20 julho 2009

Poesia Matemática - Millôr Fernandes - Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

Poesia Matemática
Millôr Fernandes

Às folhas tantas do livro matemático um Quociente apaixonou-se um dia
doidamente por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar; olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.Fez de sua uma vida paralela à dela
até que se encontraram no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram (o que em aritmética corresponde a almas irmãs) primos entre si.
E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação traçando ao sabor do momento e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar constituir um lar, mais que um lar, uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos.
E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos, viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade.
Era o triângulo, tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser moralidade
como aliás em qualquer sociedade.

Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

Pequena Nota do Editor:

Eu agradeço ao Carlos Eduardo Esmeraldo por nos fazer relembrar da Poesia Matemática do Millôr, que eu particularmente, admiro bastante desde a juventude. Consideo-a uma das obras-primas da nossa língua, uma vez que consegue reunir em um poema, esse jargão matemático que tanto conhecemos na engenharia, para construir uma espécie de conto de amor surreal. Há tempos eu queria trazê-la para o Blog do Crato, aliás, sou colecionador dos escritos deste grande pensador e humorista que é o Millôr Fernandes.

Um comentário:

  1. Pois é Dihelson
    Eu li essa obra prima na Revista "O Cruzeiro", em primeira mão. Hoje eu acordei me lembrando dela e então quis compartilhar com os amigos do Blog do Crato Tá vendo como eu sou velho?

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