O som de uma harmônica de boca ecoou entre as palmeiras da praça, desde os espigões do topo delas, passando pela folhagem dos pés de benjamim, carregados de sementes e Lacerdinhas. Como um cosmo, respirava em cada poro da existência até mesmo naquelas bolinhas pretas e duras que são as sementes das palmeiras. Foi quando uma voz, acompanhada pela harmônica, encantou o ambiente:Alguém como tu, Assim como tu, eu preciso encontro Alguém sempre meu De olhar como o teu Que me faça sonhar...
E, na madrugada solitário, num banco da Praça Siqueira Campos, tive saudades de mim mesmo. Saudades de todas aquelas meninas, com seus olhares dissimulados, que me deixavam queimando de dúvidas. Saudades da minha intensidade, mesmo que sob incertezas, com que as amavas e ainda as amo. Sob efeito da abertura do “show” de gravação do disco “Maurício Einhorn e Convidados”, na noite de ontem, 30 de abril de 2010, na Sala Cecília Meireles. A platéia de amigos e músicos da carreira deste extraordinário instrumentista. À exceção de Billy Blanco, apoiando seu passo trôpego numa bengala, a maioria não faz parte do écran da televisão. São músicos verdadeiros, do cerne da música, do fundo do palco, mas que constroem a maravilha de arranjos que parecem naturais quando são pura criação, aqui e, eternamente, humanas. Naquele estágio em que, efetivamente, se revela o quanto Deus é criatura deles.
Não poderia estar mais bem acompanhado. Uma turma de engenheiros, físicos e matemáticos, todos, músicos instrumentistas. Vivem de suas profissões, mas tocam em seus apartamentos, nos bares da cidade, sem o peso terrível com que os músicos têm que matar o leão da sobrevivência todos os dias. E foi, neste clima, que falávamos das agruras do músico instrumentista: Maurício Einhorn, um símbolo da cultura musical internacional, entre os melhores junto a Jean “Toots” Thielemans, por vezes não tem grana para fechar o pagamento do condomínio do prédio em que mora e o atrasa. Quando aquele homem alto veio ao palco, com sua roupa do cotidiano das ruas do Leme, alto, dominando a cena, era de uma gentileza pura como os carbonos brilhantes de um diamante. Um carinho com os amigos e a platéia em geral só comparado ao seu gesto, quando, no meio da gravação, abre uma garrafa de litro e meio de água mineral, levanta em oferta para o seu público e bebe um gole. Um gesto de educação, tão distante, destes jovens nervosos no palco que parecem o centro do mundo.
É preciso ver. Maurício Einhorn quebrando a vulgaridade dos “shows” de absoluta coreografia, destas bandas caídas, destes artistas de palco, destas embalagens de consumo fugaz, como uma barra de chocolate. Ele tocava, como um ferreiro na oficina, olhava para um músico e outro, se afastava, simples assim, como se caminha na rua, apenas para melhor ouvir e visualizar os sons que aqueles gênios da música extraiam. Da mais pura e intensa fonte humana: Alberto Chimelli, Luiz Alves, João Cortez, Roberto Sion,Dario Galante, Augusto Mattoso e Rafael Barata. Isso acrescido de um dos melhore regionais de chorinho da atualidade aqui no Rio de Janeiro. O disco é uma comemoração especial na vida de Maurício Einhorn. No próximo dia 20 de maio ele completa 78 anos, sendo 73 anos dedicados ao instrumento – ganhou sua primeira gaita em 1937, quando tinha 5 anos. A Sala Cecília Meireles cheia, ainda pediu um bis e ele assim se confraternizou, com todos cantando parabéns. Ele abraçado a todos os artistas. Incluindo seu diretor e produtor Danilo Bossa Nova. E aqui uma variante aos músicos de todo o nosso país, na periferia do mercado de sucessos.
Maurício Einhorn foi a Ubá, terra de Ary Barroso em Minas Gerais para um evento musical e lá encontrou, vendendo livros, o seu produtor atual. Danilo Bossa Nova tivera sucesso como cantor no inicio da Bossa Nova, recebeu o apelido de Altamiro Carrilho. Depois de ter viajado pela América do Sul, acompanhando Dilu Mello, Danilo se apresentou na TV Excelsior, TV Tupi, TV Rio, Boite Plaza, onde começou a bossa nova, na Boite Cangaceiro, cantando com Elizete Cardoso e Rildo Hora. Foi ajudado por Roberto Carlos na divulgação do seu disco nas rádios. No final da gravação do CD, fomos para o Bar do Ernesto com a turma de músicos. Entre ouvir um conjunto que tocava na casa, dançar um pouco, beber e comer, um bom papo sobre música. Ora, vocês não precisam mais arrancar o feijão da terra. O que fazer do tempo? A resposta: o que Maurício Einhorn faz. Uma intensa procura de regiões inalcançáveis de cada um, através do instrumento musical que mais gosta, como se escala o estreito do cume do Everest. Aliás, na altura rarefeita do Everest, se encontra metros abaixo, os pulmões de Maurício Einhorn, sobre o fechamento de um enfisema, adquirido como fumante passivo nas casas de shows em que os músicos instrumentistas, especialmente os jazzísticos, exerciam sua profissão. Aquela mistura entre o espaço fechado, o esfumaçado dos cigarros e o sopro em suas gaitas.
Na volta para deitar-me e dormir, tinha a certeza que assistira a algo muito singular. Em todos os sentidos, especialmente o programa musical, a expressão de arte, mas, também, a possibilidade de que aquilo não se repita tão facilmente. Um evento como aquele, uma gravação, um público e uma divulgação, é algo extremamente difícil e, economicamente, caro. Como o caro em economia só envolve moeda, não diz sobre arte, está aí a dificuldade, não na escassez de oportunidades.
Por: José do Vale Feitosa









5 comentários:
Quem diz conhecer música Brasileira de qualidade e nunca ouviu falar em Mauricio Einhorn ainda precisa estudar e conhecer muito!
Maurício Einhorn é um dos maiores ícones do Brasil, da Música Instrumental. Aclamado no mundo inteiro, ele já gravou com CENTENAS de artistas e tem dúzias de discos próprios.
Eu considero a musicalidade de Maurício Einhorn somente comparada a do grande Toots Thielemans, e olhe lá...mesmo instrumento, poucos no mundo conseguem a técnica que esses dois gênios atingiram.
Há um carinha novo aí na europa que a mídia coloca como o sucessor do Toots Thielemans, que já tem pra mais de 95 anos de idade, mas na minha opinião, ele está muito longe em termos de musicalidade. Toots conseguiu feitos notáveis, harmonias inusitadas num instrumento que é apenas solista, e sua linha melódica compete com a de outros grandes gênios como Phil Woods, Paquito D´Rivera, Arturo Sandoval, Charlie Parker. Se tivéssemos que nomear os caras mais melodiosos de todos os tempos, o Toots Thielemans estaria talvez entreos 3 primeiros.
E o Maurício?
Certa vez o Maurício Einhorn soube que o Toots Thielemans viria ao Brasil. Seu grande ídolo na gaita. Ficou todo nervoso porque iria finalmente tocar com ele. Toots já era de idade, enquanto o Maurício, um jovem. Daí o Maurício disse ao Toots que ficava "gelado" ao tocar diante de uma "sumidade" como o Toots Thielemans, que disse em resposta que o Maurício era muito talentoso e musical.
Outro dia vi um garoto talentoso que o Maurício Einhorn está apresentando como seu sucessor, e perguntaram a ele como é tocar com o Maurício Einhorn. Ele disse: Tocar com o Maurício é um desafio. Eu sempre fico nervoso, pois ele é um mestre insuperável.
E aqui fiquei me lembrando das mesmas palavras que o Toots disse um dia ao Maurício Einhorn no início de carreira. Mas isso não acontece sempre...
O Hildo Hora por exemplo, embora bom gaitista também, possui outro estilo, e IMHO, Hildo Hora, apesar de décadas, está a anos-luz de algo que se pareça ao talento e á musicalidade de um Maurício Einhorn que até os dias de hoje reina ABSOLUTO na América Latina, quando o assunto é a gaita de boca.
Parabéns Maurício Einhorn, e parabéns ao Zé do Vale por nos trazer tão bela crônica.
Eu deveria escrever bastante sobre música, já que é a minha área, mas isso é para mim uma parte tão natural que já me ocupa o pensamento 24 horas por dia, que chego a ficar entediado ao ter que ainda escrever sobre essas pessoas que passo o dia a ouvir e analisar. Mas qualquer dia desses quero dar vazão a umas crônicas ou pelo menos, pequenas notas musicais acerca dessa gente maravilhosa que está a todo instante em meus ouvidos.
Abraços,
Dihelson Mendonça
Zé, vi a matéria no Cariricult e postei no meu blog com destaque!
Muito agradecido viu! Você recebeu um material que te presentiei de quando da sua visita? Deixei com a Socorro Moreira.
Abração
A matéria e o comentário são verdaeiras aulas!
Repito: Uma postagem simplesmente MARAVILHOSA, que faz jus ao genial Maurício Einhorn.
Abraços,
Parabéns ao Zé do Vale
Dihelson Mendonça
Amigo Zé do Vale,
Após reler a sua crônica e ler o e-mail posterior, agradeço a dedicatória, e quero lhe convidar a galgar o "Everest" que sobrepuja a cadeia de montanhas da Chapada do Araripe conosco, respirando esse ar rarefeito e tirando leite de pedra aqui.
Para não morrer de tédio, desde sempre, realizei reuniões musicais aqui em casa, onde disponho de um estúdio, para músicos iniciantes e profissionais. São workshops que ofereço gratuitamente como reciclagem para os que estão começando. HOJE DOMINGO, VAI TER UM, que começa às 14:00 sem hora pra acabar.
Compartilhando do extenso material que consegui reunir na vida, milhares de gravações, fico muito feliz por poder compartilhar tardes inteiras de explicações, audições comentadas para tantos que ainda não tiveram oportunidade de conhecer os grandes gênios como o próprio Maurício Einhorn, Arismar do Espírito Santo, Herbie Hancock, Stanley Clark, Bill Evans...e a lista é imensa...
Um trechinho das conversas:
"-- Vamos ouvir agora a música "Giant Steps" do John Coltrane. Um dos clássicos do Jazz. Uma das músicas mais difíceis que existem para improvisar. Alguém sabe porque / Veja a cifra: Cada nota corresponde a um acorde. É muito complexo raciocinar um conjunto de escalas em uma fração de segundo e construir um discurso musical. Até o Hermeto sentiu dificuldades e nos anos 60 disse que era impossível improvisar conscientemente nela. Mas ouçam aí o que o John Coltrane fez...isso lhes parece inconsciente ? Vocês sabiam que os clássicos do jazz chamamos de "standards" ? então, quando vocês ouvirem de um músico mais experiente em suas viagens: Que tal tocar um standard ? já fiquem sabendo que se trata de uma daquelas músicas que ficaram consagradas pelo público e porque os músicos gostam de tocar, como:
"The Man I Love", "Fascinating Rhythm", "Our Love is Here to Stay", etc do Gershwin. Ou "Sophisticated lady", "Take the A Train", do grande Duke Ellington. Vocês sabiam que o Claire Fischer gravou o "Take the A train" do Duke unindo ao "Pato" consagrado pelo João Gilberto ? podem observar que na primeira parte, a harmonia é a mesma! Vamos tocar pra conferir, 1, 2, 3...atenção baixista, mantenha a harmonia...
...Ou os grandes Clássicos do Thelonius Monk. Alguém aqui já ouviu falar em Thelonius Monk ? Muitos de vocês só devem ter ouvido falar que ele era meio louco quando foi descoberto e incorporado à banda do Miles Davis, mas vocês sabiam que ele é o autor de um dos maiores clássicos da música moderna, "Round Midnight", que o cineasta Bertrand Tavernier fez o filme "Round Midnight" ( por Volta da Meia-Noite ) ? Vamos assistir "Por Volta da meia Noite" e ouvir agora com o grupo do pianista Herbie Hancock o clássico Round Midnight, do T. Monk.
continua...
...
Sabiam que essa música tem um parentesco com um baião de Luiz gonzaga ? Ouçam só essa parte ( toco ao piano ) ela não é a mesma coisa dessa do Luiz Gonzaga ? ( toco ). Por aí vemos a semelhança temática, mas isso não é único. Sabem, até hoje tenho minhas dúvidas sobre quem inventou mesmo o baião. Teria sido Januário, pai do Luiz Gonzaga ? E o que me dizem da parte final da Rhapsódia in Blue do gershwin? Ouçam isso ( toco no piano ), que tal ? É ou não é um baião ? pois saibam que essa composição é de um Nova-Yorkino chamado George Gershwin composta em 1924. Será que o Januário ouvia Rádio em pleno Agreste ? Ou será que Gershwin ouviu Luiz Gonzaga ? Fica pra vocês estudarem posteriormente...
Agora vamos ouvir uma coisa interessante: Alguém deve conhecer o grande pianista Húngaro Franz Liszt, e conhecer o seu grande poema sinfônico "Les preludes", certo? Vamos ouvir Les preludes com a orquestra filarmônica de Berlim, e se alguém notar algum trecho que lembre uma música nordestina, eu paro a gravação...
Vocês sabiam que liszt morreu em 1886, e Tchaikovsky concluiu seu famoso concerto para piano # 1 em 1884 ? E que Tchaikovsky foi até Weimar mostrá-lo ao mestre, mas foi um grande desencontro ? Como se já não bastasse Brahms ter dormido numa audição na casa do Liszt, que percebendo, pediu que todos se retirassem um a um e o deixassem dormir em paz... vamos ouvir as variações sobre um tema de paganini criadas por Brahms em desafio ao virtuosismo de Liszt e depois, as próprias variações do Liszt sobre o mesmo tema. Observem a rivalidade virtuosística, sem perder a musicalidade. ( Aliás, vocês sabiam do xamego de Brahms com Clara Schumann, ex-mulher de Robert Schumann, que por sinal, morreu louco ), mas na verdade, Schumann é outro gênio, não podemos desconsiderar. Chopin detestava o carnaval de Schumann, achava que aquilo nao era mais música. Bom, Liszt dedicou-lhe a sua Sonata, e Brahms a tocou para Clara escutar. Odiaram. Vamos ouvir a sonata em Si menor de liszt com Lazar Berman.
E agora, eu quero ouvir vocês tocarem também. A música é isso, tem que ouvir de tudo. Conhecer de música grega até Frank Zappa. O que gostariam que tocássemos ? Querem tocar Tom Jobim, Gershwin, Luiz Gonzaga ? A Música, meus amigos, é uma só. Falo em música de qualidade! Você aí da guitarra, faça uma progressão 2-5-1 em Dó menor e mantenha. Quero te mostrar como fazer um ritmo de cumbia no piano. Enquanto isso, bateria, me acompanhe. Não tem problema, é assim mesmo atravessado. Cumbia moderna, todo mundo tocando agora, primeiro improvisa o saxofone, Vai, cara!... incorpora aí o som do Coltrane, se solta. Vai, vai, vai... Música é uma coisa linda, não ?" Vamos todo mundo! Quero ver daqui pra madrugada, todo mundo sabendo improvisar em pelo menos, "Now´s the Time" de Charlie Parker...é facílimo, gente, vocês conseguem!
Abraços,
Dihelson Mendonça
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