20 janeiro 2011

Antônio Houaiss no Cariri - Por Emerson Monteiro


Numa noite de domingo, inícios da década de 80, recebi telefone de alguém ligado à Universidade Regional do Cariri dando conta de que o professor Antônio Houaiss se achava em Crato e receberia, no gabinete do reitor Manoel Edmilson Nascimento, para reunião e palestra, um grupo de convidados. Conhecia Antônio Houaiss só de nome, desde que lera a sua tradução para a língua portuguesa do livro Ulisses, do romancista irlandês James Joyce, além de uma entrevista que dera ao Pasquim, na década de 60, no auge do jornal carioca. Mais adiante, Houaiss ligaria também o seu nome a respeitado dicionário que subscreveu e que, após sua morte (a 07 de março de 1999), se edita com atualizações constantes.

Naquela noite, senti de perto o brilhantismo dessa personalidade que marcaria a intelectualidade brasileira, tanto no País, quanto no exterior. Ministrou, então, para os presentes, bela aula de filologia, a praia em que caminhava com naturalidade e inteiro conhecimento. Em torno de duas horas, tratou, sobretudo, da importância de nós, brasileiros e demais lusófonos, conservarmos os valores linguísticos do idioma, diante das agressões da globalização, que a tudo nivela pelos padrões inferiores. Considerou o risco sério que correm do desaparecimento, ao passar dos séculos, das línguas e dos dialetos.

E que, dada à influência mercadológica dos Estudos Unidos, com a carga da cultura dos meios de massa que dominam o mundo atual, poderíamos ver esmaecida a essência de nosso querido instrumento de comunicação vernácula, abrindo irreversíveis brechas aos acréscimos perversos e à despersonalização de nossas raízes nacionais, tal e qual aconteceu às línguas originais dos povos indígenas, no território latino-americano quando da chegada dos colonos europeus. Outro aspecto que demonstrou dos seus interesses individuais, naquele momento, foi o gosto que mantinha pela culinária brasileira, profundo conhecedor do assunto, inclusive distribuindo, entre nós, escritos por ele, alguns livros sobre o tema.

Aqui resolvi trazer essas considerações visando o registro da ligeira passagem de Houaiss em terras caririenses, naquela noite de que nem recordo a época exata. Dentre os presentes se achavam o jornalista Huberto Cabral, a professora Sarah Cabral, Maria Pia e Dr. Edmilson Nascimento. A título de ilustração, acrescento que esse tradutor e autor brasileiro, filho de imigrantes libaneses radicados no Rio de Janeiro, lecionou desde os 17 anos a disciplina de português. Filólogo, escritor, crítico literário, tradutor, diplomata, ministro da Cultura, presidente da Academia Brasileira de Letras e membro da Academia de Ciências de Lisboa, publicou 19 livros de sua autoria e participou na elaboração das duas enciclopédias mais importantes feitas no Brasil, Delta-Larousse e Mirador Internacional. Eis um perfil rápido do professor Antônio Houaiss.

Por: Emerson Monteiro

2 comentários:

  1. Diz-se que "a língua é viva", observando-se que, com o passar do tempo o idioma sofre mutações inevitáveis. O Latim que conhecemos e que uma geração anterior à minha estudou, era um Latim popular que teria sobrevivido à derrocada do Império Romano.
    Nossa língua brasileira, filha da Portuguesa e neta daquele Latim, sofreu recentemente mais uma modificação ortográfica.
    Infelizmente aprovada uma simplificação e adaptação para unificá-la a todos os países lusófonos.
    Sempre que ocorre uma mudança dessas, fico triste ao perceber que é promovido um empobrecimento da língua, no que dis respeito à sua grande capacidade expressiva.
    Gosto de nossa língua. Com ela aprendi e aprendo a expressar e conhecer o mundo. E, enquanto poeta, percebo e utilizo sua potencialidade de expressão.
    Grande felicidade sua, Emerson, em conhecer pessoalmente este grande filólogo, Antonio Houaiss.
    Pabrabéns pelo belo texto!

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