20 novembro 2009

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão

A “CORDA”

O seu Misael era proprietário de uma pensão no Crato, sendo um dos principais hotéis, na primeira metade do século XX. Pessoas importantes hospedaram-se lá. O Luís conheceu o Luís Gonzaga (o sanfoneiro) nessa pensão, onde ele costumava ficar. Lembra-se até de ouvi-lo cantando, para poucos, uma música que raramente se ouvia:

Sou pão duro

Vivo bem
Não dou esmola
Não faço favor
Não ajudo a ninguém!

A principal particularidade do Sr. Misael era ser um mentiroso contumaz. Contou que, certa vez, armou sua rede para dormir. Quando se deitou, a rede caiu. Acendeu a lamparina para rearmá-la. Somente então, verificou que tinha armado a rede não com uma corda, mas com uma cobra!...

AVIÃO VOA

Wilson Roriz foi Deputado Federal e era natural de Jardim, cidade vizinha ao Crato. Era um deputado ativo. Não era daqueles que ganhavam calado, como diz a música do Billy Blanco. Foi um dos primeiros a lutar pela energia de Paulo Afonso para o Cariri. Mas, apesar de ser político, não era simpático. Estava sempre reclamando. Costumava, como ainda hoje é comum nos deputados, viajar. E viajava de avião. O destino: Rio de Janeiro, capital do país, à época. O aeroporto era o do Crato, que ficava em cima da Serra. Tinha uma pista de asfalto e uma acanhada estação de passageiros. O funcionário da Real, empresa que atendia à região antes da Varig, chamava-se Pedro Patrício. Era o faz tudo no aeroporto. Fazia o check in, despachava e recebia as bagagens, embarcava os passageiros. Era uma pessoa que não aceitava desaforos, tendo sempre uma resposta pronta. Um dia o Deputado Wilson Roriz chegou ao aeroporto para embarcar e, como de costume, chegou reclamando e bem alto para o Pedro:

- “E aí? O avião nada?”

- “Não, voa”.

O VÃO

O Deputado Wilson Roriz, quando no aeroporto, estava sempre reclamando. E o mau humor era geralmente direcionado para o Pedro Patrício, que nunca deixava o deputado sem a devida resposta. Em certa ocasião, tendo chegado do Rio de Janeiro, estava aguardando receber a bagagem. Começou a reclamar em voz alta, daquele espaço reduzido. Solicitava a construção de um novo bagageiro, utilizando um espaço ao lado. Dirigiu-se ao Pedro, que estava no meio das malas:

- “E este vão aqui?”

- “É o vão à puta que pariu”

MUNDOCA

O aeroporto do Crato foi construído em cima da Serra do Araripe. O local não era adequado, pois costumava ficar nublado, ou seja, sem teto para pousos e decolagens. Vez ou outra o avião passava direto para Fortaleza ou Petrolina. Por essa razão, acabou sendo desativado, passando a ser utilizado o Aeroporto Regional de Juazeiro do Norte. Na época do aeroporto do Crato, os aviões eram remanescentes da segunda guerra: DC-3 e C-47. Posteriormente foram substituídos pelo Avro que era um turbo-hélice. No Crato vivia uma figura muita querida de todos. Era o Mundoca. Seu meio de vida era vender rifas, que sempre tinha um sorteado. Por isso ninguém se negava a assinar as suas rifas. Outra característica dele era viver assobiando. Imitava tudo o que é tipo de passarinho. O assobio dele era alto e todos na cidade conheciam bem. Quando o Avro começou a pousar e decolar no Crato, percebeu-se que tinha um assobio muito intenso. Logo os gozadores de plantão disseram:

- “Espere, e o Mundoca agora virou avião?”
O Avro virou Mundoca...

ALUIR

Os aviões DC-3, da Real, que pousavam no ‘campo de aviação do Crato’, só o faziam à tarde. De manhã, na altitude de mil metros, sempre estava nublado, portanto sem teto para pouso ou decolagem. O piloto acompanhava o processo de reabastecimento da aeronave. Como o ‘campo’ não era cercado, os matutos que moravam por perto se aproximavam, curiosos para ver o avião. O piloto, brincalhão, perguntou a um dos matutos, bem acanhado:

- “O senhor tem medo de avião?”

- “O bicho estando no chão, ‘seu major’, não tenho medo, não! Só fico com as carnes tremendo, quando ele vai ‘aluir’”.

A DECOLAGEM

Neste mesmo avião o Luís embarcou para Fortaleza, com o Dr. Eduardo Solon. Era um farmacêutico, nascido em Sobral e que adorava o Crato. Dono de farmácia na cidade, torcedor fanático do Flamengo e muito amigo do meu pai. Era uma pessoa muito expansiva. Falava alto e estava sempre alegre. Lembro-me dele, com os seus inseparáveis óculos ‘ray ban’ Estando os passageiros todos acomodados, o avião começou a taxiar em direção à cabeceira da pista. Antes da decolagem o piloto sempre fazia um ‘check list’. Começou a testar os motores e aquecer os magnetos. O avião preso e os motores a toda velocidade provocavam uma vibração e um barulho infernal, no interior do avião. Nisso, o Eduardo Solon dirige-se ao comissário de bordo:
- “Meu camarada, este avião está se espremendo todo é ‘pra’ levantar vôo ou vai primeiro cagar?”

Eduardo Solon e seus óculos
Ray Ban

Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

4 comentários:

  1. Adorei esses artigos com histórias antigas do Crato, sou Barbalhense seria interessante algumas estórias dessas também da sociedade Barbalhense pois não iriam faltar. Parabéns pelo Blog

    Cordialmente,

    Milton Bezerra
    Fortaleza-Ce

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  2. Adorei esses artigos com histórias antigas do Crato, sou Barbalhense seria interessante algumas estórias dessas também da sociedade Barbalhense pois não iriam faltar. Parabéns pelo Blog

    Cordialmente,

    Milton Bezerra
    Fortaleza-Ce

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  3. Adorei esses artigos com histórias antigas do Crato, sou Barbalhense seria interessante algumas estórias dessas também da sociedade Barbalhense pois não iriam faltar. Parabéns pelo Blog

    Cordialmente,

    Milton Bezerra
    Fortaleza-Ce

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  4. Olá, Milton,

    Desculpa a demora na liberação dos seus comentários. Passei o dia fora e não estava aqui para liberá-los.

    Obrigado pelas palavras. Eu adoraria postar também as Histórias e Estórias de Barbalha e de Juazeiro, já que para mim, somos uma só cidade, uma só região. Tudo isso já foi Crato, na verdade! Então, é tudo nossa gente.

    Só que eu não tenho acesso a essas estórias de Barbalha, mas se você as tiver, por gentileza, envie para mim, que eu publico.

    Um grande abraço, e seja muito Bem-Vindo ao nosso Blog do Crato. Quaquer hora dessas eu irei fazer umas fotos da terra dos verdes canaviais...

    Dihelson Mendonça

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