25 janeiro 2010

A Partilha - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Vivemos num mundo capitalista, onde o principal valor é o ter. As pessoas geralmente são valorizadas pelo que têm e não pelo que realmente são. Há séculos que é assim! Sem que se perceba, os filhos vão sendo formados impregnados do desejo de acumular riquezas. E a afeição filial, a preocupação com os pais já idosos chegam a ser colocadas em segundo plano.
Há cerca de quinze anos, eu li num dos jornais de Fortaleza uma história ocorrida no final do século dezenove, que não me recordo quem foi o autor, mas que ficou guardada em minha memória. Reproduzo-a aqui ao meu modo:
Numa tarde quente de verão do final do século XIX, Mundico Silveira Barbosa, sentado na porteira do curral, observava meia dúzia de vaquinhas magras. Sentia na alma um grande vazio pelo desprezo a que fora submetido por seus doze filhos, após a partilha de todos os seus bens.

No passado, Mundico fora um dos maiores donos de terra daquela ribeira e um grande criador de gado. Quando completou setenta anos, sentindo-se cansado e provavelmente próximo do fim, não querendo deixar motivo de intrigas para os filhos, resolveu antecipar a herança que lhes deixaria. Ficou apenas com pouco mais de cem tarefas de terra e umas cinqüenta reses, que aos poucos foram minguando. Agora ele e Madalena, sua velha, passavam por necessidades nunca antes experimentadas.

A produção da terra era insuficiente para alimentação do casal idoso e os bois que escapavam da falta de pastagem, foram aos poucos sendo vendidos para assegurar a manutenção da fazenda. Mas o que mais doía no coração de Mundico era a falta dos filhos. Há mais de três anos que nenhum deles fazia sequer uma visita aos pais.

Estava Mundico imerso nesses pensamentos, quando ouviu ruídos do trotear de um cavalo. Era seu vizinho, compadre e grande amigo, o coronel Rondon Brandão. Sabedor da ingratidão dos filhos do compadre Mundico e das dificuldades pela qual ele passava, resolveu encontrá-lo, para comunicar ao amigo um modo de fazer com que os filhos passassem a visitar os pais.

Ao apear-se do cavalo, o coronel Brandão foi direto ao assunto, fazendo a seguinte proposta:
– O compadre vai oferecer um almoço para os seus filhos no próximo domingo. Pois sendo pra comer todo mundo vem! É o seguinte: vou lhe dar um boi e mandar meus empregados para matar o danado e preparar o almoço. Depois vou lhe emprestar um saco de moedas, contendo duzentas libras de ouro. O compadre ainda tem um cofre?
– Sim. - Respondeu Mundico.
– No dia do almoço você vai mandar colocar o cofre na sala de jantar, num lugar que fique bem à vista de todos. Depois mande quebrar um bocado de garrafas em pedacinhos do tamanho de moedas. Com esses cacos de vidro, o compadre vai encher saquinhos iguais aos das moedas. Bote tudo dentro do cofre, de modo que ele fique bem abarrotado, com o saco das moedas de duzentas libras bem na frente. Na hora do almoço vai chegar um portador meu com uma carta lhe pedindo duzentas libras de ouro emprestado. Leia a carta em voz alta. Eu lhe garanto que as visitas dos seus filhos não irão faltar.

Conforme o combinado, os filhos, genros, noras e netos compareceram todos ao almoço. No momento em que estavam sentados à mesa do banquete, chegou o portador do coronel Brandão com a carta que foi lida em voz alta. Os filhos ficaram atentos, observavam o cofre cheio e se entreolhavam num misto de curiosidade e satisfação. A tudo assistiam com redobrada atenção. Ao retirar o saquinho contendo as duzentas libras de ouro, Mundico disse ao portador:
– Avise ao meu grande amigo, compadre e irmão, coronel Brandão, que não se preocupe com o pagamento. Ele paga quando puder e quiser.

Terminado o almoço, os filhos por lá ficaram a tarde toda, somente se retirando ao por do sol.

No dia seguinte, logo pela manhã, três filhos chegaram para uma visita. Pois graças ao coronel Rondon Brandão, Mundico Silveira pode receber outras tantas visitas dos seus filhos, genros, noras e netos. Até o final de seus dias.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Nota: Os nomes dos personagens são fictícios.


3 comentários:

  1. Uma história de ingratidão, mas que retrata muito bem várias outras até aqui existentes.

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  2. Parabéns, Carlos Eduardo Esmeraldo.

    E apreciei bastante outro aspecto: Que você trocou os nomes reais por nomes fictícios. Vivendo e aprendendo, nós pudemos ver há alguns meses aqui mesmo neste Blog, que quando se publica uma história, ou estória, frequentemente vem os netos, bisnetos e alguns outros parentes criar confusão, por causa do nome. Claro que eu acho isso um absurdo, especialmente se o fato aconteceu.

    Imagine a pessoa escrever um livro de memórias, colocar os nomes dos que participaram, e ter que aguentar a ladainha dos netos e bisnetos dizendo que estamos denegrindo a imagem de gente que foi nossa amiga de infância. Pois é. Neste mundo, tem de tudo.

    Essa tática de colocar nomes substituindo os verdadeiros, pode ser uma boa solução para esses problemas, embora eu e muitos concordem que o a história deve ser narrada com os nomes reais, mas fazer o quê, né ?

    Infelizmente, hoje em dia algumas pessoas vivem à beira de um ataque de nervos e vêm até na citação de um nome, uma provocação. O mundo está perdendo o humanismo. Eu não consigo imaginar o mundo daqui a 50 anos.

    Abraços a você a nossa querida Magali.
    Saúde e Paz.

    Dihelson Mendonça

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  3. Agradeço a Chico Braúna e ao Dihelson pelas palavras de incentivo. Na verdade, li essa história num jornal há cerca de uns quinze anos. E os nomes dos personagens, bem como o de seu autor foram por mim esquecidos. Então coloquei nomes fictícios misturando nomes comuns às de pessoas do campo, de alguns amigos e ex-colegas da Universidade, com sobrenomes trocados. Na realidade não foi preocupação com a reação da parentela. Mas grato pela lembrança, caro Dihelson. Agora usarei com esse propósito, pois já fui vítima da neta de um personagem.

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