23 janeiro 2010

A pequenez de todos nós - Por: Luiz Caversan


Somos pequenos, ínfimos, frágeis, pouco mais que pó ou barro, e este ano começou de maneira a sentirmos muito forte e claramente isso: o que sobretudo nos diferencia dos demais também ínfimos seres que habitam este planeta é a nossa capacidade de certificar essa fragilidade e nos compadecermos disso. Mas essa capacidade de constatação e a necessária tristeza que advém e nos assalta torna-nos ainda mais frágeis. Hoje ouço o pai de um soldado brasileiro morto no Haiti, com a voz embargada, tentando convencer o entrevistador de que estava feliz, porque o corpo do filho iria para um memorial do Exército. "Ele sempre quis servir o Exército e agora pode descansar em paz".

Como assim? Tratava-se de um rapaz de 20 anos, a última coisa que ele queria na vida era descansar. Mesmo nesta tentativa de se engrandecer diante da tragédia, procurando alguma coisa que justificasse sua perda, o homem sofria na sua incomensurável fragilidade. Do Haiti para Higienópolis: o zelador do meu prédio é um homem bom. Forte, feliz, mas nos últimos tempos com uma sombra a obscurecer sua fronte, sempre que conversávamos, por conta da netinha, que desde o nascimento vinha e ia de hospitais por conta de uma má-formação.

Hoje, o interfone tocou e, com a voz trêmula, ele me conta: "Ela não aguentou. Minha netinha foi embora". Desci para dar um abraço no meu amigo, com um nó na garganta e, ao sentir o calor e o aperto de mão forte daquele homem grande e tenaz, senti eu a pequenez de que falo. Inexorável.

Já se vai quase um mês, mas ainda resiste na memória a imagem daqueles jovens lindos apesar de sua profunda e inconsolável tristeza, se abraçando junto ao caixão do amigo que sucumbiu ao desmoronamento em Angra. Este foi o "programão" televisivo do comecinho do ano, lembra?, ver aquele paraíso de Angra que conheço tão bem abrindo sua bocarra vermelha de terra e sangue como se fosse a porta do inferno? Essa televisão, viu, vou te contar, é o arauto das desgraças com uma força tão grande e com um impacto tão cruel que só aumenta ainda mais a nossa finitude, aquela...

Haiti de novo: veja que também não sai da retina, de jeito nenhum, aquele menininho negrinho todo sujo e remelento olhando olhão arregalado, com uns olhos que nunca vou esquecer (já sonhei com eles...), a movimentação em sua volta, ninguém dando a menor bola pra ele. Lembra, apareceu na Globo várias vezes? Será que o cinegrafista, depois de cumprir seu triste papel, foi lá e pegou o menininho no colo, amparando-o e acalmando-o ainda que um pouco, tentando em vão fazê-lo se sentir minimamente filho de Deus? Vou morrer sem saber...

Desastres. Angra é longe, o Haiti é outro mundo, mas o Sumaré e a Pompeia são bairros que eu conheço, onde já morei, a menos de três quilômetros daqui e agora, e é isso que dá um frio na espinha e um amargor na boca do estômago, saber que ali morreu gente soterrada, ali tem barranco desabando e levando tudo.

Tudo...

O que é esse tudo que temos e que vemos tanta gente sofrendo quando perde...tudo? Tudo o que temos, ai, é, de verdade, essa nossa pequenez. Essa tal, que vai nos acompanhar até daqui a pouco, nessa nossa curta, curtíssima jornada durante a qual tentamos acumular coisas, na tentativa de dar sentido a uma finitude inescapável.

Por: Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

Foto: http://1.bp.blogspot.com/_JvfHU9zw0ns/R8pbhvsywuI/AAAAAAAAAbY/koUkJ5yd6hs/s400/A+CRIAN%C3%87A+FR%C3%81GIL.jpg

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