09 setembro 2010

Padre Cícero e a Sedição de Juazeiro


Cícero Romão Batista nasceu a 24 de maio de 1844, na vila do Crato. Desde cedo manifestou a vocação sacerdotal, vindo a Fortaleza para estudar no seminário da Prainha. Auxiliado por seu padrinho, o coronel Luis Antônio Pequeno, pôde continuar seus estudos, apesar da alerta do pai. Ordenou-se aos 26 anos, e em 1872 foi enviado para o pequeno povoado de Juazeiro do Norte. No seminário não registraram-se fatos estranhos com o jovem estudante, mas ele e seu primo José Marrocos eram vistos como "arrivistas". José Marrocos foi mandado embora e Cícero ordenou-se padre, por intervenção do bispo D. Luis, apesar da reprovação do Reitor do seminário. A princípio Cícero não se afeiçoou ao povoado, e sua intenção era voltar para Fortaleza. No entanto, conta-se que Jesus lhe aparecera em um sonho, instruindo-o no sentido de cuidar dos pobres. Fixou-se então no lugarejo e lá exerceu o sacerdócio, normalmente, até 1889, quando se deu o primeiro caso de milagre, entre tantos outros atribuídos a ele: a hóstia recebida pela beata Maria de Araújo transformou-se em sangue na sua boca.

Logo a sua fama se espalhou, e todos acorriam para o Juazeiro em busca da proteção o "santo milagreiro". Juazeiro depressa se transformou em um enorme ajuntamento de pessoas, vindas de todos os lugares do sertão. Em breve, Cícero deixou de ser apenas um líder religioso, para se transformar na mais prestigiada liderança política do sertão nordestino. Em vão, a hierarquia da Igreja tentou manter um controle sobre o padre, enviando-o até mesmo a Roma, para entrevista com o Papa; mas isso só fez crescer seu prestígio junto ao povo. Algumas pessoas exerciam grande influência sobre ele; a princípio foi seu primo José Marrocos, jornalista de talento, que soube manipular com habilidade junto ao povo, as notícias em torno dos milagres.

Depois, foi o médico baiano Floro Bartolomeu, que articulou a aproximação do padre com os coronéis e a política acciolina. Com a transformação de Juazeiro em município, padre Cícero foi seu primeiro prefeito. A essa altura, o padre já estava mergulhado no complexo xadrez político das oligarquias. Esse envolvimento culminou na "Guerra Santa" que apreendeu contra o presidente Franco Rabelo, causando a sua queda do poder em 1914; foi a sedição de Juazeiro.

Mesmo depois de sua morte, em 1934, a influência do Padre Cícero permaneceu muito viva entre o povo sertanejo. Essa influência não se limitou à região do Cariri, nem somente ao Ceará ; ele se estendeu por todo o Nordeste e até além dele. Diariamente a "Meca" do Cariri, Juazeiro, é procurada por romeiros vindos dos mais diversos lugares. Essas romarias são mais fortes nas comemorações do dia da padroeira, Nossa Senhora das Dores, de Nossa Senhora das Candeias e dia de Finados. O turismo religioso tomou-se a maior fonte de renda de Juazeiro, tomando-a uma das maiores e mais prósperas cidades do Estado. No período das ramadas, os hotéis ficam lotados com os fiéis que vêm pagar suas promessas, bem como, adquirir "souvenirs", para que a proteção do "padim" lhe acompanhe sempre, deixar seu óbulo na Igreja, morada do santo querido.

Nos restaurantes não faltam o baião-de-dois com o piqui e a carne de sol. A noite, os repentistas embalam seus ouvirias com histórias do padre e de outros heróis do imaginário sertanejo. E, como não poderia deixar de ser, junto com os repentes, as rezas. Os locais mais visitados são a casa do Padre Cícero e o Horto. No alto dele, a estátua esculpida em 1969, por Armando Lacerda, com 27 metros de altura. A casa foi transformada em museu e conta no seu acervo com oratórios, imagens sacras, batinas, paramentos, prataria, mobiliário e objetos, doados pelos romeiros. Objetos de peregrinação são também a Casa dos Milagres, onde são depositados os ex-votos, peças de gesso, madeira e plástico, que representam partes do corpo humano curadas por obra das promessas, além de retratos e cartas e a Capela do Socorro, onde o padre está sepultado. Em 1994 comemorou-se o Sesquicentenário de seu nascimento, com realização de romarias, seminários em vários locais do Brasil e apresentação de filmes, peças de teatro, além de lançamentos de livros e cordéis.

Fonte: Site Crato Virtual ( Hoje desativado ) - Pesquisa: Sérgio Ribeiro Bastos, Huberto Cabral.

Um comentário:

  1. Caro Dihelson

    Muito ilustrativo e esclarecedor este artigo. Esse texto acrescentou muito sobre o que eu sei do Padre Cícero. Apenas faço uma pequena correção, tomando indevidamente o posto de historiador do amigo Armando Rafael. O Crato foi elevado à categoria de Vila Real do Crato em 21 de junho de 1764. Nessa época, o Brasil era ainda ligado a Portugal. Esta é a data em que se comemora o dia do Município. Posteriormente, com o Brasil já independente, o Crato passou a ser comarca em 17 de outubro de 1853, passando de Vila Real para Cidade do Crato. Comemorou seu centenário em 17 de outubro de 1953 (tinha oito anos e me lembro ainda da festança).
    Em 24 de março de 1844, (A data do nascimento do Padre Cícero é esta e não em 24 de maio, como se refere o texto) o Crato já era cidade, tendo como símbolo, quatro "cês" entrelaçados: que significa: Crato, Cidade, Cabeça de Comarca. (Aprendi isso com a marca a ferro quente no rebanho bovino dos proprietários de terras do Crato). O Armando poderá me desmentir se por acaso eu estiver equivocado, mas essas datas ficaram marcadas definitivamente na minha memória por causa das comemorações festivas que foram realizadas. (O centenário em 1953 e o bi-centenário do Município em 1964).
    Desculpe-me a intromissão. São apenas senões que não descaracterizam o conteúdo do artigo que está perfeito.
    Abraços

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