26 agosto 2009

Por que Lina se cala? Por que Dilma não a processa? - Postado por José Sales


É pouco verossímil que Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, não saiba o dia exato em que diz ter estado com a ministra Dilma Rousseff no Palácio do Planalto - e ouvido dela o pedido para que "agilizasse" as investigações sobre os negócios do empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney.

Do mesmo modo é pouco verossímil que a ida de Lina ao palácio para uma reunião com Dilma não tenha deixado rastros nem nas dezenas de câmeras de segurança do local, nem no registro da entrada e saída de autoridades e de carros que as transportam.

Lina jamais ocuparia o cargo de Secretaria da Receita Federal se não fosse uma pessoa da absoluta confiança do governo. A identificação dela com o PT jamais foi posta em dúvida. O fato do marido dela ter sido durante um ano ministro interino do governo FHC não enfraqueceu o DNA petista de Lina.

Se a ex-chefe de gabinete dela foi capaz de lembrar que Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil, esteve no prédio da Receita Federal, e que Lina lhe disse em seguida que iria ao palácio para uma reunião com Dilma, é improvável que não tenha ficado na Receita registro sobre a data do encontro no palácio.

E por que Lina sonega a data?

Talvez porque ela não queira criar para o governo mais embaraços do que já criou ao confirmar à Folha de S. Paulo seu suposto encontro com Dilma. Foi o jornal que descobriu que houvera o encontro. E o que Dilma pedira a Lina.

A oposição aproveitou a revelação do episódio para tentar desgastar Dilma e o governo? É claro que sim. Oposição existe para cavar seu possível retorno ao poder. O PT sempre se comportou assim até chegar ao poder. Mas não foi ela que inventou o episódio.

Lina poderia ter negado à Folha o que a Folha descobriu. Ou poderia pelo menos ter-se negado a falar com o jornal. Falou. E ao fazê-lo disparou um míssil contra Dilma.

Foi brabeza para a oposição convencer Lina a aceitar o convite da Comissão de Constituição e Justiça do Senado para ir depor ali. Ela só aceitou porque a oposição garantiu que a defenderia dos ataques da tropa de choque do governo.

A serviço de quem estava Lina? Dos seus ressentimentos por ter sido demitida do cargo? De alguma ala do PT desgostosa com a escolha de Dilma para candidata à sucessão de Lula? Faltam muitas peças para montar esse quebra-cabeça. Mas nele não se encaixa a peça que ao cabo revelaria ter sido Lina cooptada pela oposição para minar as chances de Dilma se eleger.

Lina não mudou de lado. E porque não mudou silencia sobre a data do suposto encontro.
Se quisesse, Dilma poderia processar Lina por denunciação caluniosa. Por que não o faz?

Comentário do Blog do Ricardo Noblat

5 comentários:

  1. Por quase todos os lados que se enverede o raciocínio investigativo sobre este episódio, mais se delineia a possibilidade da Ministra Dilma ter culpa no cartório.

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  2. Se o caso envolvesse o presidente Lula, ele diria, com certeza, que não sabia de nada ou que não lhe avisaram ou que ele não estava sabendo do que se tratava ou que ele não estava lá ou que era uma pessoa assemelhada a ele ou que não era ele ou que não era com ele ou que ele não exisitia naquele dia e etc e tal. E como ele estar sempre blindado por camadas de chumbo, nem uma explosão de bomba atômica o atingiria.

    Ele é o nosso Indiana Jones...

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  3. "Quais são os nomes dos grandes contribuintes, quando e de que forma pressionaram a Receita? Quando foi iniciada a fiscalização dos fatos relacionados com o senhor Fernando Sarney? Quantos foram os contribuintes de grande porte no Brasil que foram fiscalizados no primeiro semestre deste ano, comparado com o mesmo período de anos anteriores e qual foi o volume de lançamentos? Ainda uma outra pergunta: a Receita, em algum momento, expediu uma solução de consulta que tratasse dos casos de variações cambiais como os alegados em relação à Petrobras? Respostas a isso permitiriam lançar luz sobre os assuntos".
    Everardo Maciel (homem forte e ex-todo poderoso chefe da Receita Federal durante os oito anos da administração FHC).
    E agora, José ???

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  4. José Sales/Carlos:

    Um “gozador” (para dizer o mínimo) esse Everardo Maciel, primo do senador Marco Maciel, com uma diferença: o senador é um homem coerente.

    Meses atrás li interessante entrevista (revista Istoé/ DINHEIRO) na qual o gozador Everardo Maciel é mostrado assim:

    “Nenhum homem, na história republicana, conseguiu cobrar tantos impostos quanto o pernambucano Everardo Maciel. Em sua gestão na Receita Federal, entre 1995 e 2002, a carga fiscal subiu de 25% para 34% do PIB. No entanto, ele avisa que seus sucessores no posto de Leão da Receita não terão condições de repetir seu estilo. “Não sobrou qualquer espaço para novos aumentos de impostos no Brasil”, avalia. A única saída para os governantes, diz Everardo, é melhorar a eficiência dos gastos públicos”.

    Eis algumas “idéias” desse gozador:

    DINHEIRO – O governo Lula gasta mal seus recursos?

    MACIEL – Ele gasta muito mal nosso dinheiro. O gasto público brasileiro é o ovo da serpente. A discussão correta hoje é como reduzir a carga tributária pela via da despesa.

    DINHEIRO – Mas o sr. sempre foi acusado de aumentar contribuições, e não impostos, para que a receita ficasse toda com a União, e não com estados e municípios.

    MACIEL – Fazíamos o que era certo. O aumento tinha que ser feito na contribuição mesmo. Suponha que o governo federal precisasse de um real de arrecadação. Num imposto convencional, como o IPI ou o Imposto de Renda, o governo teria de cobrar três reais a mais para obter aquele real necessário. Portanto, haveria uma gordura desnecessária, que iria para estados e municípios. Teríamos mais desperdício e uma maior carga tributária sem qualquer benefício. Portanto, o aumento das contribuições no bolo da arrecadação foi algo desejado, racional e necessário.

    DINHEIRO – Como o sr. avalia o fato de o Brasil ter hoje mais de 30 ministérios?

    MACIEL – É uma tolice. Como é que alguém pode achar que vai resolver um problema nacional criando mais um ministério? Veja o caso da secretaria dos Direitos Humanos, do Nilmário Miranda. É tanta falta do que fazer que inventaram a cartilha do politicamente correto. Isso tem que ser detonado. Além disso, a questão dos direitos humanos não precisa ter um ministério. Isso é um princípio geral, que deve estar em qualquer lugar. Tem que estar na Receita, na Agricultura, no Trabalho ...

    DINHEIRO – Não há também muito choque entre pólos opostos, como Agricultura e Reforma Agrária?

    MACIEL – Aí entramos no campo da dialética besta, outra característica do PT. É um governo que tem vários focos de confronto porque o presidente Lula busca conciliar todas as tendências do seu partido. Temos o PT, o PT do B, o PT do C e por aí vai. O resultado é um governo sem rumo, sem norte. Os comunistas eram melhores nesse aspecto. Em qualquer questão, eles sempre se perguntavam: para onde vamos? Hoje, o Brasil tem a dialética da inconsistência.

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  5. Caro José Sales:

    Conheço-o desde quando foi Secretario Adjunto no governo do Dr. Lúcio Alcântara, época que sempre conversávamos na URCA.
    Suas intervenções são sempre lúcidas, independentes, o que fazem de você (além de um dos maiores arquitestos do Ceará) um blogueiro de primeira plana...
    Parabéns!

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