29 setembro 2009

Dom Pedro II era a luz do baile - por Armando Rafael


Fico a imaginar o que escreveria Monteiro Lobato – caso vivesse nos dias atuais – sobre a série de escândalos que vêm grassando nos três poderes da república brasileira. O que diria ele, por exemplo, sobre a vergonhosa utilização dos cartões corporativos? Sobre os "Atos Secretos" do Senado da República? da censura ao jornal "Estado de S.Paulo" impedido de publicar as denúncias da Operação Boi Barrica, contra o filho de José Sarney?

Para quem não sabe, Monteiro Lobato foi um dos bons intelectuais brasileiros do século passado. Ele abraçou idéias marxistas; escrevia muito bem e era conhecido pela coragem de dizer o que pensava, sem preocupação de desagradar. Foi também ardoroso defensor das idéias republicanas, antes, e nos primeiros dias pós golpe militar de 15 de novembro de 1889. Mas quando viu os frutos advindos da Proclamação da República, escreveu, em 1918, um artigo com o título de “Dom Pedro II era a luz do baile”.
Permita-me compartilhar com o caro leitor apenas dois trechos do artigo citado:

“O fato de existir na cúspide da sociedade um símbolo vivo e ativo da Honestidade, do Equilíbrio, da Moderação, da Honra e do Dever, bastava para inocular no país em formação o vírus das melhores virtudes cívicas. O juiz era honesto, se não por injunções da própria consciência, pela presença da Honestidade no trono. O político visava o bem público, se não por determinismo de virtudes pessoais, pela influência catalítica da virtude imperial. As minorias respiravam, a oposição possibilizava-se: o chefe permanente das oposições estava no trono. A justiça era um fato: havia no trono um juiz supremo e incorruptível. O peculatário, o defraudador, o político negocista, o juiz venal, o soldado covarde, o funcionário relapso, o mau cidadão enfim, e mau por força dos pendores congeniais, passava, muitas vezes, a vida inteira sem incidir num só deslize. A natureza o propelia ao crime, ao abuso, à extorsão, à violência, à iniqüidade – mas sofreava as rédeas dos maus instintos a simples presença da Eqüidade e da Justiça no trono”.

“Ignorávamos isso na monarquia. Foi preciso que viesse a república, e que alijasse do trono a Força Catalítica para patentear-se bem claro o curioso fenômeno. A mesma gente, o mesmo juiz, o mesmo político, o mesmo soldado, o mesmo funcionário até 15 de novembro (de 1889), bem intencionado, bravo e cumpridor dos deveres, percebendo, na ausência do imperial freio, a ordem de soltura, desaçamaram a alcatéia dos maus instintos mantidos em quarentena. Daí o contraste dia a dia mais frisante entre a vida nacional sob Pedro II e a vida nacional sob qualquer das boas intenções quadrienais que se revezem na curul republicana”.

Ah! Monteiro Lobato! O que escreveria você dos dias atuais? Desses tristes dias dos cartões-corporativos, das CPIs que terminam em pizza, do “mensalão”, dos “sanguessugas”, dos “vampiros” instalados no Ministério da Saúde, do “Renangate”, do esquema das ONGS, dos "Atos Secretos" do presidente do Senado, José Sarney e de tantos e tantos outros escândalos...

texto e postagem: ARMANDO LOPES RAFAEL

3 comentários:

  1. Caro

    Sobre o que escreveria Monteiro Lobato, prefiro não me pronunciar. Afinal, cada cabeça vê e pensa de acordo com as suas experiências de vida e os tempos e desafios são outros, ainda que no fundo possam ser os mesmos ou – pelo menos – não tão diferentes assim. Arrisco dizer que, com a quantidade de informação a que hoje temos acesso, não me surpreenderia com a possibilidade de Monteiro Lobato andasse algo ocupado na busca de “sobre o que falar” ou “o que fazer” e por onde começar. Dadas as circunstâncias e quem sabe reconhecendo os seus próprios erros, recentes e não tão recentes assim, talvez preferisse ficar calado, pelo menos até que, no silêncio da tranqüilidade encontrasse a voz vinda de seu coração e uma resposta sobre quando, quanto e sobre o que falar.
    Esta semana, li um conto popular que talvez não seja novidade para si, mas me veio agora à memória. Contava sobre um pequeno colibri que, ao ver um incêndio na floresta, decidiu recolher umas gotas de água com o bico para apagar o fogo. Um macaco, ao ver esta cena, disse-lhe que não adiantava, mas o colibri insistiu “estou fazendo a minha parte”. Já nos dias de hoje, com tanta água envenenada por aí, arrisco dizer que o pequeno colibri teria de ser bem mais cauteloso com as suas boas intenções, na hora de mergulhar o bico e largar água na floresta, para não espalhar ainda mais veneno, seja pela floresta ou até mesmo pelo seu próprio corpo. Seguramente, estaria bem consciente de que nem o veneno nem o fogo esperam, assim como estaria consciente de que, face às dificuldades de encontrar água limpa, os seus vôos seriam mais longos, a sua demora maior e sua tarefa mais árdua. Quem sabe mais um motivo para não perder muito tempo com conversa e antes por as suas asas à obra.

    Dou por mim a questionar se falar de escândalos é prioritário. Necessário talvez seja, ou não se falaria tanto sobre o assunto, mas quanto a ser prioritário sinceramente não sei. Sei, no entanto, que enquanto roubamos, favorecemos, corrompemos ou somos corrompidos e enquanto ficamos inertes e desperdiçamos oportunidades, e enquanto acusamos outros de roubo, favorecimentos, corrupção, inércia e desperdício de oportunidades, o planeta arde e clama pela nossa atenção, árvores continuam caindo e a mesma água, que um dia nos deu a vida – a nós homens, animais e plantas –, hoje parece hoje estar cada vez mais podre e envenenada. Não querendo soar prepotente, posso apenas dizer-lhe que quando vejo – aqui mesmo no Crato – mais uma árvore cair, quando passo (diariamente) pela vala que atravessa a rua onde moro ou quando visito o centro zoonoses do Crato na sexta-feira de manhã para acompanhar o sacrifício de cães e gatos, num instante sinto o quanto falar tanto – até como faço agora - pode ser um desperdício de valioso tempo e vida.

    Por tudo isto, faço hoje o esforço para falar menos e moderar a minha voz, arregaçar as mangas e dedicar-me um pouco mais a cuidar de mim mesmo para que possa também fazer o que eu sinto que é necessário fazer, que é também o que o meu coração manda e o que mais me faz feliz, ou seja, cuidar da água, das árvores e dos animais, tudo por amor à Natureza da qual eu não excluo a humanidade, casa e família.

    E enquanto escrevo tudo isto, a floresta continua a arder e - muito provavelmente - já falei demais...

    Saudações cordiais,
    Tiago

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  2. Caro Tiago:
    Sua citação sobre o trabalho solitário do colibri é ilustrativo.
    Se ao menos UMA pessoa cumprir seu dever com certeza não extinguirá os desmandos. Mas, certamente, haverá um canalha a menos neste País.
    Quando abrimos um jornal ou revista e só encontramos matérias a respeito de corrupção, escândalos, golpes, falcatruas, desvios de conduta, crimes ambientais (e sabemos que tudo ficará impune) fazer eco, pensando nas futuras gerações, já é uma forma de reação.
    Veja o "estrago" que Marina Silva vem fazendo no status quo.
    E se ela tivesse se acovardado como Aluísio Mercadante?
    Tem umm ditado chinês que diz: Se atirares um pedra dentro de um lagop já conseguistes modificar o mundo...

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  3. Ou como diria outro, tudo em moderação, incluindo a moderação...

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