07 julho 2011

Livro “O mistério das treze portas...”, de J. Flávio Vieira é lançado em Crato


Por Carlos Rafael Dias, especial para o Blog do Crato

O
livro “O mistério das treze portas no castelo encantado da ponte fantástica” será lançando hoje, quinta-feira, 7 de Julho, às 19 horas, no Teatro Moderno Municipal Salviano Saraiva Arraes, aqui em Crato. O livro, de autoria de J. Flávio Vieira com ilustrações do artista plástico Reginaldo Farias, faz engenhosamente uma tessitura dos mitos caririenses e é acompanhado de um CD com 15 Músicas e um áudio-livro com a narração da história. O projeto foi vencedor do I Prêmio Rachel de Queiroz da Secretária de Cultura do Ceará - SECULT. No evento, acontecerá um show com a presença de vários músicos e compositores caririenses que participaram do projeto,a exemplo de Luiz Carlos Salatiel, Amélia Coelho, Lifanco, Ibbertson Nobre, Luiz Fidelis, Pachelly Jamacaru, Ulisses Germano, Zé Nilton Figueiredo, João do Crato, Leninha Linard, Abidoral Jamacaru e muitos outros. A entrada é franca.

Tipos populares -
O livro trata do imaginário lendário do cariri cearense, fazendo uma singela e merecida homenagem aos nossos tipos populares, através das músicas que constam em um dos discos que integram este projeto lítero-musical. Os homenageados são: Tandô, Canena, o Rei da Serra, Capela, Vicente Finim, Maria Caboré, Príncipe Ribamar da Beira Fresca, Noventa, Padre Verdeixa e Zé de Matos.

Tandô -
Sobre a música Tandô, que homenageia uma das mais exóticas figuras populares da cidade do Crato, coube ao prof. José Nilton Figueiredo, que também participa do disco, o seguinte comentário: “A letra que fala de Tandô, maravilhosa, coube ao excelente compositor Pachelly Jamacaru musicá-la. E ele fez com tamanha riqueza melódica que quem conheceu Tandô logo se encanta com a personagem. E quem não o conheceu passa a gostar dele pela singeleza da interpretação de Pachelly.
Tandô era um negro, baixinho, que se vestia com indumentárias de cangaceiro. Vendia um perfume de cores diversas, bem vivas, que vinha em pequenos fracos que o próprio chamava de “mijo de menina”.

Capela -
De autoria de Luiz Carlos Salatiel e J. Flávio Vieira, a música capela presta reverência a um tipo popular regional que ficou assim reconhecido pela sua assumida homossexualidade e grande valentia. Ele era conhecido pelo apelido de Capela, um espécime alto, corpulento e de cor branca. Trabalhava, como cozinheiro, nos inúmeros cabarés existentes além da linha férrea, que era um verdadeiro divisor entre a boa sociedade cratense e a aquela que era taxada como a pior das escórias.

Vicente Fininho -
Vicente Fininho encarna a lenda do lobisomem caririense. Há várias versões de sua existência. Uma delas teria ocorrida na cidade de Aurora. A estória conta que certo dia sua mãe mandou-o ir ao roçado deixar o almoço do pai, uma marmita com pão de milho e galinha caipira. No caminho, Vicente sentou-se debaixo de uma árvore e comeu todo o farnel que era destinado ao pai. Chegando ao roçado, envergonhado com o mau-feito, tentou se desvencilhar da culpa, jogando a marmita no chão e gritando: “veja só que tua mulher, minha mãe, mandou para o senhor: somente os ossos. Ela mandou dizer que é isso que tu merece...”
Indignado e movido por uma ira descontrolada, o pai de Vicente dirigiu-se para casa. Lá chegando puxou da bainha um punhal e desferiu nove violentos golpes na mulher, que agonizando na dor da morte ainda tentou justificar-se ao marido. Sem sucesso e antes do último suspiro, ela jogou uma praga no filho, dizendo que ele passaria o resto vida virando lobisomem em noite de lua cheia.

Maria Caboré -
O disco de música que acompanha o livro “O mistério das treze portas no castelo encantado da ponte fantástica”, presta um merecido tributo a personagens populares que revelaram situações tanto trágicas quanto cômicas. Entre esses personagens, alguns chegaram a transcender suas vidas de excentricidade e sofrimento, como foi o caso de Maria Caboré, uma morena com estatura mediana, que gostava de usar pulseiras, bijuterias e colar doados pelos moradores da cidade. Ela Tinha um desejo muito forte de contrair núpcias com o “Rei de Congo”. As crianças da época conheciam esse desejo e exigiam que ela deglutisse objetos, como bola de gude, em troca do casamento. Sendo assim, essa personagem fazia um grande esforço para engolir tais objetos, para casar-se com o referido Rei, fruto da sua imaginação. Depois de morta, vitimada pela peste bubônica, na década de 1930, Maria Caboré passou a ser venerada como dispensadora de milagres. Até hoje, o seu túmulo, no Dia de Finados, é visitado por grande número de pessoas, que deposita flores e velas em retribuição às graças alcançadas.

Noventa -
Noventa era um conhecido e querido chapeado cratense. Chapeado era como se chamava, por essas bandas, o carregador de peso, que o fazia sobre a cabeça, protegida por um chapéu feito com grosso couro. O chapeado era identificado por um número, afixado na testeira do chapéu. O chapeado de número noventa, portanto conhecido como Noventa, era uma pessoa doce, amiga de todos e conhecida pela sua verve inusitada. Certa vez, vendo que crianças tomavam banho no canal do Rio Grangeiro, contaminado pelos dejetos que lhe são jogados por inúmeros esgotos domésticos, de fábricas e até de hospitais, Noventa disse aflito: “essas crianças infantis tomando banho no Canal vão terminar pegando uma atmosfera”.
Noventa é singelamente homenageado no disco de música que acompanha o livro com letra de J. Flávio e composição musical de Abidoral jamacaru.

Padre Verdeixa -
Outra personagem popular enfocada no disco que acompanha o livro de J. Flávio é o Padre Verdeixa. Há quem duvide da real existência dessa personagem. Mas, o poeta Batista de Lima, em matéria publicada no jornal Diário do Nordeste, sobre o livro “Fideralina Augusto Lima: uma matriarca do Sertão”, não deixa dúvida: “Outra passagem do livro que me chamou a atenção fica por conta do batizado de D. Fideralina, oficiado pelo Pe. Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa, o famoso ´Canoa Doida´. Segundo o autor, na página 45, Verdeixa era um padre ´maluco e irresponsável, que deixou triste e humorística memória´. Na verdade tudo o que se relata do Padre Verdeixa beira o inusitado, o jocoso e o surreal. No entanto, esse padre chegou a ser deputado na Assembléia Provincial, o que é mérito, tendo sempre sido da oposição e nos seus discursos e artigos que escrevia, condenava com veemência o desmatamento das encostas da Serra do Baturité para o plantio do café, ou seja, era um ecologista já naquele tempo. Mesmo assim teve seu mandato cassado por uma assembléia de 20 deputados onde onze eram padres.”


Um comentário:

  1. Excelente artigo de uma excelente proposta conduzida magistralmente por Dr. José Flávio Vieira e uma turma competentíssima de artistas da Região do Cariri. O Blog do Crato tem prazer em divulgar e participar desse lançamento de resgate de grandes valores que de forma alguma poderiam cair no esquecimento. Convocamos toda a populaçao PENSANTE a se fazer presente a este grandioso evento.

    Estaremos lá fazendo a cobertura fotográfica e videográfica.

    Dihelson Mendonça
    BLOG DO CRATO

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