20 julho 2009

Professor Ari Riboldi explica a origem de algumas expressões costumeras

Nota: Recebi esta excelente "carta do leitor" ( expressão que uso para definir as mensagens dos leitores que nos chegam via e-mail ), do professor Ari Riboldi, que vem ao nosso encontro justamente quando dos últimos questionamentos sobre a expressão "espírito de porco" usada pelo Governador do Ceará em um de seus pronunciamentos. Aqui mesmo no Blog do Crato, há vários tópicos tratando da elucidação dessa expressão, e comentários sobre a negativa repercussão que o uso infeliz desta causou na cidade do Crato. O Artigo do professor Ari Riboldi é bastante interessante e merece ser lido na íntegra:

A/C Dihelson Mendonça:

Com satisfação, li em seu blog matéria sobre a origem da expressão "espírito de porco", fazendo alusão ao livro O Bode Expiatório, de minha autoria. Fico lisonjeado pela referência. E para que não se cometa injustiça contra o porco, o que a nossa linguagem faz de maneira impiedosa e constante, encaminho o texto completo sobre a expressão "espírito de porco" e "mal e porcamente", conforme consta do meu livro já referido.

ESPÍRITO DE PORCO

Aquele que interfere, geralmente, no sentido de criar embaraços ou de agravar situações que já são difíceis; pessoa que se especializa em complicar a solução de situações ou em causar constrangimentos a outrem; pessoa ranzinza.

A origem vem da má fama do porco, embora injusta, sempre associado à falta de higiene, à sujeira e, inclusive, à impureza, ao pecado e ao demônio, conforme alusões feitas no texto bíblico do Antigo e do Novo Testamento. Atualmente, temos até o porco ligth, fruto da evolução genética. A língua, todavia, continua preconceituosa e impiedosa contra a raça suína.

No período da escravidão, nenhum dos escravos queria ter a tarefa de matar os porcos nas fazendas. A cena é chocante: uma facada profunda em direção ao coração, sangue jorrando e gritos horrendos do animal aos poucos se esvaindo até morrer. Entre os escravos, havia a crença de que o “espírito” do porco ficava no corpo de quem o matava e o atormentava pelo resto de seus dias.

MAL E PORCAMENTE

A expressão original era “mal e parcamente”. Significava que a pessoa executava algo mal e com diminutos ( parcos ) recursos, fazendo economia. Com o tempo, “parcamente” virou “porcamente”, e assim o termo foi consagrado pelo uso popular. Afinal, parcamente é uma palavra pouco conhecida e mais erudita, não tendo sido assimilada pelo povo. É realizar alguma coisa de qualquer jeito, sem nenhum cuidado ou zelo, ou, ainda, sem a devida competência. O resultado só pode ser péssimo. Nesse caso, a linguagem manifesta claro preconceito contra o porco sem ele ter culpa disso. Trata-se de um animal que não sua e detesta calor e sol. Gosta de jogar-se no barro ou atirar o próprio esterco sobre seu corpo. Dessa maneira, alivia o calor que sente. Além disso, come qualquer tipo de alimento. Diríamos que é bom de garfo e nada rejeita. As pessoas mais pobres costumam alimentá-lo com restos de comida, a dita lavagem. Isso, todavia, não é uma opção do porco, mas de seu proprietário. Se lhe fossem dados pratos finos, o porco não os rejeitaria; pelo contrário, os devoraria com a maior gratidão. Eis aí as razões, sobejamente injustas, de ligar o porco à sujeira, a imundícies, a coisas mal feitas. E, com certeza, também o motivo do emprego de palavras como porcaria, porcalhão, emporcalhar, entre outras do mesmo radical e de conotação pejorativa.

Fonte: O Bode Expiatório, origem de palvras, expressões e ditados populares com nomes de animais, terceira edição, Editora AGE, Porto Alegre-RS.

OBS: No Youtube, há 3 vídeos com entrevistas em rede nacional de tv sobre meus livros, inclusive entrevista ao programa Jô Soares, da TV Globo, exibida em 25 de dezembro de 2007, a convite da produção da Globo. O inusitado da entrevista é que fiz uma franga dormir na frente da platéia e do Jô Soares. Os vídeos, no www.youtube.com.br , podem ser acessados a partir de meu nome ( Ari Riboldi ).

Sou autor também de CABEÇA-DE-BAGRE, termos, expressões e gírias do futebol; A CPI DAS PALAVRAS, origem de palavras e expressões da linguagem política. No próximo mês de agosto, estarei lançando O BODE EXPIATÓRIO 2, origem de palavras, expressões e ditados popualres com nomes de animais, o mesma tema do primeiro livro de igual nome. Entre as novas expressões, explico, por exemplo, uma bem comum do Nordeste -"cão chupando manga", demonstrando que o cão, na verdade, substitui o capeta, o demônio, palavras estas que são tabus linguísticos. Explico também a origem e o significado do ditado "na cacunda do cachorro, a galinha bebe água". As minhas obras resultam de exaustivo trabalho de pesquisa em autores consagrados, como Câmara Cascudo e Antenor Nascentes.

Grato pela atenção e votos de muito sucesso.
Com o meu grande abraço,
Professor Ari Riboldi, de Porto Alegre - RS

2 comentários:

  1. Caro Dihelson:

    Fui eu quem mencinou o prof. Ari Riboldi na minha postagem "O "espírito de porco" e o imaginário das cidade de Crato" no seguinte tópico:

    "Segundo o livro “O bode expiatório”, de Ari Riboldi, a expressão “espírito de porco” provém da má fama do porco (não vai aí alguma injustiça?) sempre associada à falta de higiene, e à propensão à sujeira. O livro ainda acrescenta que “espírito de porco” faz alusão à impureza, ao pecado e ao demônio, conforme alusões feitas no texto bíblico do Antigo e do Novo Testamento".

    Só não pensei que a repercussão dessa citação fosse chegar ao Rio Grande do Sul, onde mora Ari Riboldi. Isso é bom. Prova de que o Blog do Crato está chegando mais longe do que pensávamos.

    Também não esperei que a postagem repercutisse tanto. Foram 12 comentários sobre ela.
    Moral da Opereta: Apesar de ser favorável à construção de novo parque para a ExpoCrato ( estou preparado pois os trogloditas vão cair de pau em cima de mim) conclui-se que o Governador Cid Gomes perdeu uma ótima oportunidade para não utilizar o destempero verbal tão característico dos Ferreira Gomes...

    ResponderExcluir
  2. Pois é, meus amigos: Conheçam o professor ARI RIBOLDI ! - Em pessoa...

    São as facilidades que as novas tecnologias nos proporcionam. Os links promovidos pelo "Jornal Chapada do Araripe" também vão além das limitações do Blog do Crato. Lá no Jornal, nós estamos tendo uma quantidade grande de comentários. Nem sei se muitos dos autores dos tópicos está lendo a receptividade do público aos seus artigos.

    Mas, como é Bem-vindo o professor Ari Riboldi aqui no nosso Blog!, e nos explicar pessoalmente sobre essas questões. Principalmente quando o nosso governador Cid Gomes ( do Ceará ), está as voltas com essas expressões, nada melhor do que um dos grandes especialistas trazer tmbém a sua opinião acerca da interpretação e da própria etimologia das palavras.

    Outrossim, parabenizo também ao emérito professor, Doutor Armando Rafael, que foi o autor da postagem que citou o professor Ari Riboldi aqui no nosso Blog.

    Como eu costumo dizer: Na internet hoje m dia, nada se escreve que não possa chegar ao planeta inteiro, e citações são lidas pelos próprios autores.

    Abraços aos professores.

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.