06 novembro 2009

No Crato, outros tempos atrás - por Glória Pinheiro


No Crato. Houve uma época em que me submeti ser "aprendiz de fadinha" . Uma fajuta aspirante à fadinha que nem sequer ousou fazer o juramento exigido para usar aquele lindo uniforme azul. Vestir aquele uniforme azul e a possibilidade de ser Bandeirante, deveria ser uma maravilha. Porém..., sob uma árvore de porte médio, numa reconfortante sombra, - puxo pela memória -, me vem três ou quatros encontros nas manhãs de domingos no casarão da Praça da Sé, onde funcionou o Grupo Escolar Teodorico Teles. Ficávamos distribuídas em uma suposta "fila indiana", monitoradas por uma Bandeirante, aprendendo a cantar dando um passo para a direita e outro para a esquerda. Cantando mais ou menos assim: "Um passs si nho cá (pausa). Um passs si nho lá (pausa). Gosto de dançar e passearrr tra-la-la-lá, tra-la-la-lá..." E nos tra-la-la-lás erguíamos os braços fazendo um movimento com as mãos. No encontro de minha última participação, resolvi me questionar: "O que estou fazendo aqui?" "Que coisa monótona é esta?" Algum tempo depois escutei uma voz que dizia: "- Glória, vai fazer natação e aprender a jogar vôlei!" Ora, uma menina que participava de muitas brincadeiras de criança cada uma mais divertida que a outra: pular corda, jogar o jogo do mata, brincar de amarelinha, bambolear, jogar bola de gude, jogar castanhas, na falta das castanhas o jogo continuava e a animação prosseguia com tampinhas de garrafas, só para citar algumas. Enfim, não faltavam brincadeiras muitas delas em companhia dos meus irmãos e dos três amigos e vizinhos que naquela altura eram como nossos irmãos, estavam incorporados à nossa família e nós à família deles. Acredito que por tudo isso minha infância foi prolongada o quanto foi possível.

Desde muito cedo e frequentemente, nas férias escolares íamos ao Engenho do Francisco Gomes. Nossas férias coincidiam com as moagens de minha avó, as de minha mãe e de alguns proprietários vizinhos. Minha irmã mais velha, por natureza, era essencialmente urbana. Nos períodos das férias costumava se refugiar na casa de nossa avó paterna, à Rua Dr. Miguel Lima Verde, onde possuia seu pequeno reino devido a predileção à ela dedicada por ser a primogênita dos netos cratenses. Dos netos cratenses éramos somente os filhos de meu pai, os outros cinco netos, filhos de tia Vivi eram recifenses e só apareciam eventualmente, mas, jamais destronaram minha irmã. No entanto, tudo era muito bem distribuído e equilibrado uma vez que, desde meus primeiros anos de vida contava com o privilégio de ser uma das netas preferidas da avó materna. Ainda na casa paterna eu era bastante querida da tia-madrinha, a quem, anos depois tive a oportunidade de homenageá-la emprestando seu nome para minha filha Maria Luiza. Sim, fui uma criança que recebeu o suficiente para ser feliz.

Certa vez, em uma de nossas férias, reuniram-se mais de 12 netos de minha avó. Nessas ocasiões as perseguições e caça aos vaga-lumes eram interrompidas, tendo em vista que os primos maiores costumavam reunirem-se no terreiro do engenho a fim de escutarem "histórias de assombração". Para isso havia o contador de histórias que todas as noites marcava presença para alegria de muitos. Daquela roda mantinha distância, preferia dormir bem ligeirinho. Já me bastava a filha de um morador me convencer que bem próximo dali vivia um caboclo encantado que costumava aparecer para aprontar muitas traquinagens com quem chegasse na floresta e só deixava a pessoa em paz se fumasse seu cachimbo. Afirmava com muita convicção apontando para a Chapada do Araripe, muito próximo dali, distante poucas braças do Engenho "Chico" Gomes.

Foi por aí que presenciei o primeiro guisado. Embora tivesse idade para participar somente como observadora da iniciativa da prima Sônia Pinheiro Rolim. Naquela época já uma mocinha. Mais adiante uma mulher inteligente, de fibra, dotada de capacidade para desempenhar seu grande papel de mulher empreendedora e mãe, pelos seus inúmeros e indiscutíveis méritos. Sônia uma prima querida! Sônia era animada, divertida, alegre, bem disposta, portanto, excelente companhia... Mais que depressa nos apropriamos de uma casa próxima que na oportunidade estava desocupada e o majestoso guisado, feito num fogão à lenha, saboreamos com muita alegria. Não tardou muito fui treinando ao ar livre com as panelas de barro que mandava comprar na feira do Crato.

Depois sucederam vários guisados com a turma do Pimenta. Os guisados no Sítio Sossêgo foram comandados por Claude, uma Bandeirante muito dedicada e ativa que ainda tem muito para nos contar. Porém, outros guisados foram providenciados e organizados por mim.
Certo dia fomos ao Lameiro, o local era logo após a subida da ladeira, no sítio da família Franca Alencar. Levamos conosco um jumento para o transporte dos utensílios e mantimentos e ao mesmo tempo, alternadamente, aliviar as "canelinhas" das crianças menores. Chegamos ao local, nos acomodamos como sempre fazíamos, debaixo de uma árvore nos arredores da casa dos pais da moça que trabalhava em nossa casa. Neste, além de conduzirmos o jumentinho por uma longa distância (pouco mais de um quilômetro), aconteceram fatos bastante engraçados, sendo um deles, após o almoço, a dificuldade na montaria e posterior queda de cima daquele pequeno animal de uma amiga que foi criada no RJ, sem que houvesse danos físicos. Quando o susto passou, foi divertido, rimos bastante por causa do vexame diante de seu pretenso conquistador que estava presente, pois o mesmo se achara no direito de se convidar por ser irmão de uma das amigas que estava presente.

Outros guisados aconteceram no sítio de propriedade do Sr. Antonio Mariano, vizinho do Matadouro, onde pudemos desfrutar de banhos no riacho. Não muito tempo depois, naquele mesmo sítio a mocidade do Crato e alguns jovens que passavam férias na cidade se reuniram para assistir os jogos do Brasil da Copa do Mundo de 1966. Assistimos aos jogos transmitidos pelo rádio. Inesquecíveis os gritos e pulos da torcida empolgada de: Gildo Mariano, Arilo Lula e Nilo Sérgio Monteiro, meus primos de Ouro Preto e muitos outros cratenses. Memorável aquele ano de 1966, inclusive por ter sido o ano do Io. Festival da Canção. Adeus Férias no Engenho! Adeus Infância Querida! Acorda menina! Não deixe escapar o que ainda existe dos Anos Dourados.

Por: Gloria Pinheiro.

3 comentários:

  1. Cara Glória:
    Uma crônica amena, telúrica e muito bem escrita sobre aquele ambiente do Crato dos bons tempos.
    Parabéns!

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  2. Parabens Gloria.

    Voce fala do Crato com o carinho e afeto dos que se ausentaram mais estão sempre presentes e não esquecem jamais. Voce fala de sua infancia e adolescencia com a alegria e felicidade decantada na historia vivida junto a familia e amigos. O seu relato traduz o quanto voce é feliz. Parabens.
    A. Morais

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  3. Gloria você se foi do Crato, mais o Crato nao se foi de você. Seu que seu coraçao está todo dia no nosso amado Crato. Sei também que você tem muitas histórias bonitas vividas no Crato. Vamos l´la sempre esteja presento no nosso Blog.
    Abraços minha prima querida
    Jair Rolim

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