15 outubro 2009

O poder e o segredo – Por: José Nilton Mariano Saraiva

“A definição da democracia como poder em público não exclui naturalmente que ela possa e deva ser caracterizada também de outras maneiras. Mas essa definição capta muito bem um aspecto pelo qual a democracia representa uma antítese de todas as formas autocráticas de poder. O poder tem uma irresistível tendência a esconder-se. Quem exerce o poder sente-se mais seguro de obter os efeitos desejados quanto mais se torna invisível àqueles aos quais pretende dominar. A principal razão pela qual o poder tem necessidade de subtrair-se do olhar do público está no desprezo ao povo, considerado incapaz de entender os supremos interesses do Estado (que seriam, no julgamento dos poderosos, os seus próprios interesses) e presa fácil dos demagogos.
Segundo Elias Canetti, no admirável livro Massa e Poder, “...o segredo está no núcleo mais interno do poder. O poderoso, que se serve do próprio segredo, conhece-o com exatidão e sabe muito bem apreciar a sua importância nas várias circunstâncias. Ele sabe qual o seu objetivo se quer obter algo, e sabe também qual de seus colaboradores empregar na cilada. Ele tem muitos segredos porque deseja muito, e combina-os em um sistema dentro do qual se preservam reciprocamente: um segredo confia a este, outro àquele, e faz de tal modo que os indivíduos depositários dos segredos não possam unir-se entre si. Qualquer um que saiba de alguma coisa passa a ser controlado por um outro que contudo ignora qual seja na verdade o segredo do espionado. Daí a conseqüência de que apenas o poderoso tem a chave do todo complexo de segredos, e sente-se em perigo quando dele deve tornar inteiramente partícipe um outro.
O temor a Deus serviu durante séculos para justificar o temor ao soberano. A transgressão do segredo divino e do segredo natural não podia deixar de ter como conseqüência a transgressão do segredo político. Grande parte da história do pensamento político pode ser interpretada como uma contínua tentativa de parte dos súditos de arrancar os véus, ou as viseiras, ou as máscaras atrás das quais se escondem os detentores do poder, de ampliar a área do poder visível em relação à área do poder invisível”.

Fonte: Teoria Geral da Política, de Norberto Bobbio, página 399.
Postagem: José Nilton Mariano Saraiva

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