01 julho 2009

O céu da cidade - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando a cidade ainda era criança ouvia histórias de Trancoso ao luar ou em noites estreladas. Foi nesta era que aprendeu a mais improvável das idéias. O tempo e o espaço não existiriam por eles, dependiam dos astros no universo. E então ela compreendeu, mesmo uma menina ainda aprendiz, entre o alto do Seminário e de São Francisco, que o céu era invenção de seus próprios corpos celestes.

Por isso na parte do seu umbigo, a qual brincava chamando-o Siqueira Campos, ela imaginava que ali se reuniriam os astros do céu para longas noites de brincadeira. E como uma criança de sentido na vida, todas as noites ela punha as estrelas, os satélites, os cometas, asteróides, corpos cadentes, pulsares e quasares para animada conversa.

A criança entendia que todos deveriam nas noites se encontrar. Sem qualquer censura a quem quer que fosse. Sem dimensões, hierarquias ou primazias, apenas a reunião para que assim o céu surgisse em sua natureza dependente dos corpos reunidos.

De vez em quando o sol queria mediar alguma coisa, dizer que ele era o principal, pois ocupava com seu brilho metade do tempo. Mas a criança dizia-lhe: o tempo é matéria de todos os corpos celestes. Não adiantava o sol querer censurar, se vingar com seus raios candentes, se aborrecer com os outros astros, ele apenas o era em face dos demais.

Pois naquele céu da cidade a estrela mais amorosa, doce com estas luzes matutinas e vespertinas, canto das ladainhas com cheiro de vela iluminada, era uma necessidade inarredável. A estrelinha com algumas sombras enrugadas, uma cicatriz da eventualidade, não era imagem dos espelhos côncavos, era um astro mantenedor do céu da cidade.

Feito aquelas estrelas da constelação de câncer, que dizem do incontrolável em multiplicação, mas são tímidas e misteriosas, ligadas às tradições. Mesmo que lhe digam abismo, é o signo do sonho, da ternura, imaginação e da memória tenaz que fixa e idealiza as recordações, acontecimentos e sentimentos do passado para se proteger contra as incertezas do futuro. Sedutor e sensual. Com seus textos e figuras retiradas dos jardins do mundo.

E sempre lá as estrelas do Cruzeiro do Sul, no traço do caminho da via láctea, a rota que do litoral aponta para a origem. Como é para sul, se veste de outras possibilidades que não apenas as mesmas normas assim do modo costumeiro, o seu contrário que até se diz que norteia. Os astros constelares destes céus que se dizem luzes.

E o céu necessita dos pulsares que não cessam, mesmo quando despido de suas lagartixas ou das formas continentes do cotidiano. Os pulsares são tantos e dispersos no planisfério da praça que em cada canto vem a narrativa de um tipo da cidade, uma voz das correntezas franciscanas; mais adiante uma voz feminina em dupla com o outro gênero.

Quasares como sugestão do indecifrável, na fronteira do universo, quase a cabeça luminosa de toda uma galáxia. Cometas anunciando os velhos tempos, puxando uma cauda luminosa entre o medievo e a modernidade. Alguma estrela polar essencialmente traduzindo o espaço como uma forma determinada pela intensa luminosidade de tal astro. E são todos, a cidade sabe que nenhum pode ausentar-se sob pena que o céu não se mostre.

Mesmo o buraco negro é necessário como parte positiva de tamanha conjugação. Certo que a palavra fala em negativo, no sumidouro de todas as partículas, mas também de uma força que tende a resolver tudo por origem. Aquele antes em que o horizonte de tantos eventos nem promessa seria. Apenas o irrealizado.

A cidade sabe a importância do céu, sem ele jamais chegaria à vida adulta.

José do Vale Pinheiro Feitosa

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