26 setembro 2009

A Imprensa Golpista no Brasil e na América Latina - por José do Vale Pinheiro Feitosa


Pelo menos duas organizações de mídia brasileira se associaram ao instituto do Golpe de Estado: a Globo e a Veja. As outras duas, Folha e Estado, foram um pouco mais comedidas, mas não deixaram de dar uma mãozinha à tese. Alexandre Garcia e Miriam Leitão no Bom Dia Brasil da última segunda feira se tornaram porta vozes dos golpistas de Honduras.

Alguém tem dúvidas que em Honduras houve um Golpe de Estado? Igual aquele que tentou derrubar Hugo Chávez? Alguém desconhece que os militares brasileiros, sob a batuta de lideranças civis, deram um Golpe de Estado em João Goulart e implantaram uma Ditadura de mais de vinte anos? Quem não percebe que conservadores e autoritários vestidos em roupas de democratas apregoam e defende um golpe de Estado? Eles começam deste modo e tentam a hegemonia até que qualquer desculpa é desculpa para um golpe.

Os “democratas” de Veja e Globo que tanta histeria tiveram com um suposto terceiro mandato para Lula, debateram igualmente o terceiro mandato para Uribe na Colômbia? Quando é Hugo Chávez as “raposas em pele de cordeiro” se tornam democratas da meia noite. É a velha prática do Stalinismo e não é incomum tais “democratas” denunciando o regime ditatorial que trucidou vidas. E aí pensamos nesta contradição: se usam as práticas stalinistas qual a razão de denunciar seu regime. É que ao fazê-lo não pretendem negar a ditadura, mas subjetivamente nos ameaçar com ela.

A questão de Honduras é clara. Deram um Golpe de Estado e querem dar sucesso ao golpe com eleições em novembro. Assim fica fácil para os “democratas” defenderem este tipo de democracia: toda vez que alguém nos contrariar vamos lá, damos um golpe de estado e depois prometemos eleições. No Brasil foi deste modo, até que em 1965 acabaram por cassar inclusive os civis que lideraram o golpe (Lacerda e Juscelino) e ficamos sem eleições por muitos anos. Sim tivemos eleições, lembram do “duplipensar” do livro 1984 de George Orwell, eram “eleições” indiretas. O “duplipensar” ou a “duplimensagem” do livro 1984 era a denúncia da prática Stalinista.

Em Honduras estão todos os elementos de um golpe de Estado conforme o consagrado conceito do Dicionário Político de Noberto Bobbio. Como o pensador italiano bem caracterizou o golpe de Estado evoluiu historicamente, mas manteve a sua natureza principal. O traço de união das várias modalidades ao longo de tempo é: “o Golpe de Estado é um ato realizado por órgãos do próprio Estado.” Portanto quando os militares brasileiros tentaram justificar o Golpe como um revolução, estavam aplicando a técnica do “duplipensar” e as famosas passeatas com Deus Pela Liberdade era a encenação para isso (aliás um ex-bispo do Crato ainda padre num tom de brincadeira usava o verbo pelar no lugar de “pela”). As mesmas manifestações a favor dos golpistas em Honduras.

Bobbio responde a duas questões do conceito para caracterizar o que é um Golpe de Estado. Quem o faz? “O soberano, em segundo lugar titulares do poder do Estado e em terceiro funcionários do Estado” (militares). Em Honduras estão o segundo e o terceiro atores. Como se faz? Se faz pela mobilização dos recursos do Estado pois ele é feito por dentro do aparelho de Estado. Prenderam o presidente e sua família enquanto dormiam e os seqüestraram para o exterior.Tomaram os principais recursos modernos: aparelho de comunicações, aeroportos, centrais de telefonia etc. Aí o clássico “infiltração dentro de um setor limitado, mas crítico, do aparelho estatal e na utilização dela para privar o Governo dos demais setores.”

As organizações de comunicação brasileira, sob controle de seis famílias, finalmente mostraram a verdadeira face golpista. Apóiam um golpe clássico e atacam quem denuncia o golpe. Aliás, é um desafio impossível para quem queira demonstrar que estas organizações não estiveram a serviço do Golpe de 1964 e em apoio à Ditadura Militar. Enfim, talvez pela natureza oligárquica, a única instituição brasileira que não evoluiu democraticamente foi a grande mídia nacional.

Só para referência de todos nós: vocês viram alguma note de quem quer que seja ABERT ou outra farsa igual em defesa de alguns órgãos de Imprensa de Honduras que estão sob ataque dos golpistas. Pois tem, dão descargas elétricas nos equipamentos das emissoras que não apóiam os golpistas, provocam ruído nas transmissões entre outras ameaças, inclusive a jornalista.
Enfim: usar Hugo Chávez para defender os golpista é uma bela técnica no “duplipensar”.

Por: José do Vale Feitosa

5 comentários:

  1. O Zé do Vale, mais uma vez, nos brinda e nos oferece uma análise precisa da realidade política momentânea.
    Está de parabéns, pois, pelo discernimento, pela profundidade, pela imparcialidade e por nos mostrar, enfim, com argumentos convincentes e objetivos, como não nos devemos deixar levar por certas publicações corruptas e seus jornalistazinhos de quinta categoria.
    Nota 10, não, nota 1000.

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  2. Além do mais, ilustre Zé do Vale, há que se admitir que muitos pseudo-intelectuais, que transitam aqui pelo blog, sequer sabem da existência dos livros "1984" (George Orwell, 301 páginas, Companhia Editora Nacional) ou Teoria Geral da Política (Norberto Bobbio, 718 páginas, Editora Campus).
    Aí, fica difícil entenderem de que tratam o "duplipensar", a
    "duplimensagem" ou a "novilíngua" , não ???

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  3. Amigos,

    Sinto cheiro de pólvora no ar!

    Que ninguém caia nessa arapuca lançada aí pelo Zé Nilton Mariano. Não queremos provocações nem duelos por aqui de novo, POR FAVOR!

    Bom Domingo,

    Dihelson Mendonça

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  4. A gente fica sentindo falta do Zé do Vale, e de repente aparece com uma análise bem fundamentada e precisa.
    O Blog às vezes fica emporcalhado com um radicalismo, de quem não tem nada a oferecer de bom, a não ser crítitas cheias de ranço por questões pessoais mal resolvidas, e que ficaram durante anos comprimidas, atingindo até pessoas amigas que não mereciam ser alfinetadas.
    È normal casos esporádicos como os desabafos dos nossos amigos Alessandra e Wilsom, que estavam feridos e afloraram seus sentimentos, e hoje nos oferecem o que de melhor possuem do seu esplendor criativo.
    Não quero de maneira alguma atingir ninguém, pois afinal de contas tenho meus defeitos, e tenho um laço afetivo, plantado no meio de todos esses amigos que fazem parte dessa família que é o Blog do Crato.
    Se em algum momento fui mal interpretado pelas colocações que fiz, me desculpem, mas não tive a intenção de ferir, ou levar desconforto a ninguém.
    Foi apenas o calor do debate.

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  5. Caro Dihelson:
    Que cheiro de pólvora que nada!
    Temos é que baixar mesmo a cabeça e, humildemente, reconhecer que o blog está mesmo cheio de “pseudos-intelectuais”. Como dói essa rotulação sumária. Mas, proferida com o equilíbrio emocional e a serenidade psicológica como foi feita, temos mesmo é que baixar a cabeça e fazer uma revisão de vida.
    Só os imbecis não reconhecem a superioridade do intelecto e intelligentsia da esquerda.
    (A palavra intelligentsia, de origem russa, designava, no final do século XIX, o intelectual crítico, independente, que defende os interesses públicos, com linguagem acessível. Correspondia a toda uma geração de escritores, pensadores, artistas, que defendiam o povo russo, lutavam contra o czarismo, a repressão, a censura.).
    Eu me incluo nessa desprezível classe dos “pseudos intelectuais”. Pior, sinto-me um primo bastardo no meio dos verdadeiros intelectuais. Sou mesmo um “early-adopters” Em português xumbrega da “direitona”: um “adepto às novidades da triste sociedade capitalista”.
    Reconheço – a partir deste momento – que o verdadeiro intelectual tem que ser esquerdista, marxista, bolchevista, socialista, “bolivariano”, leitor de “Carta Capital” e “Caros Amigos”, adepto do Plano A (Dilma Roussef) ou no fracasso deste, do Plano B (Ciro “papo furado” Gomes), tem que louvar o Nosso Guia...
    Estou arrasado. No fundo do poço...
    Armando

    PS – Sinto-me fulminado pela catalogação ideológica. Norberto Bobbio já era leitura obrigatória no tempo da minha graduação da URCA. Menos mal. Outro dia vi na Livraria Nobel, no Shopping Cariri, o novo livro de George Orwell. Pensei que era “coisa de romeiro”. Depois da referência já estou correndo para adquirir um exemplar. Antes que se esgote, pois deve ser um best-seller...

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