02 setembro 2009

História do Crato - A Praça Siqueira Campos - Como Surgiu ? - Por: Ivens Mourão

O nome da Praça, “Siqueira Campos”, é uma homenagem a um rico comerciante pernambucano que se estabeleceu no Crato e não um reconhecimento a um dos líderes da Revolução de 30, que faleceu em desastre de avião no Uruguai. Este comerciante, nas primeiras décadas do século XX foi o primeiro a possuir automóvel na cidade. Com recursos próprios executou o calçamento da Rua Dr. João Pessoa, ainda hoje a principal rua do comércio cratense. Até a chegada da Televisão, a praça era o ponto diário de encontro da sociedade. A freqüência maior era nos fins de semana e feriados. Além de ter sido palco das estórias mais pitorescas da cidade. Marcou o início de muitos namoros, noivados e casamentos.

Siqueira Campos está, em primeiro plano, ao lado do seu carro.

O seu formato é quadrado, circundado por um calçadão de uns três a quatro metros de largura. O restante, a parte central, é ornada por alguns canteiros floridos e diversos passeios, com bancos. Naqueles anos dourados, a praça era o coração da cidade, tendo normas bem estabelecidas, embora tal fato tivesse se originado de uma maneira provavelmente natural. Mas, o certo é que seus freqüentadores não se desviavam deste ritual. A calçada externa era reservada para os jovens: os solteiros. As moças sempre ficavam girando, num sentido ou noutro. Os rapazes também giravam, mas a maioria ficava em pé, na borda da praça, flertando as moças. Caso um rapaz estivesse circulando com uma moça, era sinal de que estavam namorando. Na hipótese daquele namoro evoluir para um noivado, o casal passava para a parte interna, podendo circular pelos passeios ou sentar-se em determinados bancos. Os casados sempre ficavam no centro, conversando entre eles e acompanhando os filhos, principalmente as moças.


Esta foto caracteriza bem como era o ritual. Deve ter sido colhida num domingo pela manhã, na década de cinquenta. As moças circulavam de braços dados. Nem todos os rapazes estão de terno, talvez devido ao horário. Esta foto foi enviada pela minha prima Ruth. Ela e outras senhoras tentam resgatar as tradições, beleza e charme da praça, tão bem registrada nessa imagem.

Homenagem ao comerciante que empresta o nome à Praça Siqueira Campos e que fez muito pelo Crato na primeira metade do século XX.

A partir das nove horas, a praça passava a ser dos boêmios. Formavam-se dois agrupamentos. O Júlio Saraiva, o fotógrafo da cidade, comandava a chamada “Câmara dos Comuns”. Lá eram resolvidos todos os problemas do Crato, do Brasil e do Mundo! Ao lado, reunia-se uma outra casta, constituída de pessoas mais intelectualizadas, denominada de “Câmara dos Lordes”. Esta, comandada pelo Dr. Antônio Gesteira, médico renomado, grande cirurgião e pessoa extremamente caridosa. Tanto que sua fama perdura, mesmo após sua morte. O seu túmulo é visitado e existe a crença de continuar operando, agora, milagres. No entorno desses dois grupos, reuniam-se algumas pessoas que não tinham coragem de participar das conversas desses figurões, mas gostavam de ouvir os papos.


Fotos da Praça Siqueira Campos no final da década de 30 e começo da de 40, vista por dois ângulos diferentes.

Como “satélites” da praça, destaco:
O Cine Cassino, um dos primeiros cinemas da cidade. Para mim foi o primeiro. Lá se realizavam, antes da Rádio Araripe, shows artísticos, principalmente do sanfoneiro, quase cratense, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.


Cine Cassino e o Café Crato, em foto atual, ambos pioneiros em suas atividades. Nos altos do Cine Cassino funcionou, inicialmente, o Crato Tênis Clube.
Vizinho ao Cassino passou a funcionar, em 1955, o Café Crato, primeiro café expresso da cidade e, provavelmente, do interior do Nordeste. O Sr. Orestes Costa, proprietário, homem dinâmico, deixou a marca da sua eficiência, organização e pioneirismo, possibilitando encontros e conversas, onde muitos fatos curiosos aconteceram. No lado oposto ao do Cassino, funcionou o estúdio da Amplificadora Cratense, que foi o embrião da Rádio Araripe. Esta, a pioneira no interior do Estado e uma das primeiras de todo o interior nordestino. Na Amplificadora, quando ainda funcionava em prédio em frente à Praça Francisco Sá, começaram os programas de calouros, que tanto animaram a vida artística da pacata cidade de então.



Amplificadora Cratense e seus componentes. Ao centro, sem paletó, o Sr. Ernani Silva, um dos proprietários.

A Sorveteria Glória, no térreo do Grande Hotel, constituía-se um prolongamento da própria Praça. O Luís, seu proprietário, não só participava das duas Câmaras como usava a sua Sorveteria como apoio e, como já me referi anteriormente, dava-lhe suporte na iluminação. Era um ponto vital, na Siqueira Campos Um outro “satélite” importante, embora não estivesse na vizinhança imediata da Praça, mas que fazia parte constante nas conversas dos freqüentadores, era o Cabaré da Glorinha, o mais famoso da cidade. O “expediente” desses boêmios, não todos, terminava lá. Chamavam-no de “Reino da Glória”. Era uma verdadeira atração turística! Quando chegava uma menina nova, a notícia se espalhava pela cidade. Passava a ser comentário obrigatório nas duas “Câmaras”. Estava terminando a década de trinta e o Luís Gonzaga, ainda menino, começava a observar os aspectos originais daquela cidade, que adotou como sua.

Luís aos 12 anos, estudante do Ginásio do Crato e atento às peculiaridades da cidade.

Texto do livro: "Só no Crato" de Ivens Roberto de Araújo Mourão - Direitos de Publicação cedidos ao Blog do Crato. Todos os direitos Reservados.

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