27 setembro 2009

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por Ivens Roberto de Araújo Mourão


O POTE

O Dr. Raimundo Bezerra era um entusiasta em todas as atividades que se envolvia, seja na medicina, na política, na plantação de café em cima da Serra! Estive com ele, certa vez, visitando uma cerâmica que tinha numa mina de taguá (argila), localizada próxima da Igreja de São Francisco. O local chamava-se Escondidinho. Na região onde “a alma vista pelo Aloísio, segundo o Júlio Saraiva, foi defecar”. Explicava, com muito entusiasmo, sobre a excelência da matéria prima e do produto acabado. O meu irmão Marcelo, nas férias da Faculdade de Medicina ia para o Crato e fazia seus costumeiros estágios com o Dr. Raimundo, na sua Casa de Saúde. Sempre o acompanhava, nas suas visitas à Cerâmica. Lá conheceu um padre jovem, de aparência bonita, amigo dele. Por entender de geologia, estava sempre explicando alguma coisa sobre o material da mina, argila conhecida como taguá. Nas férias seguintes, o Marcelo voltou a encontrar-se com o Padre. O Dr.Raimundo falou sobre uma novidade:

- “Baixinho, ele não é mais padre, não. Renunciou aos votos. Agora ele está é comendo muita gente!”


Pouco depois o Dr. Raimundo e o Marcelo foram à Cerâmica. Lá existia o galpão onde eram preparadas as telhas. A matéria prima era recolhida na parte mais funda de uma baixa que existia no terreno. Neste local os operários colhiam o barro e transportavam para o galpão. Debaixo de uma árvore, tinha um pote com água bem fria, para matar a sede do pessoal. O Dr. Raimundo percebeu que estavam levando o pote lá para cima, para o galpão:

- “Mestre, por que é que estão tirando o pote daí? Vai ficar longe para o pessoal da mina!

- Ah doutor, o padre tá vindo à noite namorar aqui.
- O Padre? Como é que você sabe?
- Olha as marcas do fusca dele!
- Mas homem, tem muita gente que tem fusca no Crato!
- Não, Doutor, é dele mesmo. Eu sei.
- Mas o que é que tem a ver o namoro do padre com a necessidade de tirar o pote daí!
- Ah, Doutor, quando eles terminam de namorar vão lavar as coisas no nosso pote...

O CABELO

O Dr. Raimundo Bezerra, quando criança, presenciou muitas vezes a mãe dele, Dona Zezinha, tendo o cuidado de reservar para o médico da família a bacia, a toalha limpa e o sabonete novo. Anos depois, médico, foi atender um paciente em casa. Quando voltou, falou para o meu irmão Marcelo:

- “Baixinho, médico hoje em dia está desprestigiado demais! O sabonete que me deram tinha até pentelho...”


A PERÍCIA

No período em que o Marcelo trabalhou com o Dr. Raimundo, no Crato, este sempre lhe dava algumas tarefas para, aos poucos, ir se entrosando nas atividades e ser conhecido na cidade.
Estavam um dia no consultório fazendo Perícia Médica. Era dia de uma Junta Médica, isto é, quando são avaliados pedidos de benefícios que foram indeferidos em uma primeira instância e passavam por uma segunda avaliação, de dois ou três médicos. Chega a vez de uma mocinha jovem, lá pelos seus 16 ou 17 anos, de nome Maria Imaculada, que entra no consultório acompanhada pela mãe. Dr. Raimundo pergunta para a paciente qual o problema e essa lhe responde, apontando para a barriga:

- “É esse caroço aqui que não para de crescer”.

O Dr. Raimundo, já imaginando do que se tratava – provável gravidez – perguntou:
- “Desde quando começou a crescer esse caroço?”.
- “Foi depois de umas mangas que eu comi”.

Até aí a mãe ali, firme, sem falar nada. O Dr. Raimundo pede para a jovem deitar na mesa de exame para fazer a palpação do abdômen, o que realmente acaba por confirmar a sua suspeita inicial. Pede para o Marcelo também examinar, sem comentar nada. Só então fala para a mãe da jovem:

- “Cumade, esse caroço vai nascer daqui a uns três meses!”.

Nisso, a mãe da jovem se levanta da cadeira, se perfila diante do Dr. Raimundo e do Marcelo e, brandindo o braço direito com o punho cerrado diz:

- “Doutor a minha filha é MOÇA!!!”.


O Dr. Raimundo, com toda a calma, diz para ela se acalmar que vai chamar o especialista em Obstetrícia, o Dr. Tarciso Pinheiro, que tinha o consultório ao lado e que fazia parte da junta. Afinal, ele poderia estar enganado... Dr. Tarciso vem até o consultório, examina e confirma o diagnóstico anterior:

- “Útero grávido de sete para oito meses”.
A mãe não se conforma:
- “Doutor a minha filha é MOOOÇA!”.
O Dr. Raimundo vira-se para o Dr. Tarciso e comenta:
- “Baixinho (era assim que eles se chamavam um ao outro), será que é outra obra do Espírito Santo? Afinal, a menina se chama Maria Imaculada!”

Por Ivens Roberto de Araújo Mourão - Do livro "Só no Crato". Direitos de Publicação concedidos pelo autor ao Blog do Crato. Todos os direitos reservados.

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