Com o Crato no Coração - 20 Anos.

Quando menino acompanhava a política da minha cidade (Crato), colecionando santinhos, adesivos e brindes das campanhas políticas, acompanhando comícios, aplaudindo e vaiando candidatos. Querendo entender cada discurso, cada motivo que levaria as vaias, os aplausos, aos futuros votos. Entre coronéis, autoridades, novos heróis, velhos guerreiros, povo, falta d’água, corrupção, e sorrisos vi surgir dos laboratórios da sabedoria, em meio às vertentes oligárquicas da época, uma estrela sólida de passos em equilíbrio com a coletividade cratense. O médico Marcos Cunha (neurologista), então do Partido dos Trabalhadores (13) por volta de 1989 se candidata para o cargo maior do município.As campanhas eleitorais foram alfinetadas. Em cada bairro a disputa fazia enfurecer e apaixonar os eleitores. Históricas carreatas tomaram as ruas. De um lado o dinheiro fazendo o espetáculo na campanha, do outro a criatividade do palanque em cima do velho caminhão, e falta de grana que faziam dos comícios um show de inventabilidade a parte. A campanha seguia acirrada com a mão do Governo Tasso a financiar a empreitada do concorrente maior de Marcos Cunha, e o povo comprando os brindes dos comitês do PT para levar a perspectiva de ruptura com o passado adiante.
A nova força política da cidade representava muito mais do que um novo nome. Carregava consigo toda a simbologia da recém-democracia, de mudança de fato. Uma ruptura com o atraso dos coronéis, do anacronismo das oligarquias, não no aspecto do homem das mudanças como se viu nas eleições no ano anterior para o Governo do Estado. Mas, de uma revolução que o Crato nunca imaginava que pudesse possuir, e se viu muito próximo de conquistar este ideal. Um governo independente, que seria altamente perseguido pelo “galeguim de olho azul”, mas pertenceria incrustado na alma do guerreiro povo do Crato. Marcos Cunha chegou a ficar em segundo lugar nas pesquisas, a míseros três pontos percentuais do primeiro colocado (praticamente empatado). O desespero tomava de conta do poder tradicional da cidade, o novo governo via o médico petista como uma afronta, ousadia de um doutor no sul cearense. Uma eventual possibilidade de ameaça ao seu recém-comando que se dizia ser das mudanças (deste episódio já se poderia tirar a conclusão que as coisas iriam mudar apenas para a patota dos gestores da época). Foi uma histórica e vitoriosa campanha da esquerda cratense, mesmo tendo perdido as eleições. Os empecilhos de todas as forças que via naquela corrente vermelha a impossibilidade de permanecer nas nascentes do ouro fez pela primeira vez um embate de equilíbrio de guerra entre a esquerda e a direita no interior do Ceará (mesmo as armas da direita sendo de destruição de massa).
Da memória da infância lembro muito bem do dia do comício final na Praça da Sé (centro do Crato) do candidato do Governador Tasso. Foi armado um imenso palco jamais visto naquela cidade. Fogos intermináveis que fazia a noite de dia. Governador presente, babões entusiasmados lambendo seu frio suor. Praça lotada. Era um pequeno na multidão. No instante em que o Sr. Governador foi discursar ao povo veio o primeiro golpe contra a candidatura da esperança, Marcos Cunha. Fogos ainda a celebrar o “Governo das Mudanças”, ainda nas suas primeiras palavras, a energia de toda Praça da Sé vai embora. Tudo escuro, microfone mudo. O clima ficou tenso com a falta de energia elétrica. Passou alguns minutos, até que a força na luz voltou. Dando seqüência ao seu discurso, o Sr. Governador Jereissati supôs que aquele episódio da luz foi para calar o seu discurso, e tinha sido molecagem da turma do PT. A falta de energia foi atribuída aos camaradas de Marcus Cunha e Cia. Na época o PT era visto como grupo de comunistas confuseiros e arruaceiros na cidade. No mesmo momento, entendi qual era a pretensão obscura do então governante que tinha derrotado os homens de Juazeiro. Fiquei frustrado por saber naquele momento que não iria ver um sonho coletivo se concretizar no Crato. Desde a campanha das “Diretas Já!” até as eleições municipais nunca tinha visto um clamor tão marcante e sensível a comunidade cratense. No entanto, nas urnas ainda de cédulas de papel, o povo preferiu Waltim a Marcos Cunha.
No Seminário, bairro mais populoso do Crato, morava minha inesquecível avó. Na noite que antecedeu as eleições fui visita-lá e percebi um fenômeno enigmático e muito estranho nas calçadas. Coisas misteriosas e estranhas aconteceram no Bairro do Seminário naquela véspera de dia das eleições. Parecia festa ou noite de vigília para os santos da igreja. De madrugada, as pessoas ficavam nas calçadas esperando o preço do voto. A caminhoneta de cor clara logo chegava para distribuir os quitutes com gosto de moeda. Trocados a todos das calçadas para acabar de vez com a ousadia do médico. Dava até vontade de pedir também, mas minha avó e os pobres santos do Seminário me continham ao comércio do voto.
O apagão da Praça da Sé, junto ao misterioso fenômeno das pessoas sentadas em suas cadeiras nas calçadas mudaram definitivamente a história daquela eleição, e da cidade. Tudo se encaminhava para uma vitória histórica e primeira derrota do Governador. Triste para uma vitória que todos percebiam, todos queriam, mas que na escuridão, na velocidade das rodas e distribuição de dinheiro mudaram para sempre a rota daquele município, que até hoje sofre por conta do destino ceifado pelo poder da criatura que se dizia acabar com o coronelismo no Estado.
O final destas lembranças os cearenses já sabem: décadas do coronelismo industrial no poder, Crato a ficar atrasado em relação a outras cidades do Estado, a perder sua identidade, sua postura de princesa, e sua força. O ex-candidato Marcos Cunha nunca mais quis ousar como político, que pena! Ache bom ou ache ruim, recordações de uma infância questionadora, é isto!
Obs.: a imagem do cartaz na época da campanha eleitoral mostra a primeira campanha em que o médico Marcos Cunha (PT – 13) se candidatou como vice-prefeito de Raimundo (PMDB – 15).
Texto de Tiago Viana - Do Blog Rastreadores de Impurezas








6 comentários:
Excelente resgate da memória política do Crato. Naquele ano: 1988 e não 1989, como cita o título do artigo, o Crato perdeu o trem da mudança e de uma real perspectiva de dias melhores. Outro pequeno reparo ao texto foi que o prefeito eleito naquele ano foi o Sr. José Aldegundes Gomes de Matos, mais conhecido por "Zé Adega" e não o Sr. Walter Peixoto, eleito em 1982 e portanto era o prefeito àquela altura. Quanto à falha de energia elétrica a mesma foi motivada por um pequeno "curto-circuito" nas instalações da Substação da Chesf, em Milagres, deixando por poucos minutos toda a regiãoas escuras. A administração Regional da Coelce, na qual eu trabalhava, não recebeu na época, nenhuma indagação sobre os motivos daquela falta de energia. Parabéns ao Tiago Viana pela lembrança.
Grande Carlos Eduardo, obrigado por fazer as correções. Já modifiquei no post dos RastreadoreS. Foi legal saber qual foi de fato o motivo da falta de energia. Obrigado pelos elogios, abraços.
Caro Tiago
Esse resgate foi muito importante, pois mostra as razões que hoje significam a perda de espaço que o Crato sofreu. Se o Crato não representa nada, na partilha de poder político, deve-se justamente a essa camarilha, que através de manobras financeiras, mantiveram-se no comando, trazendo para a cidade, o onus da compra dos votos negociados.
É uma pena ver uma cidade considerada de vanguarda, com uma história político cultural bem consolidada, estar a sofrer essa crise de identidade, e de abandono.
A população do Crato precisa rever esses conceitos utilizados até hoje, e criar mecanismos para recuperar esse poder, e os espaços perdidos.
Thiago, no Brasil, e não diferente aqui no Crato, o pouco que os Pais e Mestres ensinam aos filhos e alunos, durante anos e mais anos, o Cinema Corrupto e Corruptor destrói em poucas horas de projeção... Os governos, os seus babões, a "elite dominante", ou seja os detentores do capital, alardeam contra isso nos bastidores, mas não têm a coragem de destuir o mal pela raiz.
Saudações Geográficas!
João Ludgero
Parabens Tiago....pela lembrança, mas voltando a outras eleições...epóca da ZEBRA. nosso MDB da epoca tinha 02 chapas, e uma delas era encabeçada por Dr. Raimundo Bezerra e a outra pelo Eudoro Santana...pense nesse MDB cratense, mas infelizmente as ARENAS derrotaram o que seria otimo pra o CRATO.
Mas é isso mesmo , vamos tocar o barco...
Também quero cumprimentar o Tiago por nos trazer a lembrança daquele significativo momento da história política do Crato, com reflexões importantes. 1988 foi o ano em que ingressei no PT. De cara participei da campanha de Marcos Cunha Prefeito e Carlos Luna Vice. Considero que aquela campanha, com muita militância voluntária, foi um ensaio para a bala campanha do Lula no ano seguinte.
Era uma loucura, mesmo. Terminava os comícios e as pessoas não queriam deixar o local. Para atender o povo, muitas vezes fazíamos caminhadas dos bairros até a Praça da Sé. Foi mesmo uma campanha marcante.
Quero também fazer uma reparo. Os cartazes são: o que tem somente Marcos Cunha, da campanha de 1988 e o outro, com Raimundo Bezerra, da campanha de 1992, em que marcos foi vice de Dr. Raimundo.
Obrigado, Tiago, por fazermos lembrar aquele tempo.
Amadeu de Freitas.
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