21 novembro 2010

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


ZÉ DOIDO


Logo após o golpe de 64, Castelo Branco foi fazer uma visita ao Cariri. Desceu no aeroporto do Crato, que ficava na Serra. Quando a comitiva se dirigia para a cidade, fez questão de parar numa curva, no alto da Serra, da qual se descortina todo o Vale.

A vista, do alto da Serra, que impressiona a todos.

É realmente uma visão deslumbrante! Acredito que deva ter se lembrado de uma crônica da sua prima, Rachel de Queirós, na revista “O Cruzeiro”, relatando seu encantamento neste mesmo local. Aliás, a minha mãe também gravou sua admiração para sempre, neste mesmo fantástico panorama, quando os caminhões que traziam as famílias dos meus pais, meu avô (Luis Martins) e Sr. Joaquim Bezerra entraram nesta curva, no recuado ano de 1937. Foi paixão à primeira vista, pelo Crato!
O Presidente se hospedou na casa de um grande amigo do Luís, o promotor José Ribeiro Dantas. Era uma casa muito confortável, recém construída e que tinha plenas condições de recebê-lo, principalmente por ser o Crato, na época, bastante carente de hotéis. Na casa e em torno dela instalou-se todo um aparato militar de segurança.
O Brigadeiro Macedo resolveu visitá-lo. Foi chegando e entrando de casa adentro, não dando a mínima para as barreiras de proteção. Quando o Castelo Branco deparou-se com o Brigadeiro, exclamou:
- “Zé Doido!!! O que é que você tá fazendo por essas bandas?!?!.
- “Eu? Fabricando cachaça e vendendo sem selo!”

O ENTERRO

O Brigadeiro Macedo tinha uma fama de birrento, ruim. Ele não ligava a mínima. Até gostava. Tornou-se grande amigo do Chico Soares, conhecido como, ele próprio se dizia, o maior caloteiro do Crato. Na verdade, o Chico era um grande brincalhão e não se sabia o que de verdade tinha nessa fama de caloteiro. O Brigadeiro, justificava esta grande amizade dizendo que, já que falavam que ele não prestava, tinha que fazer amizade com quem não prestava também! Um dia estavam os dois na Praça Siqueira Campos, quando ia passando o enterro da primeira esposa do Professor José do Vale que, aliás, foi meu professor. Lembro-me que, ao atravessar a porta da sala de aula, já ia fazendo o sinal da cruz e rezando o “padre” nosso. A classe inteira, instantaneamente, ficava de pé e rezava com ele.
A esposa do professor, também professora, era muito estimada. Uma multidão acompanhava o féretro. Os alunos dos diversos colégios, todos uniformizados, faziam parte do cortejo. O Brigadeiro perguntou para o Chico Soares:
- “Chico, será que no meu enterro vai ter tanta gente assim?”
- “Depende, Brigadeiro, se você for enterrado vivo!...”

AS APOSTAS

O Brigadeiro Macedo justificava muito bem a sua fama! Era muito político e um eleitor de carteirinha do Brigadeiro Eduardo Gomes, como não poderia deixar de ser! Na eleição para Presidente de 1950 apostou, com uma figura importante do Crato, que o Brigadeiro ganharia as eleições. A aposta foi de dez engradados de cerveja. Naquela época o engradado tinha 48 garrafas. Como foi o Getúlio quem ganhou, teve que pagar a aposta. Mandou, efetivamente entregar os dez engradados. Mas com um detalhe: esvaziou todo o conteúdo das garrafas em um tonel, estragando a cerveja. Botou numa carroça e mandou entregar, com um bilhete: “pode medir que tem o conteúdo de 480 cervejas...” Pagou, mas o desafeto não teve o prazer de beber!
Em outra ocasião ele apostou com o Dr. Macário de Brito. Era uma quantia em dinheiro. Ele perdeu. Mas, fez questão de pagar em dinheiro vivo. Saiu coletando moeda e dinheiro velho com tudo que era mendigo e feirante do Crato. Mandou entregar aquele saco de dinheiro velho e moeda. O Dr. Macário, lógico se recusou a receber dizendo que não tinha tempo para estar contando dinheiro velho e moeda. O Brigadeiro, então, depositou o dinheiro em cartório...

AVIÃO DE GRAÇA

O Brigadeiro José Macedo fez muita história no Crato. Era uma figura polêmica e não fazia questão de contemporizar. Não gostava nem um pouco do Padre Cícero. Por isso diziam que ele havia bombardeado o acampamento do Caldeirão, do Beato José Lourenço, apadrinhado do Padre Cícero. Nas conversas, na Praça Siqueira Campos, quando questionado, dizia irritado:
- “Que nada! Eu lá joguei bomba naqueles fanáticos! O que eu fiz foi dar uns vôos rasantes, dizer muitos desaforos e jogar uns panfletos. Naquele tempo os aviões nem carregavam bombas. Além do mais a topografia do local não permitia vôos para bombardeamentos”

Camponeses do Caldeirão. Só queriam viver em paz, produzindo e vivendo em comunidade. A elite dominante não admitia e foram dizimados. Receavam de um novo Canudos...

Quem mais falava mal do Brigadeiro era o seu irmão, Melito Macedo. Contava mil fatos das maldades dele.
Nas conversas, na Praça Siqueira Campos, o Brigadeiro dizia:
- “Falam que eu sou ruim, que sou isso, aquilo outro, que mando amarrar empregado no tronco para dar surra, mas eu quero é ver quem, aqui no Crato, faz o que eu fiz agora mesmo! Um cachorro ficou doido, lá no sítio, e mordeu vários empregados meus. Mandei buscar um avião em Fortaleza, para que eles fossem tratados na capital. Tudo por minha conta!”

A Igreja do Caldeirão. O que sobrou do povoado

O Júlio Saraiva, outro freqüentador assíduo das conversas, estava presente e disse:
- “Também, com avião da Aeronáutica, que não lhe custa nada! É fácil fazer gentileza com o chapéu alheio”.
- “Eu sabia, seu velho ‘fela’ da puta (a amizade permitia este tipo de tratamento), que você ia dizer isso! Se você quiser, eu mostro o recibo. Eu fiz foi contratar um táxi aéreo! Não foi avião da Aeronáutica porra nenhuma!”

Por: Ivens Mourão - Proibida a Reprodução sem Autorização.

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