09 março 2011

Até Quarta-Feira - Por: Aluisio


Sempre achei um símbolo da realidade ambígua do carnaval a letra daquela marchinha antiga, mas que sempre volta em todos os carnavais. Aquela, de Paulo Alves Sete, em que o protagonista diz que este ano não vai ser igual àquele que passou, porque nem ele nem ela brincaram. Este ano eles deveriam brincar, mas separados. Se acaso os blocos dos dois se encontrassem, não teria nenhum problema, ninguém morreria por isso. Daí, farão a folia, ele pra cá, ela pra lá, até quarta-feira...

O carnaval sempre foi considerado como uma festa popular, como aquelas festas que todos os povos instituem, como momentos fortes de distensão social. Se a sociedade é um mal necessário, como diziam os filósofos ingleses do século XIX, em que as pessoas aceitam firmar um contrato entre si, cedendo parte da própria liberdade e do desejo de tudo fazer, para que o organismo social possa funcionar, respeitando, portanto, às leis sociais limitadoras, a festa seria, neste contexto, um momento do interdito, de explosão dos desejos reprimidos durante a maior parte do tempo em que devemos obedecer às leis. Resulta daí que, nestas festas, tudo o que é proibido passa a ser permitido.

Por isso, o casal da marchinha resolve brincar separado, curtindo um momento de pretensa liberdade, já que a teriam cedido na vida matrimonial de todos os dias. E nenhuma das duas partes deveria se ferir por isso. Encontrando-se durante a festa, continuariam o seu bloco, sorrindo. Resolveram firmar um contrato que permitiria aos dois divertirem-se como quisessem, sem que nenhum dos dois se impusesse limites, e nem por isso deveriam dar asas ao ciúme.
Ora, há algo que não vai bem em toda esta história. O festejar, próprio do ser humano, não deveria ser algo destacado do todo da sua vida. É a celebração da alegria, à qual temos também o direito. Jesus foi um grande festejador. Se for vista como contrastante à vida social com todos os seus momentos e elementos, como momento em que os valores que a regem são diferentes daqueles que direcionam os nossos outros momentos, então há que perguntar sobre quais valores afinal nos apoiamos para viver e estabelecer nossas relações sociais. O carnaval, visto sob aquele prisma, seria a festa dos contravalores. Isto refletiria um modo de viver hipócrita e mesquinho. A questão nos leva a muitas outras, bem urgentes e sérias. A ética do mundo pós-moderno está em crise. Os valores são de cunho pragmático, portanto, sem profundidade e sem transcendência. Não estariam aí algumas fontes das nossas mazelas sociais: corrupção, violência, desrespeito etc.?

É preciso que valores consistentes, assumidos como opção fundamental, sejam repropostos. Penso que a missão da Igreja consista nisso. Valores verdadeiros que libertam de verdade. E a verdade de Jesus é a de que o Reino está presente em cada um de nós. Por isso o respeito aos outros, o amor fraterno, a salutar relação de amizade com o Senhor, causa da felicidade interior, aquela que faz da vida toda, em todos os seus momentos, uma festa só, e não só até quarta-feira.

Frei Cardoso de Rezende

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