01 junho 2010

Páginas da história do Cariri - por Armando Lopes Rafael

Padre Cícero pensou ser missionário na China

Em matéria divulgada no "Diário do Nordeste", edição de 18 de março de 2009, abordando livros remanescentes da biblioteca particular do Padre Cícero, a repórter Elizângela Santos escreveu que dentre os 600 volumes, ainda existentes, consta um “dicionário de português para chinês”. A primeira vista trata-se de uma coisa estranha. Padre Cícero interessado em um idioma da China?

Para quem já leu um pouco sobre a vida daquele sacerdote, o fato não surpreende.

No primeiro capítulo do seu livro “O Patriarca de Juazeiro”, à página 23, (2ª edição, Editora Vozes Ltda., 1969) o Padre Azarias Sobreira escreveu:

“Nos dois últimos anos que precederam sua ordenação de presbítero, o clérigo Cícero Romão Batista andou lendo jornais e revistas do Velho Mundo, que pintavam, de maneira impressionante, os esforços titânicos da Igreja, através da Propaganda Fide, para a evangelização dos chineses. E tais entusiasmos a grandiosa perspectiva gerou em sua alma, que, sem mais hesitar, deliberou oferecer-se, como voluntário, para as temerosas missões da China.

Já estava acertando o projeto da partida, quando João Brígido, amigo particular de sua família, no Crato, veio a tomar conhecimento daquela inesperada e atordoante resolução.

Foi quanto bastou para que o desabusado e indomável panfletário, conhecido, já então, pelo seu agnosticismo, perdesse a calma e se desentranhasse em protestos furibundos, aptos para desnortear uma vontade resoluta.

– Não sei (teria dito João Brígido) não sei que religião é essa, que vocês aprendem no seminário. Religião contraditória, que manda amar o próximo, como a si mesmo, e bate palmas a um filho que vai abandonar a mãe viúva, tendo nele o seu único arrimo e cuja única fortuna são duas filhas órfãs. Arrenego desse seu espírito missionário, que se larga, assim, para ensinar o cristianismo aos pagãos do fim do mundo, quando nós temos um milhão de selvagens sem batismo e milhões de batizados que não conhecem a Deus e ainda menos o abecê.

O plano de evangelizar o Oriente caiu por terra, não resta dúvida” (...)

A matéria do “Diário do Nordeste” publicou ainda, que, segundo o padre José Venturelli, “alguns dos livros são do período em que o sacerdote era estudante”. Venturelli supõe isto, já que a assinatura não inclui a palavra "Padre", como ocorre com a maioria dos volumes onde sempre aparece a caligrafia do padre com os dizeres: “Pertence ao Padre Cícero”, acrescido do local (Joaseiro)e data.
Fica explicado a razão do Padre Cícero possuir em sua biblioteca um dicionário Português-Chinês....
Texto e postagem: Armando Lopes Rafael

Um comentário:

  1. Armando, creio que isso seja um fato revelador para muitas pessoasque ainda não conhecem esse lado do Padre Cícro. Espro que os organizadores, produtores e diretores do Filme: A Sedição de Juazeiro, possam fazer justiça, revelando os inúmeros lados desse homem que tanto tem influenciado o destino e a história do povo nordestino.

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.