22 setembro 2009

Só no Crato Mesmo ! - A RÁDIA - Por: José Flávio Vieira


A RÁDIA

Nossa cidade manteve-se adormecida , com seus momentos felizes e problemas mais domésticos até 1854. Naquele ano, João Brígido, o Gutemberg caririense, fundou “O Araripe” nosso primeiro jornal. Um hebdomadário que saiu regularmente até 1962. Depois dele, mais de cento e setenta periódicos sentaram praça aqui no Crato. Depois do nosso primeiro jornal, a cidade nunca mais foi a mesma , abriu-se para o mundo e as mentes e corações caririenses começaram a perceber que o universo ia bem além do seu pomar. O teatro por aqui floresceu no último quartel do século XIX e firmou-se de forma categórica a partir de 1902 com Soriano de Albuquerque. Junto com ele vieram histórias fantásticas advindas de outros países, trazendo consigo outras verdades, outros mistérios e outros costumes. A partir de 1911, a nossa cidade fervilhou com o encanto cinematográfico projetado na tela da nossa primeira casa de espetáculos : “O Cinema Paraíso”. A vida , então, começou a imitar a arte: os sentimentos e os arroubos passaram a ter características visivelmente cinematográficas. As madames vestiam-se como May West, os marmanjos imitavam os trejeitos de Rodolfo Valentino. As vidas , as ações e aspirações começaram a buscar roteiros mais bonitos e mais épicos.

Os desejos , os sonhos já não cabiam nos simples scripts até então traçados na pacata Vila de Frei Carlos. A TV chegou avassaladora no final dos anos sessenta, montando um cinema em cada sala, e aí a nossa cidadezinha já pertencia ao mundo. As notícias locais passaram a perder seu impacto, as pessoas recolheram-se em seus lares e a queda de um avião na Bósnia passou a ser muito mais importante do que a morte do vizinho do lado. Hoje vivemos tempos de comunidade global , com a Internet, e todos os nossos sentimentos e relacionamentos passaram a ser também virtuais. Sobrevivemos todos num planeta chamado Solidão.com.

Precedeu a todas estas últimas hecatombes, a chegada do Rádio ainda nos anos cinqüenta. Ele se tornou o primeiro aparelhinho eletrodoméstico com capacidade de conectar as pequeninas e interioranas cidades ao mundo. O rádio foi o ovo da internet. Ele, no entanto, trouxe consigo a possibilidade de criar estações locais, veiculando e amplificando as notícias domésticas e criando, também, os nossos primeiros artistas de mídia. Muitos aqui ganharam espaço e visibilidade e terminaram por migrar para centros maiores : João Ramos, Edilmar Norões, Cândido Colares, Wilson Machado, Aderson Maia, Sampson de Melo e tantos outros. Em lá chegando criaram uma escola , deram um brilho enorme à radiofonia cearense, brilho que se estende até os dias atuais . O rádio fez-se tão popular que o matuto , para diferenciar melhor, mudou-lhe o gênero : “O rádio” para referir-se ao aparelho transmissor e “a rádia” quando se fala da estação transmissora. Dizem os mais versados no assunto que o caboclo entende das coisas : um bicho que fala tanto e sem parar só pode ser mesmo do sexo feminino !

O rádio criou uma linguagem própria, com bordões e frases típicas , num vai e vem contínuo com o público. Os locutores passaram a ser identificados pela voz característica , mas também pelo dialeto pessoal com que se dirigiam ao seu público. Em Crato, existe uma destas expressões que se perpetuam no tempo, advindas da doce hegemonia do rádio e que é motivo desta croniqueta de sábado. Quando se critica publicamente alguém por uma razão que aparentemente devia ficar em off , costuma-se citar uma expressão eminentemente cratense :

-- “Home, bote logo na rádia !”

O nascedouro dos ditos populares mostra-se sempre obscuro. Trabalho para os filólogos da língua e as versões muitas vezes se multiplicam obscurecendo a etiologia. Dias atrás, um amigo me pôs a par da origem deste dito tão nosso. A história parece verossímil, resolvi pôr no papel, para que o éter fugaz da oralidade não evapore junto com esta versão. Vendo-a pelo exato preço que a comprei. Aí vai!

No início dos anos sessenta, Irene, uma mocinha da Serra da Minguiriba , veio trabalhar ,como doméstica, em Crato. Acostumada à calmaria do mato, sua hiperatividade de adolescente logo a fez se enamorar da cidade grande. Festas, quermesses, sambas de pé-de-serra, banhos na cascata e a velha imbiriba começaram a preencher suas horas de folga. Embriagou-se das belezas do Crato e começou a trocar de namorado como quem troca de calcinha. A patroa começou a se preocupar com os caminhos traçados pela empregada . Temendo um bucho desavisado , antevendo uma futura estada no Gesso, resolveu avisar ao pai sobre a liberalidade da moça. Ao saber dos rumos tomados pela filha, o velho pai emburrou, disse que tinha cortado um dedo, mas mesmo assim mandou as duas filhas mais velhas virem conversar com a menina, trazendo uns conselhos. As irmãs , de posse da dura missão, desceram a serra e vieram bater no Crato, aproveitando a feira da segunda.

Chegaram na casa e entabularam conversa. Perceberam, no entanto, que a coisa não seria fácil. Irene estava cheia de si, não tinha mais nada a perder e engrossou o pescoço. Disse poucas e boas : trabalhava para seu sustento e não devia explicações a seu ninguém. As manas , por sua vez, começaram a aumentar o tom da voz e terminaram por sair rua abaixo na maior discussão, num arranca-rabo sem tamanho. Na altura da Siqueira Campos , juntou gente. Irene acabou com o papo, cruzou a praça e gritou já do outro lado da rua, para as irmãs, a toda altura :

--- Agora pronto ! Diga a pai que o pr******* é meu e eu dou a quem quiser !
Nisso, um dos anônimos circunstantes, sentado num dos bancos, vendo o “particular” das irmãs da Minguiriba, cunhou a expressão para toda o posteridade:
--- Pois muié, bote logo na Rádia, bote !

J. Flávio Vieira

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