12 abril 2010

Chumbrega - Por : J. Flávio Vieira


Chumbrega vendia uma cachacinha a granel em Matozinho. Comprava em alguns alambiques da redondeza, engarrafava, após hidratá-la um pouco para aumentar o volume e o lucro, e distribuía bodega a bodega, meio às escondidas. Comerciante de parcos recursos, não tinha nenhuma condição de selar os vasilhames, já que isso significava recolhimento de imposto. O negócio funcionava como uma espécie de contravenção. Algumas vezes fora pego de calças curtas, multado e tivera a carga apreendida. Continuava , porém na luta, já que não tinha outro meio de vida às mãos e, também, com o tempo, viciou-se a driblar os fiscais, a dobrar a esquina, a esconder-se à aproximação do fisco. Aquilo se tornara uma espécie de esporte e punha um pouco de adrenalina no dia-a-dia repetitivo de Chumbrega. Vidinha de esforços desde a pobre infância, cujo fardo se foi tornando mais pesado com o passar dos anos. Casara por volta dos vinte e os filhos se foram enfileirando casa a dentro: oito. D. Ritinha, a sua companheira, viera ,como ele, da manjedoura. E sem o incenso a mirra ... e o ouro? Nem pensar! Afeita aos trabalhos domésticos, a esposa tinha uma enorme empresa para administrar, com muitos funcionários: parca em recursos e rica em problemas. O casal tocava com maestria aquela vida de pobre... e administrar miséria não é obra para principiantes. Carece de técnicas de mágico e artes de contorcionista.

Ritinha se lhe fizera a esposa ideal. Trabalhadora, controlada, sistemática, fazia render cada centavo do pouco dinheiro arrecadado por Chumbrega. Os filhos, como um general para o batalhão, mantinham-os debaixo de ordens. Havia apenas um entrave no relacionamento dos dois. Ritinha , por trás da carapaça de durona, sempre fora muito nervosa. Queixava-se de muitas doenças e dores as mais variadas. E mais, absorvia, como uma esponja, as moléstias de todos : vizinhos, amigos, atores da televisão. Bastava a notícia que alguém morrera tuberculoso em São Paulo que, na mesma hora, Ritinha já começava a tossir e a definhar. E esta mania, com a sucessão dos anos, se foi acentuando. Tanto e tanto que aquilo terminou por somar quilos no fardo já quase insuportável do nosso varejista de aguardente. Chumbrega passou a ter uma vida mais reclusa e já não transparecia a alegria , mesmo contida, de outros tempos.

Já sessentão, um dia, a mola pareceu ter esticado até o limite. Chumbrega caiu doente , queixava-se de uma infinidade de infortúnios e quase já não saía com sua carrocinha para a distribuição das garrafas. Os vizinhos entenderam que nosso comerciante entrara na curva descendente da vida e, como um estrela cadente, parecia já ter se consumido no último brilho. Aguardavam, a qualquer momento, uma notícia catastrófica sobre ele. O tempo, no entanto, é mestre em armar emboscadas nas esquinas da existência. Pois a velha da foiçona lançou sua lâmina onde não se esperava. As queixas mil de Ritinha, durante toda a vida, vai ver que tinham lá suas razões. Um dia ela dormiu na terra e acordou no céu. Tivera apenas um pequeno mal estar na noite anterior. Chumbrega lhe preparara um chazinho de jalapa e imaginou que tudo estaria resolvido no dia seguinte. Que nada! O mundo de Chumbrega veio abaixo. Perdera a companheira de tantos e tantos anos e lá ficava ele com uma récua de filhos já graúdos, é certo, mas que, como sempre, nunca param de dar trabalho. Além do mais, com saúde abalada já há vários anos, como enfrentaria os novos desafios?

Imaginou-se que em poucos meses Ritinha não estaria só na cova. Ao contrário do que toda Matozinho esperava, passado o luto oficial de trinta dias, aconteceu com Chumbrega uma ressurreição. Criou alma nova, deixou as queixas de lado, empenhou-se no trabalho com o vigor dos primeiros anos. Passou a cuidar mais do visual, embebeu-se de extratos novos e começou a freqüentar algumas festinhas. Percebia-se, claramente, que Ritinha, nos últimos anos , funcionara como um parasito, sugando-lhe a seiva vital . Agora, já sem o parasitismo, ele florescera como um marmeleiro seco com as primeiras chuvas. Mal completara seis meses de viuvez, o coração de Chumbrega, que antes dera sinais de entupição no carburador e folga no virabrequim, engatou, novamente, a primeira. Começou a namorar uma vendedora de feira, vinte anos mais nova. Doninha , como era conhecida, era voluntariosa, despachada e não tinha as prendas domésticas de Ritinha. As más línguas diziam que seu taxímetro já tinha virado a bandeirada umas duas ou três vezes. Juntaram os panos de bunda, antes do natal.

A princípio, o relacionamento parece ter andado bem, tangido pelo cheiro de carne nova e pelo mel da lua que, percebeu Chumbrega, já estava mais para quarto minguante que para cheia. Ardido o primeiro fogo, começaram a aparecer , como sempre, os primeiros defeitos de lado a lado. Doninha não se adaptara bem no comando da tropa taluda deixada por Ritinha. Era mais independente do que o marido esperava. Viajava para feiras nas cidades vizinhas e nem todo dia dormia em casa. O esposo teve que, assim, compartilhar com ela afazeres totalmente estranhos: cozinhar, passar, lavar prato. Doninha, por outro lado, acostumara-se a uma variedade maior de parceiros, mais novos e fogosos e , rápido, enfastiou-se daquele repetitivo prato de todo dia.
Passados uns dois anos, Chumbrega começou novamente a ficar capiongo, meio borocoxô. Alguns diziam que talvez fosse o peso de umas antenas novas da Sky que Doninha parecia estar comprando para ele. Caiu adoentado, voltou à reclusão e não queria conversa com ninguém. Os que já o conheciam de longa data imaginaram que aquilo era uma fase, pois a vida é tecida assim mesmo entre vales e depressões. Matozinho se surpreendeu, pois, quando recebeu a notícia : Chumbrega dormira no domingo com as queixas de sempre e, na segunda feira, quando Doninha foi chamá-lo descobriu que já não morava nesta dimensão .

À noite, no velório, uma Doninha chorosa, entre um e outro soluço, explicava o inexplicável. Antes de dormir, Chumbrega lhe pedira um copo de leite quente. Queixou-se de azia e acreditava que tinha sido uma tapioca que comera no jantar. Ela, cuidadosamente lhe preparou e ele tomou tudo: glute-glute-glute. Quando uma vizinha lhe perguntou se depois disso ele não se tinha queixado de mais nada, Doninha , entre lágrimas concluiu;

--- Não, ele não se lamentou de mais nada. Acho que a azia passou! Até porque eu coloquei no leite um pouco de um chá de jalapa que ele tinha preparado prá mim ontem e que eu , morrendo de sono, terminei me esquecendo de tomar...

Por: José Flávio Vieira

3 comentários:

  1. Parabéns, José Flávio,

    Essa seria uma das suas crônicas ( ou contos ) mais sérios, de Matozinho. Ela não tem o mesmo fulgor, a mesma simpatia das outras e parece às vezes até ter sido escrita por uma outra pessoa, mas ela traz no clima jocoso do final, motivos para refletirmos sobre a vida e o viver ( pelo menos essa foi a estranheza que me causou ).

    Enfim, nem só de humor vive Matozinho, que tem lá seus personagens nostálgicos, mais na linha de "Twin peaks" do que da Sucupira de Odorico Paraguaçu ( embora eu prefira esta última ).

    Parabéns pela crônica ( ou conto ) desse Domingo. Todos nós certamente, temos um pouco do Chumbrega em nossas veias, e na arte da vingança, a vida, este supremo juiz é quem sai levando a melhor, sendo amiga dos relógios e do inexplicável.

    Diheson Mendonça

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  2. Caro Dihelson,

    Agradeço pelo comentário tão bem colocado. É verdade, a história parece um pouco mais séria do que o habitaul, salvo pelo final um tanto rocambolesco. Qdo. comecei a história não tinha ainda um final definido, apenas o tema dado por um cliente no consultório: aquela constatação de que o viúvo por mais baelado que esteja, qundo perde o consorte ( ou a consorte) cria alma nova... O resto da história foi surgindo naturalmente enquanto escrevia. João Ubaldo é quem diz que os personagens, como os filhos, criam alma p´ropria e seguem o caminho que bem querem... Abraço!

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  3. Mas, Zé, é uma ótima estória! E é bom porque ela também se diferencia das outras já escritas.

    Eu também percebi vendo os comentários no Blog CaririCult, que diferentemente das outras estórias, essa aí despertou mais comentários nos "intilectuais" da região, o que de certo modo, os fez gastar mais neurônios, além daqueles comentaristas que sempre gostam de tecer longas e chorosas laudas dando a sua opinião final sobre o assunto.

    Vi que nas outras crônicas, nem sempre tivemos essa quantidade de respostas, mas que isso não seja o estímulo para que vc mude o estilo que vinha fazendo agora. Não! A Graça de Matozinho está na simplicidade, nos "causos" da sua gente peculiar, e 1 conto de humor valem mais do que 1000 sizudos. Bom, isto é apenas a minha opinião, de quem pensa simples, como a grande maioria do povo. Se querem ler algo mais pesado, eu sugiro ler kierkegaard.

    Um grande abraço e manda brasa!
    Só você pode!

    Dihelson Mendonça

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