20 julho 2010

Os sinais de enfraquecimento do regime cubano – por João Bosco Monte

Algumas ditaduras do século XX foram destruídas pela derrota militar ou pela ação de grupos militares que atuaram desde fora com cumplicidades internas. A Alemanha nazista, por exemplo, foi derrotada através das armas. Mas o mais freqüente é que os críticos e dissidentes da resistência interna sejam os que minam a aparente invulnerabilidade de regimes autoritários. A desobediência civil, as greves de fome, a resistência passiva e pacífica, fizeram cambalear-se muitas ditaduras que se consideravam imutáveis.

Esta situação está acontecendo agora em Cuba, onde depois de mais de meio século sob o regime autoritário dos irmãos Castro, alguns cidadãos apelam para sua auto-condenação como forma de chamar a atenção da Comunidade Internacional. Exemplos como os de Orlando Zapata Tamayo, que morreu após 85 dias de greve de fome, e Guillermo Fariñas, um jornalista e psicólogo de 48 anos, que iniciou seu jejum no dia 24 de fevereiro -um dia depois da morte de Zapata- para exigir a libertação de 52 presos políticos.

A imprensa internacional noticia que o povo cubano está submetido a grandes carências alimentarias e impossibilidade de cobrir suas necessidades básicas, inclusive contar com uma moradia digna, quando o salário médio não chega a 20 dólares mensais. A crise econômica, política e social é tão profunda que o Presidente Raúl Castro reconheceu em julho de 2007 a necessidade de mudanças profundas.
O caos interno e o desprestigio internacional propiciaram que pela primeira vez o governo inicie negociações com a Igreja Católica de Cuba. Ainda que Havana não queira admitir sua fragilidade ao tentar uma aproximação o clero é possível identificar alguns resultados promissores, à luz das recentes reuniões entre Raúl Castro e o Cardeal Jaime Ortega. Entretanto, questões importantes como o respeito aos direitos humanos ainda continua sendo uma questão delicada entre as duas partes.
Não podemos deixar de enxergar que os esforços dos dissidentes citados anteriormente, a mediação da Igreja, as pressões internacionais e a fugaz intervenção do ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos estão vencendo, ainda que de forma lenta, a luta contra as últimas ditaduras.
Mas o lógico muitas vezes não ocorre. De forma paradoxal o governo cubano, um dos mais contumazes infratores dos direitos humanos, no mundo, foi eleito, em junho passado para ocupar uma das Vice Presidência no Conselho de Direitos Humanos (CDH) da Organização das Nações Unidas.
È no mínimo embaraçoso que um grupo de nações latino americanas, (podemos incluir Brasil, Argentina, El Salvador, Chile e Paraguai) que sofreram as mesmas experiências cubanas, seja hoje as que apóiem uma ditadura que foi condenada opinião pública.
O povo cubano merece dias melhores!
Publicado no jornal O POVO, 20-07-2010
Postado por Armando Lopes Rafael

2 comentários:

  1. Segundo o jornalista Luiz Eduardo Gomes: “ A libertação dos dissidentes em Cuba pode ser um sinal de enfraquecimento do regime comunista”.

    Já para diz Marcelo Coutinho, pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ: "O próprio aparecimento do Fidel, que veio a publico dar entrevista, só para dizer que a revolução está viva, isso já é uma prova de que o regime pode estar sofrendo a abalos em sua base".

    Interessante que o governo brasileiro, tão valente na questão de Honduras, tão veemente na defesa da ditadura do Irã, de Hugo Chávez e do terrorista Cesare Battisti, não disse uma palavra sobre a situação dos direitos humanos em Cuba nem sobre as perseguições à imprensa na Venezuela.

    O professor Marcelo Coutinho questiona o não envolvimento do governo brasileiro na negociação nas negociações. "Eu fico impressionado de o regime não ter feito essa negociação com o Brasil, não ter sequer preparado o governo de que isso acontecer. Isso deixa a diplomacia e o governo brasileiro em uma posição desconfortável", disse o professor.
    Ele ainda lembra que o presidente Lula, em razão de sua proximidade com Fidel, adotou a posição de não criticar o regime cubano em relação a violações dos direitos humanos, chegando inclusive a dizer que o caso se tratava de presos comuns.

    "O Lula pagou o ônus por não censurar o governo cubano, e todos os bônus ficaram com o governo espanhol. Cuba podia ter envolvido o Brasil, ainda que indiretamente, para preservar a imagem do governo do presidente Lula".

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  2. Segundo a Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN) “apesar de o caráter fechado da forma de governo imperante em Cuba possibilitar que muitas prisões permaneçam no anonimato", existem hoje catalogados naquela ilha 306 pessoas condenadas por motivos políticos.

    Noutras palavras: se libertar mesmo esses 52 presos políticos, fruto de negociações entre a ditadura dos Castro com a Igreja Católica e o Reino da Espanha, ainda restarão nas masmorras da ilha-prisão 252 presos de consciência.

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