02 outubro 2009

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Roberto de Araújo Mourão

INGLÊS FLUENTE

Uma Universidade americana resolveu desenvolver um projeto de auto-suficiência em uma região de um país sub-desenvolvido, no intuito de aproveitar a potencialidade local e investir no seu desenvolvimento. O Presidente da OEA de então, que era brasileiro e cearense, ao tomar conhecimento do interesse da Universidade, indicou a região do Cariri, no Ceará, para a implantação dessa idéia. Assim, foi firmado um convênio entre a Universidade americana e a Universidade Federal do Ceará, para implantação do Projeto Asimov.

Vieram vários técnicos americanos, todos jovens falando ainda um português bem atravessado. Só com muita boa vontade era possível entendê-los. Anos depois, no começo da década de oitenta, realizei um trabalho num projeto com o Banco Mundial. Um dos técnicos me chamou a atenção, pois falava bem o português, mas com um forte sotaque caririense. Conversando com ele, soube que fizera parte desse projeto, tendo morado no Crato. Perdera o sotaque americano, mas o do Crato... Muitas indústrias foram implantadas, tendo à frente pessoas da região.
Posteriormente foi oferecida, a alguns dos participantes do projeto, a oportunidade de conhecer os Estados Unidos. Dentre eles foi o José Justino, habitual freqüentador da Praça Siqueira Campos.

Uma viagem dessas, na década de sessenta, era um acontecimento! Um mundo totalmente novo! O José Justino, que é moreno, resolveu assistir um filme. Ao entrar no cinema, pensando que estava no Cassino, foi barrado por não ser branco. Encarou, porém, esse fato com naturalidade, já que não estava em seu país. Procurou um cinema só para pretos. Quando ia entrando, foi novamente barrado: não era preto! O José Justino, perplexo, perguntou:

- “Que diabo eu sou, então? Não sou gente, não?”

Esta viagem rendeu muitos outros acontecimentos pitorescos. O José Justino contou ao Luís o seguinte fato: um dos viajantes resolveu comprar um relógio, para levar de lembrança. Não falava uma palavra de inglês, mas isso não era problema, pois tinha certeza de que falava inglês fluentemente. Com a maior naturalidade, dirigiu-se à vendedora e, apontando para um relógio, falou, enrolando a língua:

- “Quanta custar esta relógia?”
A moça totalmente atarantada, sem entender nada. E ele novamente falou:
- “Mim falar bem devagar. Mim querer esta relógia. Mim querer esta relógia. Quanto custar preço desta relógia?”.

O José Justino, vendo aquela presepada, chegou e disse:
- “O que o senhor está falando não é inglês não. A moça não está entendendo nada!”
E ele, indignado com aquele comentário:
- “Como não!!! Não é esse o inglês que os gringos falam pra gente lá no Crato e a gente entende tudo!...”

PATATIVA

O famoso e saudoso Patativa do Assaré era um grande amigo do Luís. O início dessa amizade foi quando um amigo do Luís, Omar, conhecido por Babá, que morava em Petrolina, solicitou a sua interferência para conseguir que o Patativa fosse participar de um festival de poesias em Juazeiro da Bahia. O Luís conversou com o Sr. Elói Teles, grande amigo do Patativa. Com a sua mediação, o poeta foi para o festival, no qual fez um grande sucesso, principalmente quando improvisou uma poesia conclamando as duas cidades rivais (Petrolina e Juazeiro), a se unirem em um casamento, pois entre elas já existia um “leito”: o leito do Rio São Francisco...

O Sr. Eloi combinou com a sobrinha do Patativa para levá-lo ao Crato, visando acertar os detalhes para a ida ao festival. Recomendou para não confundir com o Luiz Gonzaga, o sanfoneiro. Inicialmente foi à casa do Luís. Como ele não estava, foi orientado a procurá-lo na Praça Siqueira Campos, numa roda de amigos. E assim o fez. Naquele seu caminhar difícil, com uma bengala, se dirigiu ao grupo de pessoas na Praça e achou de pegar justamente no braço do Luís. Com aquela voz grossa e meio trêmula, perguntou:

- “Você, por acaso, viu o Luís Gonzaga Bezerra Martins por aqui?”

Participava do grupo o Sr. Ernani Silva, pessoa bastante espirituosa que, antes do Luís falar e diante daquele campeão do improviso, foi logo dizendo:
- “Pois solte o braço dele que ele é casado!”


Acima: Elói Teles, um dos primeiros a divulgar o Patativa.


É MUITO FEIO

O Luís ficou encarregado de levar o Patativa à rodoviária do Crato, a fim de embarcá-lo para Petrolina. Enquanto aguardava a saída do ônibus, Patativa foi ao banheiro, urinar. Na Rodoviária cobravam-se cinqüenta centavos para auxiliar na manutenção do banheiro. Quando ele voltou, estava indignado com aquela cobrança. Dirigiu-se para o ‘cobrador’, em verso improvisado:
“Meu Deus que sorte precária,
A Vida está mesmo rija
Aqui na Rodoviária
Quem não tem ficha, não mija.

Vou voltar daqui dizendo
Que achei bastante feio
Ver um sujeito vivendo
À custa do mijo alheio.

POESIAS INÉDITAS DO PATATIVA

O meu tio Hermógenes Martins tinha uma incrível facilidade para fazer amizades. E uma delas era com o famoso poeta repentista Patativa do Assaré. Certo dia, visitando o meu tio era o aniversário de sua filha Ruth. Ganhou de presente estes versos do poeta

Mote

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Glosa
De pobre vocabulário
Ruth um poeta tu tens
Que te entrega parabéns
Pelo teu aniversário

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Não te direi o contrário
Estou alegre e contente
Desejo extremosamente
Nesta hora doce e grata

Que se reproduza esta data
Para alegria da gente

Crato, 28 de julho de 1955 (16,30 horas)

José Gonçalves da Silva (PATATIVA)

Em outra ocasião, mais precisamente no dia 14/08/1970, fez os seguintes versos para as filhas da Ruth:
Sandra e Cinara
Poeta Patativa (improviso)

Esta menina pequena
Nos fascina nos encanta
Parece mesmo uma santa
Esta garota morena

Além disso não malandra
É muito trabalhadora
Será nossa professora
Esta pequenina Sandra

E a sua irmã Cinara
Que possui beleza além
Se a sua beleza é rara
O nome é raro também

A BAGACEIRA

Chegou ao Crato um promotor novo e que logo se entrosou com os componentes da Câmara dos Comuns. Era jovem, bastante culto e de uma conversa muito agradável. Costumava freqüentar a Sorveteria Glória para tomar café. Um dia notou, na prateleira, algumas garrafas de uma cachaça gaúcha, chamada Bagaceira. Era uma cachaça que estava encalhada e que ninguém queria. O promotor fez o seguinte comentário:
- “Luís você tem Bagaceira! Isso é uma raridade!”.
E levou uma garrafa. Dias depois um amigo do Luís veio trazer a novidade:
- “Luís, aquela Bagaceira que você vendeu para o promotor fez a maior bagaceira!”
- “Mas como, e por que?”.
- “O promotor é alcoólatra e desde que chegou ao Crato estava se segurando. Com a Bagaceira ele teve uma recaída e bebeu a garrafa inteirinha. Foi para o meio da rua fazer discurso, totalmente nu!!”

Tiveram que transferi-lo para longe das Bagaceiras do Luís!

CHICO PONTINHA

Numa das conversas na Câmara dos Comuns, na Praça Siqueira Campos, alguém insinuou uma maledicência do “pontinha” do Chico Pontinha. O Luís logo esclareceu:

- “Não é nada disso, não. Ele foi meu contemporâneo no internato do Colégio Cearense. As mesas do refeitório eram para seis alunos. Os irmãos chamavam de “esquadra”. A alimentação era muito farta. Cada um recebia um pão enorme, cheio de manteiga. Todos tinham um bule de leite. Sempre tinha alguém passando para oferecer mais leite. Era muito diferente do Seminário do Crato, de uma pobreza franciscana. Um dia faltou um aluno da esquadra e todos avançaram para ficar com o pão que sobrara. Nisso, o Chico gritou: ‘Deixem pelo menos uma pontinha pra mim’. Pronto! A partir daí passou a ser o Chico Pontinha”.


PULIÇA

Puliça era um bêbado comum. É o que se pode chamar de bêbado crônico. Magro, feio e sujo. Gostava de sentar-se na Praça Siqueira Campos sempre só e, claro, bêbado. Vivia resmungando algo que ninguém entendia. Não queria a companhia de pessoa alguma. Caso alguém sentasse ao seu lado, imediatamente mudava-se para outro banco. Também ninguém gostava de chegar perto dele, pela mania que tinha de não tomar banho. Certa manhã, num feriado, chegou ao Crato, proveniente de Cajazeiras/PB, uma excursão de jovens estudantes. Logo que uma delas desceu do ônibus e pisou na Praça, foi logo avistando um grupo de rapazes e exclamou para as outras colegas:

- “Gente, aqui tem muito rapaz bonito!”.
O Puliça, que estava sentado num dos bancos, imediatamente melhorou um pouco a postura (que era sempre encurvada), e exclamou bem alto:
- “E é porque ainda não tomei banho hoje!”

Fonte: Livro: "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de publicação no Blog do Crato concedidos gentilmente pelo autor. Todos os direitos reservados.

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