28 dezembro 2009

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


A CONFUSÃO

O meu tio-avô Hermógenes Martins, tio do Luís, foi um personagem ímpar, no Crato. Homem de pouca instrução formal, mas detentor de um grande conhecimento, fruto de sua incrível curiosidade. Profundo conhecedor da geografia, da hidrogeologia do Vale do Cariri e da Serra do Araripe. Era o geólogo e o paleontólogo do Crato. Sabia classificar animais, plantas, pássaros, fosseis e árvores. E o Cariri é o maior depositário de fósseis de peixes do mundo. Recentemente foi descoberto um dinossauro carnívoro. Localizou e mapeou fontes e a estrutura mineralógica do sul do Ceará, com rara paciência e método beneditino. Qualquer cientista que chegasse à cidade, para desenvolver pesquisas, trazia o seu nome e endereço: Coronel Secundo, 8. Cientistas brasileiros, japoneses, americanos e europeus não davam um passo sem ter a assessoria do Tio Hermógenes. Abaixo, vemos o cartão do Dr. Shozo Yamamoto da Universidade de Tóquio.




Também dominava, como poucos, os estudos genealógicos. Foi ele quem descobriu onde nasceu o grande Delmiro Gouveia. Foi colaborador do Instituto Cultural do Cariri desde a sua fundação. Em sua casa recebia, sempre, com permanente bom humor, todas as caravanas estudantis ou de técnicos que vinham a busca de informações sobre a região. A cidade o homenageou com um nome de rua. Outra característica, que se sobressaia sobre as demais, era a facilidade de fazer amizades. Um dos seus grandes amigos era o notável Luiz Gonzaga, o sanfoneiro e o pai dele. A amizade era tanta que o velho Januário se hospedou durante quinze dias na casa do tio Hermógenes, para submeter-se a tratamento médico, enquanto o filho (fotos seguintes), famoso e querido de todos, fazia shows pelas cidades vizinhas.




O Tio Hermógenes teve quatro filhas: Ruth, Norma, Fátima e Célia. As três últimas eram pequenas, quando se hospedou o Sr. Januário. Uma delas foi atender alguém que batia à porta e, falando com um vozeirão, disse:

- “O velho Hermógenes está?”

- “Está lá dentro”
- “Pois diga que é o Luiz Gonzaga”.
A menina, meio confusa, pensando no primo Luís Gonzaga, disse para o pai:
- “Papai, tem um negro lá fora, dizendo que é o Luis Gonzaga!!”



Tio Hermógenes, a esposa Aracy e a filha Ruth logo após mudarem-se de Crateús para o Crato. Ao fundo, à direita, a casa onde moravam.


Tio Hermógenes e a esposa Aracy, pouco antes dele ser acometido da doença de Parkynson.

PÉ DE MESA

Nas cidades do interior, e o Crato não fugia a esta regra, todas as pessoas ficavam sabendo dos homens que tinham certas partes anatômicas do corpo avantajadas. Era sempre motivo de papos nas praças e calçadas. As putas não gostavam de ter como clientes aqueles a quem chamavam: “pé de mesa”. Estavam sempre avisando para as outras:

- “Não vai com fulano que ele é pé de mesa”.
E acabavam por contar para os clientes normais, que tratavam de espalhar pela cidade toda.
O “pé de mesa” mais famoso do Crato era um promotor que morou na cidade por um curto período. A Glorinha, para bajular o Doutor, avisou-lhe da chegada de uma menininha bem novinha linda de morrer. Só quinze anos. Ele foi logo experimentar esta preciosidade. A Glorinha, sabendo dos seus atributos, advertiu:

- “Olhe, vá com jeito. Seja moderado. A menina é nova e tem poucos quilômetros rodados.”
Poucos minutos depois que o casal entrou para o quarto, ouviu-se um barulho e um grito da menina:

- “Me acudam, me acudam, que este homem está me ‘ajojando’ !!!
Alguns dos fregueses, apavorados com os gritos, botaram a porta abaixo e depararam-se com a menina acocorada na cabeceira da cama e dizendo:

- “Tirem este jumento de lote daqui de dentro!”

RODILHA

A raça humana, como é hoje, surgiu após milhões de anos de evolução, há cerca de cem mil anos, no sul da África e às margens do Oceano Índico. Como eram nômades, se espalharam pelo mundo inteiro. Ou seja, desde aquela época já existia a globalização. Primeiramente na África. Quando chegaram no Oriente Médio, uns dobraram para esquerda e foram povoar a Europa. Outros dobraram para a direita e foram habitar a Ásia. Nesse período ocorreram duas glaciações, provocando o drástico rebaixamento do nível dos oceanos, possibilitando o acesso, a pé, das atuais ilhas do Pacífico e mesmo da Austrália. A América foi alcançada caminhando pelo estreito de Behring. Uma outra hipótese é que alguns chegaram à América do Sul cruzando o Oceano Atlântico reduzido, quando das glaciações. Estes nômades se alimentavam da caça e da colheita de frutas e raízes que a natureza oferecia. Desde o primeiro núcleo familiar, no sul da África, houve uma divisão de tarefas que perdura até hoje no nosso interior e, por conseguinte, no Crato. Os primeiros homens perceberam que as mulheres e as crianças não poderiam participar da caça. As mulheres falavam demais e as crianças faziam muito barulho, gritando e correndo. Com isso espantavam a caça. Assim, decidiram que as mulheres ficariam no acampamento, cuidando das crianças e da feitura dos alimentos. Uma outra tarefa estabelecida para elas foi a de abastecer o acampamento com água. Esta é uma tarefa, até hoje, século XXI, que as mulheres do sertão cumprem religiosamente, sem nenhum questionamento, como a coisa mais natural do mundo (na verdade é uma tradição de cem mil anos). As nossas sertanejas desenvolveram uma habilidade fantástica de equilibrar o pote ou a lata na cabeça. Mas evoluíram, usando um pano enrolado, conhecido como rodilha, que serve de proteção à cabeça e possibilita maior equilíbrio ao pote. Por isso surgiu um ditado: “Se não pode com o pote não pegue na rodilha”. Ou seja, se alguém não tem capacidade de desenvolver uma tarefa não deve nem tentar.
Mas tudo isso para dizer que uma sertaneja, “pupila” da Glorinha, no Crato, encontrou uma outra ‘função’ para a rodilha. Recebeu como cliente um conhecido ‘pé de mesa’. E ele, tentando convencê-la:

- “Mas minha filha, eu só ponho a cabecinha”.
- “Não, cabecinha sem ombro, não quero não”.
Conversa vai, conversa vem, até que ela se saiu com esta:
- “Tá bom, eu deixo, mas desde que você use esta rodilha como esbarro”.


Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


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