11 outubro 2009

CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA SEGUNDO ZÉ LIMEIRA

Certa vez lá em Natal
Limeira tava rimando
Todo tempo misturando
Mossoró com Portugal.
Falava de carnaval
Numa casa de farinha,
Até que Zé de Ritinha
Perguntou: - Tu é perito?
Pois rime o que estava escrito
Na missiva de Caminha.

Eu rimo porque sei rimar
Carta, recado, cartilha,
Tratado de Tordesilha.
E Cabral em alto mar.
Rimo o rei a reclamar
Das despesas da rainha
Gastando tudo que tinha
De Portugal pro Egito.
Agora rimo o escrito
Da missiva de caminha.

Senhor rei de Portugal
Aos vinte e nove de abril
De um tronco de pau Brasil
Escrevo a carta real.
A viagem foi normal
Com as graças de Jesus
Que nos mostrou uma luz
Para uma ação pioneira,
Onde ergui sua bandeira
Na terra de Vera Cruz.

A terra aqui é tão boa
Que até já me acostumei
Confesso para o meu rei
Que já esqueci Lisboa.
A nativa sobe à toa
Na árvore pra chupar manga
Vestida só com uma tanga
Com o peito descoberto
A gente olhe bem de perto
E a danada nem se zanga.





Não vou mais volta aí
Pra não ter que trabalhar
Pois levo o tempo em pescar
E comer índia tupy
Vou mesmo é aqui
Porque não sou abestado
Me esqueça no seu reinado
Que aqui tudo é maravilha.
Já comi até a filha
Do chefe Touro deitado.

Tou fazendo um relatório
De tudo que acontece
Dos índios fazendo prece
Na frente do oratório.
Já montei meu escritório
Na taba do feiticeiro
Mas mande pena e tinteiro
E também papel pautado.
Que estou comprando fiado
A um cigano estradeiro.

Os índios querem adotar
O costume português,
O vicio da embriaguês
E a mania de trocar.
Não tenho como evitar
Essa permuta ilegal
Porque o próprio Cabral
Vive trocando arruela.
E até a índia mais bela
Já foi trocada por sal.

Quero também avisar
Pra meu rei tomar ciência
Que precisa providência
Urgente neste lugar.
Os europeus vão chegar
Mudando a religião.
Vai chegar também ladrão
Para furtar à vontade,
Daí nasce à impunidade
Para a futura nação.







Chegou aqui um Francês
Que é metido à bichinha
Ele esculhamba a rainha
E tudo que é português
Aconteceu certa vez.
Aqui no Monte Pascoal
Que ele assediou Cabral
Oferecendo o caneco.
Cabral quase teve um treco
Lá dentro do matagal.

Aqui já apareceu
O tal do esquentamento
Precisa medicamento
Que muita gente morreu.
Escute esse servo seu
Pra coisa não desandar,
A corte tem que mandar
Um médico para esse povo.
Eu mesmo já tou com um ovo
Em tempo de cozinhar.

Aqui já tem confusão
De índio com português
Já é a terceira vez
Que eu faço intervenção.
O nativo faz questão
De uma vida reservada,
Sem calçar nem vestir nada
E meu rei tem que entender
Que faz gosto a gente ver
Uma nativa pelada.

Prepare um navio cargueiro
Pra trazer equipamento,
Mande birô e acento
Pra seu fiel cavalheiro.
Passo aqui um mês inteiro
Vivendo nesse sufoco
Recebendo muito pouco
Nesta minha subvida.
Já tou com a bunda doída
De viver sentado em toco.







O meu rei deve lembrar
Que a terra foi Deus que deu,
Depois vem o europeu
Querendo se apossar.
Os índios não vão gostar
Dessa perversa invasão
E vão entrar em questão
Mas não vão levar vantagem,
Porque somente a coragem
Não pode vencer canhão.

Não é bom meu rei mandar
Jogadores nem detentos
Pois esses maus elementos
Só servem para furtar.
É bom a corte cortar
O mau cheiro pela essência,
Pra não gerar descendência,
Dessa raça malfazeja.
Evitando que um esteja
Um dia na presidência.

Sei que vossa majestade
É o nosso rei soberano
Mas desenvolvi um plano
Pra essa comunidade.
Mostre a vossa autoridade
Agindo com inteligência,
Munido de coerência
E coragem pra reinar,
Na hora de decretar
O ato da independência.

Se um dia meu rei vier
É melhor que venha só
Aqui se arranja xodó
Porque não falta mulher.
Índia não sabe o que quer
Nem manda botar baralho.
E pra findar meu trabalho
Assino na ultima linha.
Seu Pero Vaz de Caminha
Sarney Magalhães Barbalho.

Mundim do vale
V. Alegre - CE

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