19 outubro 2009

TRABALHO INFORMAL - Reciclagem garante empregos - Reportagem: Antonio Vicelmo


Clique para Ampliar

Coleta do lixo é pesada para ser entregue ao centro de reciclagem, de segunda à sábado (Foto: Antônio Vicelmo)

Famílias carentes de Santana do Cariri mudam de vida a partir do trabalho na reciclagem do lixo da cidade

Santana do Cariri. "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". A frase, do químico francês Antoine Lavoisier, está sendo aplicada na prática, na cidade de Santana do Cariri, pelo Instituto Karius de Defesa e Promoção da Vida, uma Organização Não-Governamental, que está transformando o lixo da cidade em fonte de renda para 15 famílias carentes do município, 11 mulheres e quatro homens, que trabalham de segunda a sábado, na coleta de lixo na cidade. Neste município, reciclagem do lixo se transforma em mais uma fonte de renda. A reciclagem começou com a mudança dos costumes. Até o clube social da cidade foi reciclado. A gerência do projeto "despacha" em cima de uma máquina de lavar roupa transformada em mesa. São coletadas cerca de nove toneladas por mês de materiais recicláveis sólidos, que são vendidos a empresas nas cidades do Crato e Juazeiro do Norte. Os valores são repassados integralmente aos agentes recicladores que ganham por produção. A renda varia entre R$ 300 a R$ 400 por mês. "É muita coisa para quem não tinha emprego" diz a integrante do projeto, Joana Domingos da Silva.

O mesmo entusiasmo é demonstrado por Maria Cardoso da Silva e Francisca Batista da Silva, conhecida por "Miuda" que, além da renda mensal, encontraram um novo sentido para a vida. Francisca, por exemplo, era uma pessoa tímida, que pouca falava. A convivência com as companheiras de trabalho transformou a recicladora em uma pessoa alegre.

Começo

A iniciativa surgiu da necessidade de oferecer uma fonte de renda a um grupo de pessoas da cidade e da zona rural que vivia exclusivamente da agricultura de subsistência. O trabalho permite a diminuição da quantidade de lixo produzido e o reaproveitamento de diversos materiais, ajudando a preservar alguns elementos da natureza no processo de reaproveitamento de materiais já transformados. O reflexo está nas ruas limpas de Santana do Cariri.

"Reconhecer a diferença dos materiais que normalmente são jogados indiscriminadamente no lixo, como plásticos, vidros e papéis, é imprescindível para a coleta racional e seletiva do lixo", ensina o idealizador do projeto, Paulo Sérgio Garcia de Souza, acrescentando que "o gesto cotidiano de descartar o lixo seletivamente e entregá-lo à reciclagem torna-se um fator importante na conservação do meio ambiente. Sob essa forma de percepção, todos são agentes modificadores no processo de degradação ou conservação da natureza", diz. Paralelamente, são realizadas campanhas educativas que contribuem para mobilizar a comunidade na sua participação efetiva e ativa na implantação da coleta seletiva de resíduos sólidos, separando os materiais recicláveis ou reutilizáveis diretamente na fonte de geração. Com esta filosofia de trabalho, o Instituto Karius vai participar, de 4 a 6 de novembro, do Seminário Internacional do Meio Ambiente e Sustentabilidade, que será realizado em São Paulo. A presidente da ONG, Silvana Alencar, adverte que a reciclagem em si não resolve o problema. É fundamental, segundo afirma, a participação da comunidade na mudança de hábitos e costumes e atitudes.

"Hoje a comunidade está engajada no programa, que conta com o apoio da Prefeitura no transporte do lixo para a sede da organização", complementa.

Silvana acredita que, com o apoio de uma campanha de Educação Ambiental, é possível desenvolver uma filosofia de vida ética e moral, de maior harmonia e respeito com a natureza, propiciando conhecimentos e o exercício da cidadania para uma atuação crítica e consciente dos indivíduos. Silvana lembra, ainda, que o sentido ecológico de tal atividade, a readequação dos materiais selecionados, devido a sua natureza diversa, impedirá a contaminação do solo, dos lençóis freáticos e nascentes de rios, pois alguns desses materiais levam anos ou mesmo décadas para serem consumidos pela natureza, oferecendo assim uma alternativa aos "lixões". Nesse contexto, de acordo com Silvana, os "catadores do lixo" despontam como atores indispensáveis, afinal eles são os responsáveis pela separação e triagem do material que sai do lixo e que é vendido às indústrias de reciclagem. A partir daí, transforma-se em matéria-prima para novos produtos, poupando os recursos naturais.

Mais informações
Instituto Karius de Defesa e Promoção da Vida
Rua Toininho Ribeiro, S/N
(88) 9650.1137 / 9900.5678

PROJETO

ONG promove inclusão social

Santana do Cariri O desemprego é um dos problemas mais sérios do Cariri, assolando de forma trágica principalmente aqueles que possuem baixa escolaridade, pouca ou nenhuma qualificação técnica: mulheres, negros, idosos e deficientes físicos, uma vez que são os mais afetados neste processo de restrição de oportunidades.

A resposta encontrada por esses atores, por não terem condições de competir por vagas no mercado formal, é o subemprego, a ocupação precária do espaço urbano e o ´inchaço´ da economia informal. Coletar lixo é uma alternativa encontrada por alguns desses excluídos. Como não atingem a qualificação exigida pelo mercado, veem nessa função uma estratégia de sobrevivência. Ainda sendo uma forma de trabalho vista como degradante pela sociedade, os "catadores de materiais recicláveis" fizeram do lixo uma forma de obter a renda para o próprio sustento.

Foi com esta preocupação que o Instituto Karius partiu para a reciclagem do lixo. Aquilo que geralmente é jogado fora, num processo de poluição que danifica a natureza, pode ser reaproveitado e transformado em fonte de renda. A começar pela própria sede da organização que funciona no prédio de um clube social desativado, localizado na rua Antônio Ribeiro, conhecida como "Rua do Pau Quente". A estrutura do velho clube, abandonado pela sociedade, foi transformada em depósito e escritório dos recicladores.

O acompanhamento da produção é feito numa máquina de lavar, encontrada no lixo, que serve de mesa. Ali, a gerente do projeto, Joana Domingos, "despacha" com a presidente do Instituto Karius, Silvana Alencar, fazendo a prestação de contas do trabalho realizado durante a toda a semana.

Capoeira

No salão de danças do clube, funciona uma escola de capoeira para os filhos dos integrantes do projeto. É o Educapoeira, uma das alternativas onde os alunos aprendem técnicas e história da Capoeira e recebem orientações para convivência em sociedade, respeitando limites e valores coletivos, entre os quais, o respeito ao patrimônio público e os hábitos mais rotineiros, como não jogar lixo nas ruas. Ali, os alunos são orientados para o bom desempenho escolar, exigindo boas notas e comportamento satisfatório.

O projeto conta, hoje, com um total de 120 alunos. "Sempre que possível, acontecem demonstrações públicas e isso é importante já que se tornam um atrativo cultural para que as pessoas possam apreciar e compreender melhor esse esporte de raiz", ressalta o instrutor Cícero da Silva.

Terceira idade

Outra função social do projeto é a integração dos idosos. São encontros que acontecem aos sábados entre aqueles que fazem parte ou se identificam com essa fase da vida. Energias são liberadas pelo forró, valsa e outros ritmos que são animados por um sanfoneiro.

"Unimos todos os esforços para fortalecer a autoestima dessas pessoas que tanto já contribuíram e que, às vezes, por falta de oportunidades, são esquecidas", justifica a conselheira do projeto, Cacilda Pereira Sales.

Cinema

Com estes mesmo objetivos, é promovido o "Cinema na Praça" que acontece todas as quintas-feiras. A garotada se reúne no Calçadão Municipal para assistir a filmes educativos. Nesse período, ao invés de estarem nas ruas, estão aprendendo alguma mensagem útil pra suas vidas pela Sétima Arte.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter do Jornal Diário do Nordeste
Colaborador do Blog do Crato e Jornal Chapada do Araripe

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.