29 setembro 2009

Dois casos de denúncias de corrupção no Brasil Império – por Armando Lopes Rafael


Artigo de Lilia Moritz Schwarcz reproduzido neste blog abordou o episódio de um roubo de jóias pertencentes à Imperatriz Tereza Cristina. A intenção de quem reproduziu o artigo foi provar “corrupção” existente nos tempos imperiais, a partir do exagerado título: “Corrupção e mar de lama”.
Diz a sabedoria que todo exagero é ridículo.
Mas, houve sim episódios de denúncia de corrupção durante o reinado de Dom Pedro II. Reproduzo abaixo textos do livro “Revivendo o Brasil Império”, de Leopoldo Bibiano Xavier:

1º) Dom Pedro II não apreciava no Barão de Penedo a facilidade com que este recebia as comitivas de intermediação, sempre que tratava do Brasil contrair novos empréstimos. Desinteressado, a ponto de não dar importância a dinheiro, dom Pedro estranhava que outros não agissem da mesma forma que ele. Em 1863, num bilhete para o Marquês de Abrantes, dizia:

Consta-me que o empréstimo contraído em Londres o foi a 85,5% e não a 88%, porque houve 2,5% de comissão. Espero que o embaixador brasileiro não tenha recebido parte dela, e de nenhum modo posso consentir que ele o faça. Já que procedo do mesmo modo.

Por via da dúvida, Dom Pedro II mandou remover o Barão de Penedo da Inglaterra para a França.
*** ***
2º) “O Imperador era de uma intransigência irredutível, sempre que se tratava de isolar a política ou a administração pública de todo interesse que não fosse propriamente o do País. Nisto seu espírito de moralidade era insuperável. Pode nem sempre ter evitado que políticos menos escrupulosos, mesmo dos mais acatados, ou funcionários prevaricadores, fugissem a uma justa punição. Mas em via de regra, sempre que um fato menos justificável lhe vinha ao conhecimento, ele não hesitava em punir o responsável com os recursos que lhe davam a lei.
“Em Capão d’Anta, no Paraná, foi adquirida pelo Ministério da Agricultura uma gleba para instalação de colonos russo-alemães, vindos do Volga. As terras eram impróprias para qualquer cultura, e haviam sido vendidas por um potentado político local. De tal qualidade eram as terras, que os próprios colonos as abandonaram em poucos dias, indo mendigar pelas estradas. A notícia chegou à Corte, causando a mais penosa impressão ao Monarca.
Por desejo expresso de Dom Pedro II, toda a comitiva em visita ao Paraná foi com ele ao local. Na presença do próprio vendedor, mandou um soldado revolver a terra com a espada e disse:
– Isso não dá nem capim. Isto é cascalho, não é terra. No Volga esses pobres homens tinham muito melhores terras. Não precisavam vir de tão longe.
Um dos amigos do vendedor ousou retorquir:
–Foram os próprios colonos que pediram estas terras. Muita gente os aconselhou a que não viessem para cá, mas eles insistiram.
Dom Pedro II replicou:
– Quem os aconselhou? Quem?
– Gente do povo, respondeu o interlocutor.
Dom Pedro retoma a palavra:
– O povo não fala alemão nem russo, e conselho não se dá através de interpretes.
De volta à Corte, ainda fez sentir o profundo descontentamento, na medida das suas limitações constitucionais. Como era de praxe, o Ministro levava para a assinatura do Monarca os agradecimentos concedidos aos que mais benefícios haviam prestado durante a viagem imperial. Ao ser apresentado um decreto transformando em barão o tal vendedor de terras, Dom Pedro decidiu:
– Vamos reformar isto. Não quero dar nenhum título a esse senhor. Prefiro agraciar a mãe dele.
– Já é baronesa, disse o Ministro.
– Pois faço-a viscondessa. Mande-me o decreto para que eu assine. Faço-o com prazer. Ao filho é que não.
Texto e postagem de Armando Lopes Rafael

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