-las. Isto acontecia nas aulas de um determinado professor, na época em que o meu irmão Raimundo era aluno do Colégio Diocesano do Crato. Os estudantes sempre improvisavam algumas estórias, com a finalidade de “embromar” a aula. Assim eles teriam menos “pontos” para estudar para as provas. Na época, já se falava nas possíveis viagens interplanetárias. A Revista “O Cruzeiro” trazia matérias sobre o cientista alemão Von Braun, aventando a hipótese dessas aventuras. Poucos anos depois a corrida espacial iniciou, com o lançamento do primeiro Sputinik. Certo dia um aluno comentou, usando o Aldemir (sem y) como vítima:

- “Professor, o Aldemir disse que vai a Vênus!...”
- “Fazer o quê?”.
- “Comprar uma camisinha...”

Serenada a gargalhada, o Professor nesse dia deu matéria para o ano todo.
O tiro saiu pela culatra...

NAMORADO ATÔMICO

A formalidade do Aldemir era uma constante. Devido a grande timidez sentia-se bem quando estava na companhia dos seus livros. Daí usar, no seu linguajar, o vocabulário vasto e um conhecimento de assuntos diversos. Conhecia, por exemplo, sobre a energia atômica e como ela foi apresentada ao mundo, estourando sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaky. Certa ocasião, surgiu o comentário na sala de aula, entre seus colegas, que ele havia levado um fora de primeira, da namorada. Todo mundo quis saber a razão:
- “À falta de assunto romântico, foi explicar energia atômica para a namorada...”

Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADO

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