11 outubro 2009

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Roberto de Araújo Mourão


NE - E agora, uma das seções mais esperadas e festejadas do Blog do Crato, o quadro: "Só no Crato" de Ivens Mourão, que tem recebido inúmeros elogios, e já tem até cadeira cativa para ler as histórias. Hoje teremos duas sessões. às 20:00 teremos a segunda.

MAMA MIA


Sr. George Lucetti foi um grego que muito fez pelo Crato. Foi comerciante, industrial e grande construtor. Os mosaicos da sua fábrica eram coloridos com tinta importada da Inglaterra. A Praça Siqueira Campos utilizou mosaicos doados por ele. Homem inteligente, poliglota, pessoa de conversa extremamente agradável. Grande admirador de música clássica.

Sr. George Lucetti numa foto com um grupo de rotarianos, no Crato Tênis Clube.

O Sr. George gostava muito de ficar horas conversando com o Luís, na Imobiliária Santa Marta, quando não estava lendo o jornal. Faleceu com mais de noventa anos em total lucidez. Lembro-me muito dele, pois fomos vizinhos. Nasci na casa vizinha à sua, que era a mais bonita da Praça Francisco Sá.
Um dia o Luís perguntou:

- “Sr. George por que o senhor veio morar no Brasil?”.
- “Luís como você sabe. Eu sou natural da ilha de Creta, filho de mãe italiana, daí o nome Lucetti. Minha mãe tinha o nome que eu dei para milha filha: Areti. Um dia foram nos visitar umas primas italianas. Elas falavam e eu não entendia nada. Mas quando elas disseram ‘mama mia!’, fiquei apaixonado por aquela língua. Disse para mim mesmo: eu vou morar num país da América que fale uma língua parecida com esta. Inicialmente vim morar em Buenos Aires, na Argentina e depois vim para o Brasil, sempre encantado com esse idioma. Por isso estou aqui. O ‘mama mia!’ que ouvi daquelas primas italianas me fez cruzar meio mundo e estou hoje, aqui com vocês!”

A PATIÑO

Da Argentina o Sr. George Lucetti veio para o Brasil, atraído pela possibilidade de fazer fortuna na construção da estrada Madeira-Mamoré. Chegando lá, a situação era bem diferente daquela que imaginara. As condições insalubres foram responsáveis pelo enorme número de mortos. Dizem até que, para cada dormente colocado morreu um trabalhador. Segundo ele foi lá que dormiu pela primeira vez em rede. Estava mesmo predestinado a vir para o Ceará. O Sr. George era um homem elegante, alto, preservando ainda a beleza da juventude. O acampamento onde morava era próximo de uma cidade boliviana, onde vivia uma família chamada Patiño, muito rica e dona de minas de estanho. Por sinal, Simon Patiño, na década de 20, chegou a ser o terceiro homem mais rico do mundo. Uma das suas filhas apaixonou-se pelo Sr. George, mas não se declarou abertamente. O Sr. George também manteve certa reserva, pois a época não permitia maiores intimidades. No entanto, esse ‘amor platônico’ já lhe propiciava certas regalias e, por conseqüência, para os seus amigos mais chegados. Um dia, quando estava dormindo no acampamento, na sua rede, foi despertado pelo cutucar de uma bengala de um colega, que dizia:
- “Ô George, George casa com a Patiño...”.

Simon Patiño, ex-futuro sogro do Sr. George Lucetti

O SILÊNCIO

Conheci o Sr. Artur Pirão trabalhando com o Sr. George Lucetti. Parecia um personagem saído de um livro de Machado de Assis. Andava sempre de colete, camisa branca, de mangas compridas, relógio de algibeira e óculos. O terno era preto. Não era baixo. Magro e bem empertigado para a idade, próxima, acredito, dos 90 anos. Parecia uma pessoa do século XIX. A manga da camisa era maior que o braço, pois sempre tinha uma dobra, na altura do antebraço, presa com uma espécie de liga. Gostava de cheirar um rapé, que guardava numa latinha (aliás, de nome muito estranho: boceta). Fumava também cigarro de palha, cujo fumo ele mesmo preparava, pisando num couro. Deve ser essa a origem do ditado: “apanha mais que couro de pisar fumo!”. Quando estava trabalhando no escritório tinha sempre à testa um protetor de luz, preso à cabeça por um elástico. Acredito que o Sr. George, homem de bom coração, mantinha-o no trabalho como uma forma de ajudá-lo na sua velhice. Encerrado o expediente, o Sr. Artur ia sempre aperuar um jogo de gamão, no ponto de Sr. Zeba, próximo ao comércio de rapadura. Ele ia, assistia, entendia do jogo, mas não fazia nenhum comentário. Chegava calado e saia sem dizer uma palavra.

O principal jogador de gamão era o Zé Leitim. Ao contrário do Sr. Artur, falador, contador de piada. Estava sempre procurando fazer o Sr. Artur falar. Durante um jogo, para que os dados dessem um determinado número, ele cantava a pedra. Por exemplo, ele queria um terno e dizia, antes de jogar os dados: “Terno do peito amante”. Quando saia o terno, se dirigia para o Sr. Artur:

- “Tá vendo Artur. A gente tem que adular os dados!”

O Sr. Artur calado estava, calado ficava.
Um dia, após o Sr. Arthur se retirar, o Zé Leitim impaciente com aquele mutismo, falou:
- “Pessoal, vamos pregar uma peça no Sr. Artur. Vamos fazer ele falar”.
Eram uns seis ou sete, entre jogadores e “perus”. Dentre estes tinha um que ficou com um apelido de Gagarín (acento tônico na última sílaba). Tudo por ter feito o seguinte comentário, durante um jogo, seguido de uma gargalhada geral:
- “Tem um russo “avoando” arriba de nós. Um tal de Gagarín”
No dia seguinte, como de costume, o Sr. Artur chegou. De acordo com o combinado alguém falou para o Zé Leitim:
- “É verdade que você, quando menino, andou fazendo umas besteiras?”
- “Eu sei o que é que você está querendo dizer. É verdade. Eu não nego não. Mas, você sabe, eu era menino. E menino é bicho sem vergonha. Faz coisas que não sabe nem o que é. Mas também foi só uma vez. Nunca mais!”

E o Sr. Artur calado, apenas arregalou os olhos. Em seguida, o outro jogador:

- “Pois comigo, quando menino, foi mais de uma vez. Já estava até me viciando. Aí a minha mãe descobriu, me deu uma surra. Sabe aquelas surras que se dá em galinha para largar o choco? Se não fosse essa surra, eu acho que ainda hoje eu estava com esse “vício”.

O Sr. Artur calado. Apenas olhava para um e depois para o outro. Seguiram-se as outras “confissões”, inclusive do Gagarín. O Sr. Artur ainda calado. Apenas olhando fixamente para cada um. Fazia parte dessa roda de “perus” o então Deputado Federal, Ossian Alencar Araripe. Como os outros, também fez a sua “confissão”. O Sr. Arthur, espantado, o olhou de cima a baixo. Ficou, então, aquele silêncio. Todos esperando um “depoimento” do Sr. Artur. Finalmente, o silêncio foi rompido:
- “Querem saber duma coisa? Eu vou é embora, porque aqui só tem veado.”

PORRADA...

José Batista foi uma das figuras mais características do Crato dos anos cinqüenta. Vestia a camisa para quem trabalhava. Tinha sempre funções operacionais, mas falava como se fosse dono da empresa. Servira nos fuzileiros navais, no Rio de Janeiro. Após ter dado baixa, voltou para o Crato. Chegou falando chiado e cheio de gírias. Um ‘carioquês’, que os gozadores de plantão da cidade não poderiam deixar passar em brancas nuvens! E a oportunidade logo surgiu. Como gostava de jogar futebol, não perdia oportunidade de participar de ‘peladas’. Por ser bem alto e forte, tinha preferência por jogar na defesa. E, para intimidar os atacantes adversários, bradava com entonação carioca:

- “Não vem que ‘dou-te’ um pôôôrrrraaaada...”

Não teve outra! Foi rebatizado de Zé Porrada...
E o nome ficou. Para alguns ele admitia, para outros não. Quando ligava para o Luís, em Fortaleza, se identificava como José Batista. O Luís se fazia de desentendido, até que ele assumia:

- É o Zé Porrada!

- E como vão os porradinhas? (eram os filhos).

Fonte: Ivens Mourão - Do seu livro "Só no Crato" - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

Um comentário:

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