08 setembro 2009

O Mito da Criatividade- Por: Claúdio Weber Abramo

Para se formar alguma opinião sobre a “criatividade” de alguém é preciso especificar o que se entende pelo termo.O conceito parece englobar a capacidade de produzir algo fora do padrão usual: resolver um problema de uma forma mais econômica (ou elegante, o que é uma forma de economia) do que anteriormente, encontrar a solução para um problema que não se conseguia resolver, inventar um novo problema, contestar uma explicação ou descrição predominante para alguma classe de fenômenos ou situações e fornecer uma explicação ou descrição alternativa e ao mesmo tempo mais abrangente e mais detalhada.Essas características da criatividade aplicam-se às ciências, à tecnologia e ao mundo prático.Há também a criatividade nas artes, que podem incluir algo da lista que se acaba de esboçar mas decerto a extrapola.Fornecer uma caracterização da criatividade nas artes é algo notoriamente espinhoso, a começar da dificuldade de se delimitar o que seja arte.Tomem-se, por exemplo, as artes plásticas. Há um mundo de diferença entre um quadro de Modigliani, digamos, e uma pintura de incêndio na floresta, dessas que se vendem na rua. Mas qual é a diferença? A capacidade de distinguir entre uma coisa e outra precisa ser aprendida. Para desenvolver a apreciação da pintura não é necessário estudar história da arte, mas decerto se deve visitar uma porção de museus, ou perlustrar livros de arte, ou ao menos visitar sítios de Internet dedicados ao assunto (embora a baixa resolução dos monitores de vídeo empobreça radicalmente a experiência).Tal exposição à arte é necessária para aprender a apreciá-la, mas decerto não é suficiente, pois tal apreciação depende também de um pano-de-fundo cultural, pois uma das características da arte é a exploração de metáforas. Para compreender uma metáfora, é imprescindível ter-se noção a respeito do quê a manifestação é uma metáfora.A formação de um pano-de-fundo cultural deve muito ao ambiente, e portanto ao mercado. Assim, é impossível a um argentino médio apreciar a música japonesa, porque praticamente nunca é exposto a ela.O fato de a delimitação das artes ser fluida dá oportunidade para que qualquer produção vagamente “artística” se apresente como “arte”. É o caso não só dos quadros de incêndio na floresta como de uma porção de peças de teatro, livros, peças musicais, filmes (vá lá, consideremos o cinema como arte, embora isso não seja de modo algum claro) etc. que aparecem continuamente.Pois bem, considerando-se as duas áreas em que a criatividade se manifesta, ou seja, nas ciências/mundo prático e nas artes, onde, exatamente, o brasileiro é particularmente “criativo”?Dize-se que “o brasileiro” é “criativo” significa dizer que uma porção de brasileiros frequentemente se mostra “criativa”.
Vejamos.

1. Ciências. Há basicamente dois critérios objetivos para se medir a criatividade nas ciências: a frquência de publicação de artigos em revistas de primeira, segunda etc. linhas e, principalmente, a frequência de citações de artigos em revistas de primeira, segunda etc. linhas. Tais estatísticas são recolhidas por diversas empresas e instituições, sendo a principal o Science Citation Index, que pertence à agência Reuters e só é acessível via convênio pago. É notória a escassez de brasileiros nesses índices. Os poucos que aparecem concentram-se na física e alguns na biologia, nenhum em posição muito elevada.
2. Tecnologia. Neste caso, a medida de criatividade é mais simples, dada pela frequência de registro de patentes. Ver, por exemplo, o grau de inovação da economia brasileira conforme medido pelo Forum Econômico Mundial. No Brasil, nada se cria e nem mesmo se copia. Como a economia brasileira se baseia na venda de commodities e como a indústria do país desapareceu para dar lugar a empresas comerciais que licenciam ou representam produtos desenvolvidos alhures, não há lugar para a inventividade. Ao contrário, a invenção é reprimida, pois balança o barco.
3. Processos gerenciais. Ignoro se existe alguma medida objetiva da inovação em processos gerenciais, mas o que se observa no Brasil é a crescente predominância de relações capital-trabalho que penalizam violentamente o trabalho em favor do capital. “Inovação” gerencial no Brasil parece significar o desenvolvimento de meios de pagar o mínimo possível pelo máximo possível de trabalho. Se é isso, então o Brasil é de fato extremamente “criativo” nessa área.
4. Artes plásticas. Desconhecem-se artistas que trabalhem no Brasil e que tenham tido algum impacto na pintura ou na escultura internacionais (que é o que conta). Artes plásticas só podem desenvolver-se na presença de um mercado comprador. Devido à brutal deigualdade de renda brasileira, o mercado comprador de arte resulta restritíssimo.
5. Literatura. Fora Machado de Assis, que ganhou traduções para o inglês a partir de coisa de dez anos atrás e, menos, para outros idiomas, mas cujo impacto na literatura internacional é inexistente, nenhum outro escritor brasileiro jamais teve qualquer espécie de influência (adianto que Paulo Coelho não faz literatura, mas outra coisa qualquer que não é literatura). Considerando-se o plano interno (o português não é exatamente uma língua global), o crescimento do mercado leitor tem dado oportunidade para que uma quantidade maior de escritores consiga viver de literatura. Isso decerto estimula a criatividade. (Esses escritores não costumam ser submetidos ao crivo da crítica literária brasileira, porque nossos críticos literários consideram que literatura contemporânea está abaixo de seu plano, preferindo escrever sobre… bem, nunca se sabe sobre o quê, exatamente, esses críticos literários escrevem).
6. Cinema. Nenhuma dessas duas atividades consegue existir sem mercado. O cinema depende muito de técnica, algo escassíssimo entre os cineastas brasileiros. Com isso, a maior parte da filmografia brasileira é composta de um lixo insuportável. Há bissextas aparições de filmes mais bem feitos, parte dos quais originada em Hollywood. Alguns desses filmes mais bnem feitos se distinguem por não serem insuportáveis, o que no entanto está longe de transformá-los em obras-primas.
7. Teatro. O teatro se concentra exclusivamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde há um público que parece crescente. Algumas peças ficam em cartaz por anos a fio, o que é um bom sinal. Não há teatrólogos brasileiros conhecidos internacionalmente.
8. Música. Chegamos por fim à música, território em que a influência internacional brasileira é vasta. Esse é decerto um terreno em que o Brasil influenciou o mundo. Após um breve contacto entre o grupo de choro de Pixinguinha e o jazz praticado na França por Django Reinhardt/Stéphane Grapelli, que não parece ter deizado rastros, a influência brasileira recebeu impulso a partir da Bossa Nova com o intercâmbio entre jazzistas americanos, principalmente o saxofonista Stan Getz, e alguns músicos brasileiros, como João Gilberto, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Naná Vasconcelos, Eumir Deodato, Sérgio Mendes. A geração seguinte, de Gilberto Gil e Milton Nascimento, ganhou autonomia em relação ao jazz.

Internamente, a produção e o consumo musicais são vastíssimos — o que inclui uma quantidade imensa de porcaria, mas isso é assim mesmo. Todos os dias surge muita coisa boa.Já a música erudita brasileira teve o gênio de Villa-Lobos (cujos Estúdios e Prelúdios são obrigatórios no repertório de qualquer violonista clássico e cujas Bachianas Brasileiras aparecem com alguma frequência em programas de orquestras de primeira linha) e só.Assim, a decantada “criatividade” brasileira manifesta-se em alguns territórios do universo cultural, mas não se vê rastro dela em outros terrenos.Do que se conclui que, se o eventual leitor tende a valorizar na vida a música, a literatura, o cinema etc., tem motivos para comemorar a criatividade brasileira em ao menos alguns terrenos (mas nitidamente não todos).Mas também que, se o que valoriza é a atividade intelectual não-”cultural” e a inovação no trato das coisas do mundo material, vamos mal.

Fonte: IG

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